Tal do cético cheio de certezas!
Então. Preciso ser breve, pois o
mundo se acaba em água lá fora. E como se não bastasse a pessoa que é meu cérebro,
a chuva só vem pra reafirmar minhas angústias. Recordo-me, inclusive, de épocas
em que quando caía água lá fora, caía aqui dentro também. Era certo! A música
que a chuva produzia, o som do vento e dos trovões, o frio e a água que
escorria pela janela fechada – naquele tempo isso tinha um significado tão
mórbido que suportar calada era impossível. Aí chovia aqui dentro também. E na
mesma proporção. Enquanto durasse chuva lá fora, durava chuva aqui dentro. Não sei
exatamente em que ponto da minha vida consegui superar essa nostalgia, mas
mesmo assim, até hoje, quando chove, bem, algumas coisas inexplicáveis ainda
acontecem. Mas como disse no início, preciso ser breve, pois quando o mundo se
acaba lá fora, ele se acaba aqui dentro.
Você me conhece. Ou não. Se
conhecesse saberia que as minhas certezas vem da dúvida. E duvidar é uma arte
para poucos. Na verdade, diria mesmo que é um pesar. Nada de arte nisso. É um
fardo não seguir como pede a música, não caminhar como andam os outros passos. A
dúvida é um avesso. É uma contramão. E quem tem costumes de andar por esse lado
da estrada sabe o que digo. Meu ceticismo é minha religião bastarda, minha fé
repousa nas minhas dúvidas e o meu deus, meu Deus, sou eu! Às vezes, confesso,
questionar coisas que parecem ser bem óbvias não seria pura ignorância? Mas aceitar
todas elas sem o mínimo de crítica não seria a mesma coisa? Alguém por aí, com
seu charuto cubano numa mão e uma dose de William Lawson's noutra, poderia
dizer oh, mas as certezas são criadas
pelo equilíbrio, equilíbrio, minha cara! Elementar, elementar...
Elementar. E tentando justamente equilibrar
minha loucura com minhas máscaras diárias, ao longo do tempo, e através de todo
meu conhecimento teórico e empírico, consegui, mesmo dentro de todo o ceticismo
que me cerca, criar algumas certezas, mas tendo plena consciência de duas
coisas – a de que certezas são só minhas e só fazem sentido a mim e a de que,
claro, eu posso estar completamente enganada e a qualquer momento essas
verdades imutáveis podem cair por terra. Mas antes eu preciso te explicar
porque é tão difícil ter certeza. Não se trata simplesmente de questionar tudo
que existe por aí, displicentemente, assim, como qualquer encéfalo pode fazer. Trata-se
de analisar tudo em seu âmago, extrair tudo o que há pra ser exposto e verifica-lo
exaustivamente sob uma ótica onde todas as possibilidades estão disponíveis. Sei
que parece estúpido, cansativo, tedioso, metódico demais e, da mesma forma,
absurdamente desnecessário. Mas minha natureza me faz crer na teoria do “menos
pior”. Sabe, “menos pior”? É “menos pior” estar errado e descobrir a verdade do
que acreditar cegamente em algo e descobrir que não passa de um imenso engano. É
mais fácil crer do que deixar de crer, entende? Claro que isso, pra mim, faz
todo sentido. É uma das coisas que me permite respirar. E eu vivo bem assim,
obrigada.
Essas tais certezas regem aquilo
que chamo, carinhosamente, de vida. Me dão o suporte que preciso para tomar
algumas decisões importantes e às vezes estragam meu dia também. Tentarei me
lembrar das mais importantes, em ordem cronológica, as que possuem um impacto
maior e se eu me esquecer de alguma, me perdoe, continua chovendo.
Não existem fatos, apenas interpretações.
Você sabe bem quem disse essa
frase, eu sei. Mas agora eu quero que você pense numa garotinha com seus
quatorze, quinze anos, com sérios problemas de patologia mental, absurdamente introspectiva,
com certo pânico de pessoas e com medo da sua própria voz... tendo seu primeiro
contato filosófico de verdade com ele, o alemão que estragou minha vida. Nietzsche
é provavelmente o motivo pelo qual me tornei a maioria das coisas que sou hoje.
Em nenhuma outra fase da minha vida abri tanto e tão rápido minha mente quanto
naquela época. Aquele senhor do charuto poderia dizer novamente que é
elementar, pois é justamente nessa época onde iniciamos nossas críticas e
definimos muito do que seremos. Elementar, sim. E que bom que minha primeira
vez foi com ele. Filosoficamente falando, claro.
O “fato” de não haver fatos
explica qualquer coisa, cessa qualquer discussão. Até mesmo esse paradoxo! Lembro-me
que depois de incorporar essa simples frase como uma certeza, praticamente
todas, repito, todas as minhas angústias e desentendimentos com o cosmos simplesmente
desapareceram. Porque eu descobri que o problema não está aqui nem ali. Que a
mesma coisa pode ser observada de diversas formas, sob vários ângulos, e sempre
será uma coisa diferente! Foi nesse contexto que descobri que ninguém está
errado, e que ninguém está certo também. Que tudo não passa de mera teoria da
relatividade. Foi assim que me tornei cética. E foi assim que tudo começou a
dar errado de verdade, agora com embasamento teórico. Obrigada, Nietzsche.
Não é a vida como está, e sim as coisas como são.
É fato que Legião Urbana mexeu
com muitas cabeças nos anos oitenta e noventa. O Renato chacoalhou a minha um
pouco mais tarde, mas a intensidade é a mesma. Essa citação está dentro de uma
das cinco melhores músicas da banda, na minha sempre humilde opinião. Uma música
sem um contexto aparente, criada por pequenas frases carregadas de muito
significado. E essa frase veio para completar o sentido de uma teoria daquele
maluco alemão – o eterno retorno. Mas não vou falar disso aqui agora, um dia
dedicarei toda uma dissertação a esse tema que não me deixa em paz.
Cada um tem seu tempo.
Ela disse essa frase ao seu amigo,
que me olhava com olhos de espanto. Estava o repreendendo após dizer algo de
ruim sobre mim. Nunca me esqueci. Me enchi de vergonha e saí logo dali, torcendo
para que ninguém tivesse percebido que eu tinha escutado alguma coisa. O contexto
daquela época era de mudança também. Estava, de alguma forma muito estranha,
apaixonada pela pessoa que disse essas palavras. Era estranho, pois naquele
tempo acreditava que algumas questões jamais mudariam, como minha orientação sexual,
por exemplo. E ao dizer que cada um tem seu tempo fiquei aterrorizada. Seria aquele
meu tempo? Mas não era possível! Afinal de contas nunca havia me dado conta de
certas coisas... mas naquele momento eu entendi tudo! Era apenas uma questão de
tempo. Sentar e esperar. E depois que aceitei o fato tudo passou a fazer
sentido. E houve inclusive, depois de mais algumas leituras e outras tantas experiências,
uma, digamos, adaptação dessa premissa. Minha certeza hoje me diz que “tudo tem
seu tempo”. Se ainda não está da forma como você acredita, ou é porque não é e
nem nunca será, ou porque ainda não tem consciência do que/quem é de
verdade. Não é destino. É caos.
Cada um com suas prioridades.
Frase de outra mulher. As mulheres
me ensinaram muito mesmo... Mas o contexto em que ela foi dita era bem mais complexo. É uma daquelas histórias da minha vida onde apenas as pessoas muito
próximas de mim conhecem todo o enredo – amigos e psicanalistas. E tenho mais psiquiatras
que amigos. Essas palavras foram ditas dentro de muito rancor, muita gastura,
muito ressentimento. Mas da mesma forma que as outras, faziam todo sentido. Não
me recordo exatamente do dia em que elas foram jogadas na minha cara, mas me
lembro bem do meu sentimento de dissabor, misturado com todo aquele afeto. Aquela
coisa agridoce de sempre.
Mas enfim. O fato é que cada um
com suas prioridades! Se você acreditar que não existem fatos e que tudo
depende unicamente de uma interpretação você entenderá bem o que representa
essa citação. Viu, Nietzsche explica tudo! Mas essas palavras me marcaram muito,
pois a pessoa que as proferiu não era exatamente adepta desse pensamento nietzschiano...
mas o tema não é esse. Depois das
reflexões rotineiras pude ter certeza de que tudo mesmo depende do que
escolhemos como prioridades. E de que não há nada de errado nessas escolhas
desde que você tenha consciência de suas consequências e seja maduro o
suficiente para enfrentá-las.
- início de pausa
dramática -
(Você é chata.
Outra mulher, claro! Mas sobre
ela e contextos nada direi. Apenas que, nesse ponto, estava redondamente certa!
O que fiz depois disso foi aceitar e tentar conviver pacificamente dentro de
toda essa chatice que sou eu.)
- fim da pausa
dramática –
A tendência das coisas é sempre piorar.
Imagine que eu mesma disse estas
palavras?! E para quem? Mulheres, sempre elas... e é engraçado pensar que o
contexto em que ela foi dita é muito parecido com aquele das tais
prioridades... mas não. Essa mesma pessoa também fez revelações perturbadoras
sobre a minha pessoa, ora vejam! Disse-me que sou intensa. Disse-me que sou
manipuladora. Óbvio que perdi algumas noites de sono pensando sobre as possibilidades
de uma coisa dessas ser verdade ou não. Mas talvez nada tenha me marcado tanto
quanto as palavras que eu mesma disse. Pude ter certeza de que a tendência das
coisas é só piorar mesmo. Independente do meio. As crianças crescem. As flores
murcham. A noite amanhece. A música acaba. As pessoas envelhecem e morrem. Os sentimentos
envelhecem e morrem. Nada no mundo é bom o suficiente para alguém para durar
para sempre. É claro que essa pessoa não pode, de forma alguma, ser hipócrita,
moralista ou fanática, pois para admitir uma coisa dessas é preciso ser muito
sóbrio.
Mas como mesmo um cético pode ser
carregado de tantas certezas assim? Ironias... ironias apenas. É preciso
algumas certezas para se conseguir viver em meio a tantas dúvidas. É preciso
algum tipo de suporte, de apoio, mesmo que engano, mesmo que placebo. Você sabe
como funcionam as coisas. Simular é viver! Foi produtiva a conversa de hoje,
não? Você é mesmo bom de papo, meu amigo! Agora, se me der licença, preciso me
sentar. Disse no inicio que precisa ser breve. Ainda chove, e uma dessas
pequenas certezas que aprendemos todos os dias me ocorreu numa dessas conversas
despretensiosas dia desses. Chuva dá vontade de sentar.
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| Não é febre. É só chuva. |

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