Tal de andar

Então, a frase será essa: eu preciso andar. E a sessão de hoje será insuportavelmente curta.

É bem simples: significa mover-se, sair do lugar, mas eu gosto mesmo é dos termos "caminhar" e "andar", definem melhor. E quanto mais eu ando por aí, mais sou consumida por uma urgência que sapateia meus pés e desassossega minha mente. E não me importa a distância ou a direção, o que me interessa é simplesmente mover-me. O "movimento estático" também é muito importante, não fosse um paradoxo. Significa mover-se sem sair do lugar. Mover minha mente, mover minha alma. De alguma forma, bastante errada por sinal, eu sempre tento me mover, mas conseguir mesmo é outra crônica.

Aristóteles dizia que havia certa divindade no movimento dos corpos celestes, caso contrário, como poderiam eles sair do lugar? O céu era, então, carregado por alma dos deuses mortos/vivos que fazia com que o firmamento dançasse ao som de flautas gregas. É, bem... bastante lírico. Mas deve mesmo haver algo de divino em mover-se. Sabe-se que desde os primórdios da humanidade o homem nunca sossegou num canto só. E independente dos motivos que o levava a isso, me parece que herdamos essa inquietação. Tanto que, percebo que no mundinho em que vivo, a mudança passou do status de uma opção viável para necessidade irremediável. Minha urgência cresce.

Existe uma vertente na psicologia (ou na psiquiatria, perdoe minha ignorância) que trata de estudar o movimento de uma forma bem interessante. A Análise do Movimento (ou psicomotricidade) analisa o movimento em si como uma ação e não sua representação simbólica. Como vou explicar isso... bem, não há separação entre homem e corpo, ambos, ainda segundo esse conceito, são a mesma coisa. Então quando nos movemos, independente da forma, agimos, e dessa forma conectamos mente, corpo e alma a fim exprimir algo que talvez estivesse retido e/ou reprimido. A psicomotricidade sugere que o movimento é o nosso recurso fundamental para ação, e é exatamente nesse ponto que eu queria chegar.

Segundo o Amarante (ou o Camelo), eu preciso andar num caminho só, mas a Takai diz que eu não fui capaz de me mover daqui até ali. Ambos, porém, estão repletos de razão. Ao mesmo tempo em que o movimento incide em minha vida como uma necessidade mais que urgente é impressionante a forma com a qual eu lido com isso - fazendo absolutamente nada. Bem, na verdade pequenos conjuntos de nadas que juntos fazem questão de significar alguma coisa, mas bem pequena, quase nada mesmo. Estava eu dia desses teimosamente tentando fazer uma daquelas coisas que insisto em acreditar que consigo, até porque todo mundo consegue afinal, mas recorro à famigerada frase de mamãe dizendo que eu - definitivamente - não sou todo mundo. Mas insisto também por conta de uma pálida e tola esperança de que a próxima vez poderia ser diferente, mas não.

Às vezes eu me sinto como uma criança que nunca foi a uma escola ou sequer saiu de casa para comprar pão, que nasceu e cresceu numa redoma de vidro esfumaçado assistindo tudo através de uma pequena fresta produzida por alguma tentativa de quebrá-lo. Como assim por que eu penso isso? Porque das duas uma; se o homem é um ser social, ou eu não sou humana ou... E inclusive você sabe que acredito nas duas hipóteses, não é? Mas o que eu queria mesmo dizer é que dentro dessas tentativas desesperadas de simplesmente esquecer quem (ou o que) eu sou, depois de constranger pessoas e causar alguns danos, eu tenho sempre alguma epifania e ainda consigo criar pequenas filosofias, muito embora não acredite nessa história de que há males que vem para o bem, o que acontece - o que sempre acontece - é que já estou desviando muito do assunto.

Então, no meio de tanta gente eu me sentia aquele mesmo bom e velho buraco negro. E é sempre assim, sempre! Quanto mais gente, mais solidão, e quanto mais solidão mais urgência de andar, e quanto mais urgência de andar mais eu não me movo, e quanto mais inerte mais gente por perto, e quanto mais gente, mais... Mas porque será que eu não consigo me mover? A única coisa que me impede sou eu mesma. É como se eu sempre fosse acometida por um suave conformismo que aquietasse meus desejos mais profundos. E quanto mais profundo, mais suave recai o peso da minha indolência. E no que diz respeito a mim, sou daqueles bêbados na mesa do bar que conseguem apontar todos os defeitos na atual política econômica, mas não trazem uma solução sequer. Eu-preciso-andar. Mas são tantas direções que acredito que essa liberdade toda me faça recuar. Eu sou... inacreditável!

"Não é que eu queira estar pura da vaidade, mas preciso ter o campo ausente de mim para poder andar. Se eu andar."
(C.L.)


Epílogo.

Eu não posso dizer ao certo se aconteceu ou não, se foi um sonho ou não. Acontece que foram as primeiras palavras que me surgiram hoje e provavelmente estão - desmedidamente - fora de contexto. Não importa, como todo o resto o importante é tirar de mim. Então é assim:

Ela perguntou o que havia. O que há, ela perguntou, com uma cautela de quem alimenta um tigre na boca com um pedaço de carne na mão e teme que ele devore o restante do braço. A outra respondeu, atravessando os olhos da outra, que ela sabia. Você sabe, a outra disse com as sobrancelhas erguidas encarando num olhar desafiador. Contorceu-as pra cá e pra lá, pensou até em transformar sua afirmação numa pergunta, mas o ponto de interrogação foi sugado pela cara da outra. E não havia mais o que ser dito; ou entende-se tudo, ou não se entende nada. 

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