# Maria, Rita, Ana e Edith #
Maria
"Uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta"
"Uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta"
Essa é Maria. Maria despertou em mim aquela novidade toda! Maria chegou assim: você conhece tal lugar? Já foi em tal lugar? Sabe do fulano? Maria sempre cercando minhas esquinas pra ver se eu caía na sua arapuca. Caí. Bom, na verdade capotei algumas vezes antes do mergulho que quebrou minha cabeça. Mas Maria... ah, essa nem se tocava. Maria é uma daquelas mulheres que vem mesmo só pra fazer vendaval. Venta, e vai embora. Foi a primeira mulher que me tirou do sossego e conforto dos meus pobres e jovens pensamentos arraigados no travesseiro.
Maria andava por aqueles corredores como se não devesse nada a ninguém. Foi o primeiro espírito verdadeiramente livre que conheci. Dona de si e decidida, acredito que tenha feito de mim sua pequena missão. Parabéns, Maria! Você conseguiu me transportar para este lado da força! Maria era viva e bondosa, e me ensinou que tudo tem seu tempo. E mesmo embora nunca tenha consumado qualquer dos meus desejos com Maria, o sentimento foi mais que suficiente para me derrubar do muro com a cara no chão. Doeu um bocado na queda, mas ao me levantar percebi que a grama do lado de cá é realmente bem mais verde.
Assim que descobriu minha paixão secreta que nem era mais tão secreta assim, sorriu. Aqueles óculos enormes que lhe tampavam toda a cara sempre sambavam quando ela ria. Pois sorriu, agradeceu o presente e totalmente sem jeito foi embora. Acredite ou não, naquela época ainda era comum presentear com CD's. Ainda vejo Maria por aí, vez ou outra. Continua com a mesma cara de sorriso e óculos fundo de garrafa. Maria não sabe, mas mudou tudo por aqui. Não aborrecerei Maria com essa informação inútil. No dia do juízo nos veremos na fila para o Woodstock do inferno.
"A Rita levou meu sorriso no sorriso dela, meu assunto [...] Levou os meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos, o meu coração, e além de tudo me deixou mudo um violão"
Ai a Rita! A Rita tinha que ser nome de furacão, sabe? Daqueles que a gente liga a TV e tem repórter dizendo o furacão Rita devastou mais uma cidade... pois é isso mesmo que ela é. Só existe uma coisa que você precisa saber sobre a Rita: depois que ela passa, é impossível permanecer intacto, no mesmo lugar e do mesmo jeito. A força gravitacional da Rita é coisa que nenhum astrônomo até hoje conseguiu explicar. A atração e repulsa são igualmente proporcionais. É um daqueles paradoxos de amor e ódio que talvez nem Shakespeare! Nosso amor nos levou a todos aqueles lugares que eu poderia jurar que não existia - os lugares bons e os ruins. Sentadas em cima de um tapete-violão-mágico olhando para o céu e vomitando ideologias sentimentais que talvez... talvez nem Shakespeare!
A Rita chegou assim: de uma vez. Como um daqueles cachorros gigantes que entram em casa pra pegar o rato: derrubando tudo. E é claro que eu caí junto e quando vi já estava dentro da terceira guerra mundial. A Rita é a personificação da palavra 'contradição'. O monstro do lago Ness por fora e a fantástica fábrica de chocolates por dentro. Oh, a Rita era um doce repleto de calorias autênticas, artísticas e inspiradoras. O limite entre uma coisa e outra era sempre muito tênue, o que deixava as coisas constantemente tensas. Mas nada como uma boa cantoria da Rita pra deixar tudo bem de novo. Sabe, a Rita é cantora. Pois sim. Nunca vi alma cantando como aquela, voz de provocar mitose celular. Mas já te falei de paradoxos e contradições, não é? Pois pensa que Rita era a coisa mais tímida do mundo! Pois pra mim era bem besta mesmo, isso sim! Eu, com aquele vozerio todo, estaria bem rica hoje. Mas ainda hei de assistir a Rita soltando a voz no especial de fim de ano da TV.
Foram muitos anos, mas eu fiz um acordo comigo mesma de apenas três parágrafos. A Rita não pode saber disso, afinal três é número ímpar. E está aí uma das coisas que me sobraram da Rita: não ter vergonha da falta de ar causada pelos números ímpares. A Rita sempre me deixou muito a vontade com a minha loucura, talvez seja um dos motivos de ter durado tanto. Mas não nego: o sexo era o ápice. A comunhão que tínhamos fora da cama potencializava-se em cima dela. Em cima da cama, do sofá, da mesa da cozinha, no chão... Mas a Rita não se lembraria mais disso. A Rita me odeia, sabe? A Rita me acusa de um crime que tentei cometer. Não tiro sua razão. Não vejo a Rita há muitos anos, mas acredito que seja melhor assim. Outra que não faz ideia de como mudou tudo por aqui. Sem problemas, nossas loucuras paralelas irão se encontrar no infinito.
"Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina? Quem já conseguiu dominar o amor? Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa? Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar!"
Oh, Ana! Sempre tão perto e tão longe! Eu sinto que Ana sempre está por aqui, só não consigo vê-la. E vê-la sempre foi coisa muito difícil. De todas, Ana é de longe o caso mais complexo. E nunca vi pessoa mais discreta que aquela. Tanta discrição capaz de enganar a si mesma. E essa discrição toda foi que causou intencionalmente nosso encontro. Mas Ana não sabia onde aquela conversa despretensiosa e carregada de Chico iria dar. Provavelmente Ana já se arrependeu disso algum dia.
Nunca vi pessoa mais chata. Ana é daquelas que não ri das suas piadas sem graça porque são sem graça mesmo. Não se prende a detalhes, mas também não esquece uma palavra que foi dita. Ana é correta, metódica, centrada e provavelmente separa o lixo orgânico do reciclável. Exceto a parte metódica, é simplesmente meu oposto. Fico pensando como foi mesmo que chegamos àquele sentimento todo. E não foi pouco. O amor nos caiu como uma chaga, um câncer que carecia de tratamento, cuidados diários e o principal - uma incubadora para cada uma, para que ficássemos o mais longe possível uma da outra. Foi a primeira vez que lutei contra um sentimento. Foi a primeira vez que fui coagida a não poder querer. Pois te digo, o resultado é exatamente o oposto. Ana que o diga.
Quando Ana estava comigo, não estava. Quando estava longe, mais longe ainda. Nunca tive Ana de fato. O que tínhamos, na maior parte do tempo, era cigarro de erva sentimentalista que nos fazia divagar por horas a fio em palavras escritas por aqui e por ali. Citações soltas e discussões frias por e-mail. A única relação da qual tenho provas documentais salvas por aí. Até que um dia resolvemos entrar na nave do bom senso e partir sem olhar pra trás. Nunca mais olhamos pra trás, mas sei que ainda estamos bem aqui.
"Non... je ne regrette rien"
Deus, a Edith! Edith é um mistério! É um daqueles seriados de suspense de TV que no último capítulo, além de não resolver nenhum dos mistérios, deixa mais alguns e acaba - de propósito. É um conto da Lygia Fagundes Telles; não começa, não termina. Edith é artista, muito embora eventualmente utilize sua criatividade para o mau. Edith tem um dom divino para irritar as pessoas. Mas quando não estou planejando seu assassinato, estou pensando em como ela consegue satisfazer seus pequenos-intensos desejos diários disso e daquilo. Edith finge que esquece, mas acho que não esquece é de nada.
A Edith me aparece assim: do nada. Num emaranhando de coincidências digna dessas séries de TV aí. E me encantei na mesma velocidade do flerte fatal. Edith é dessas mulheres que são particularmente apaixonantes. Não consegue se decidir sobre qual prato pedir, mas é absolutamente firme quanto aos seus planos e projetos. Edith é dessas que acha graça em tudo e já leva na cara toda um monte de dentes que faz questão de exibir por aí. Mas não acredite que Edith se doa assim por qualquer sorriso, ah não. Edith é dissimulada, como um bom felino que é. Quando soube da minha paixão tratou de sumir, e se esconder. Você sabe, no bom estilo tire suas patas de mim, humano!
Edith guarda um segredo que nem ela pra saber. Edith carrega o universo inteiro dentro dos olhos, sabia? Ah, eu não sei como isso é possível não. Mas Edith é uma dessas pessoas que são escolhidas por algum motivo especial, que nem ela pra saber. Só carrega e pronto. Sem contar que Edith ainda carrega outros seres dentro de si que nem caberiam. É bem provável que em breve dispense por aqui algumas laudas unicamente para ela - contrariando minhas vontades racionais. Edith anda por aí, ela sempre está por aí e esse é o problema. Bem, pelo menos sob minha perspectiva não é problema não. O problema é que ela é a pessoa errada. Mas tem coisa mais certa que isso?
Comentários
Postar um comentário