# Sessão da Tarde #

Você sabe como funciona, todo filme é assim. Existe aquele momento durante a saga do herói onde o protagonista, encurralado diante das suas incertezas, consternado e a um passo da derrota, tem aquela grande revelação, aquela mágica epifania, aquela... isso:
  • de cabeça baixa, sentado na cama, chega até ele as palavras desafiadoras de My Way, na voz robusta de Frank Sinatra, através de seus vizinhos chineses que não fazem muita questão de manter o silêncio no prédio após as 22h;
  • o detetive que se encontra em meio a um caso aparentemente sem solução, quando seu colega coadjuvante entra em cena e lhe entrega uma caneca de whisky dizendo que aquilo talvez o fará se sentir melhor, e após tomar um gole lento e desconsolado a música de suspense aumenta repentinamente, junto com seus olhos então arregalados, dá um beijo na bochecha do coadjuvante e dizendo que ele é um gênio e repetindo "é isso! era isso o tempo todo! grãos de trigo! trigo!", ou;
  • o lutador ensanguentado e caído na lona, ouve a confissão de seu adversário "seu pai tinha essa mesma expressão antes de morrer" ou "sua filha" ou "sua esposa" ou qualquer outro afeto que faça sentido dentro do previsível enredo, para então erguer-se novamente, agora com sua nova razão de viver, ou;
  • o super herói alienígena capturado e torturado pelo seu arquirrival que, em meio ao delírio da fatídica e momentânea perda de consciência, reencontra em sua mente a mensagem de seu falecido pai dizendo frases de efeito sobre resiliência, coragem e bravura, para então reabrir os olhos e evocar forças sobrenaturais de seus antepassados (ou qualquer outra linguiça de roteiro preguiçoso) e continuar tentando salvar a humanidade, ou.
Bem, você já deve ter entendido. É aquele ponto de virada, o momento genial e involuntário de eureka, a última cena em que o protagonista será visto como fraco ou incapaz, o momento em que ele desiste da derrota e para de sentir pena de si mesmo, o momento que... o momento que existe em noventa por cento de todo filme.

Mas antes, uma pausa.


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Eu me lembro de um filme que passava na Sessão da Tarde (interessante usar esse termo "que passava" como se fosse uma transmissão contínua e ininterrupta - algumas vezes a impressão era exatamente essa). Era um filme sobre viagem no tempo (Feitiço do Tempo? Não, essa é aquela comédia romântica com o Bill... Pullman? Não, não, o Pullman é o do Independence Day, é o Bill... Bill... Murray, cacete! Um dos caça-fantasmas, sabe? Mas por que eu estou pensando em caça-fantasmas? Ah sim, Feitiço do Tempo não tem nada a ver com o filme que eu estou falando, não é porque tem "tempo" no nome que... se bem que esse filme também faz sentido para o que eu estou tentando falar... mas não é esse... volto depois de um Google).

Eu me lembro até da capa (mas por que será que eu me lembro da capa de um filme? Bom, existe uma explicação bem óbvia, sou da época das vídeo locadoras, ficção científica ou algo parecido sempre foram meus preferidos. E que coisa mais cafona ficar dizendo "sou da época que"... O que? Ah sim, a capa! Me lembro de um fundo azul, azul bem escuro, um maluco correndo no meio de uma rua deserta e um imenso relógio ao fundo. Ainda não consegui encontrar, eu não entendo como o Google não consegue adivinhar meu pensamento!)


Lembrei! Meia noite e um! (Lembrou nada, a "Lista de filmes com loops de tempo" da Wikipedia que nos lembrou! E aliás, que coisa interessante de se ter dentro da Wikipedia, uma lista absurdamente específica como esta! E nossa memória até que não está tão ruim, a capa tem o tom azul, existe o relógio, mas nada de maluco correndo. E revendo essa capa... eu fico me lembrando o quanto esse filme é horrível).

O filme é ótimo, se você for uma criança de dez anos de idade. É meio óbvio que não me lembro em detalhes do enredo, mas a questão central é essa: um homem, dado um acaso qualquer, fica preso em um único dia para sempre! Então, todo dia à exatos meia noite e um, o dia anterior se repete novamente, exatamente da mesma forma, com as mesmas falas e o mesmo roteiro relaxado. Nossa, quando criança isso era o ápice da ficção científica! (Meu raciocínio é perturbadoramente confuso, um emaranhado de teias e ligações desconexas, eu não faço a mínima ideia do porquê comecei a falar sobre esse filme).

Lembrei.

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No filme cujo a protagonista sou eu, estou presa à cena da iluminação, do lampejo repentino de lucidez, do ponto de virada. Mas essa cena se repete dia após dia após dia após dia... Eu sei com clareza, com nitidez o que eu devo fazer, qual rumo eu devo seguir, com algumas inseguranças, mas certa de que não há outra saída. E então... eu não faço absolutamente nada. No dia seguinte o Frank Sinatra me enche novamente de certezas e nada acontece outra vez.

Enquanto estou presa dentro dessa cena, a claridade me consome, a raiva me consome, o suco gástrico me consome, até o momento em que a dúvida retorna, me dá a mão e me acompanha no caminho até o dia seguinte. Todo final é traumático. Você sabe como funciona, todo filme é assim.




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