Tal de confiança

Então, justamente. Estava eu tentando terminar, de uma vez por todas, uma postagem sobre uma rede social aí, e tive uma daquelas deliciosas epifanias. O nome desse post não te ajudará muito a entender, nem o texto, nem nada, mas você já está acostumado com isso então não me venha. A questão é que eu percebi que eu tenho um blog-divã há pouco mais de três anos e nunca comentei sobre algo que falo o tempo todo, que corre livremente pela minha boca bêbada por sobre as mesas de bar: as pessoas das quais não confio. Pra falar a verdade não confio em ninguém, mas algumas pessoas gostam de ultrapassar os limites do meu bom senso pacífico e metem a unha no quadro negro apenas - parece - pra sentir o borbulhar da minha úlcera. E não é que elas conseguem?

Bem, a frase é essa: eu não confio.

Eu não confio em gente que para o carro em cima da faixa de pedestres. Essa é uma das poucas coisas no mundo que me tiram imediatamente do sério. Não existe uma só vez em que a pedestre aqui vá atravessar educadamente sua pequena passarela no asfalto em que não provoque algum tipo de confusão quando avisto a besta que possui uma hemorroida no lugar do cérebro parada em cima do meu único pedacinho de chão. Mas cérebro pra que mesmo, eu tenho um carro?! Eu nunca vou conseguir fazer você entender o quanto esse gesto aparentemente inofensivo me causa repulsa. Eu não contrataria alguém que para o carro em cima da faixa, mas tem mestrado em Oxford, para varrer o chão da minha empresa, entende? Não dá pra confiar numa pessoa que acredita que o mundo inteiro é só dela, camarada! 

Pra finalizar esse assunto eu só preciso contar uma passagem que aconteceu a long, long time ago, quando ainda era uma jovem adolescente estúpida, destemida e correndo por aí como se não houvesse amanhã. Foi no cruzamento da Avenida Tocantins com a Anhanguera, e se por algum erro no seu GPS você não conhece a cidade de Goiânia, bem... então eu não posso te ajudar. Mas isso não fará diferença. O que importa é que estava voltando da biblioteca Pio Vargas e ia fazer sei lá o que no centro da cidade quando o sinal de pedestres fica verde. Me lembro de que naquele dia estava particularmente muito estressada mesmo, mas como era adolescente qualquer pedra no chão me deixaria irritada. Então tinha um taxista parado exatamente em cima de toda a faixa. Parecia até que a prefeitura havia pintado a faixa para que ela fosse exatamente do mesmo tamanho do veículo. Aquilo ali, meu amigo, me subiu as ventas! As outras pessoas visivelmente incomodadas com o fato de terem de ser forçadas a caminhar quase que na pista contrária por conta do babaca, e eu... bem. Você sabe que todos os adolescentes são retardados, não sabe? Então eu abri uma das portas de trás do veículo e entrei. Imediatamente o motorista, num susto terrível, se vira e diz que está indo buscar alguém e eu... oh Deus, tenha piedade da minha alma! Olho para o motorista e digo que estou apenas atravessando a faixa, babaca.

- Tô atravessando a faixa, seu babaca!

Saí pela outra porta batendo tudo. Não olhei pra trás, mas me parece que ele ainda saiu do veículo, pois os palavrões que ele dizia estavam bastante claros. É evidente que jamais faria algo parecido hoje, e que as outras histórias parecem ruins perto dessa, como a vez em que machuquei o punho amassando o capô de um Gol branco, ou a vez em que um motociclista me seguiu até a porta da faculdade depois de xingar algumas pessoas da sua família. Lembro que alguns anos depois - ainda adolescente - vi num programa de TV alguém famoso fazendo exatamente isso. Fiquei em êxtase sabendo que talvez eu tenha sido a primeira pessoa a experimentar uma sensação de quase morte ao atravessar um carro-faixa. Mas passou.

Eu não confio em gente que joga lixo no chão. Olha, jogar lixo no chão é também uma das poucas coisas que me tiram imediatamente do sério. Primeiro porque preciso ficar catando o lixo alheio enquanto poderia estar fazendo algo muito mais interessante como simplesmente andar pela rua e cuidar da minha vida. Segundo porque, assim como parar o carro em cima da faixa, jogar lixo no chão demonstra uma falta de caráter terrível. Eu não sei você, mas eu não confio em gente sem caráter. As desculpas sempre são as mesmas, não cola. É inacreditável que ninguém consiga carregar o próprio lixo que produz durante alguns minutos até encontrar uma lixeira.

Dei uma palestra uma vez na faculdade sobre, se não me engano, aquele lance dos 5's. Na hora de falar sobre o "S" da limpeza dei bem uma olhada na sala de aula. O colega palestrante anterior havia distribuído chocolates, então você já imagina o cenário. Ao final da apresentação disse que havia formulado uma teoria: a de que o lixo é como uma daquelas mensagens telefônicas do Missão Impossível - eles explodem após cinco segundos. Então, é bem provável que se você não se livrar do lixo antes desse tempo ele explodirá bem no meio da sua cara. Disse que eu preferiria acreditar nisso que aceitar que todas as pessoas que fazem essa imundice não são dotadas do mínimo de bons modos e higiene. Ao final, depois que todo mundo já estava constrangido, a sala ficou limpa novamente. Pelo menos pelos próximos cinco segundos, a memória das pessoas é muito randômica.

Eu não confio em gente que fala alto. Bem, eu sempre tento ser uma pessoa discreta, mas toda a encenação vai por água a baixo quando alguém grita aquela última frase que você acabou de dizer. É feio, desnecessário, deselegante e dá vontade de enfiar uma manilha dentro da boca do ser humano. Também não confio em gente que não se pronuncia na hora de pagar a conta. Eu não tenho nenhum problema em não dividir, mas o silêncio me incomoda, é como se a pessoa realmente não estivesse se importando com o fato de que ela também consumiu alguma coisa lá do estabelecimento qualquer. Esquisito.

Já ia me esquecendo: não confio em ninguém que derruba alguma coisa e não pega. Essa é uma daquelas coisas que também demonstra uma falha tremenda no caráter. Alguém de derruba alguma coisa, vê e não pega não se importa com nada, nem com você. Eu não posso, de forma alguma, confiar em alguém que simplesmente não se importa, que ignora pequenas coisas, entende?

Eu não confio em ninguém que vangloria-se demais, que acredita saber a verdade do universo - e vangloria-se - por ter feito isso ou aquilo ou ter lido aquilo naquele livro. Eu definitivamente não confio em alguém que me interrompe quando estou falando. Acredito no que um professor do ensino médio disse uma vez: se alguém te interrompe é porque ela acredita que o que ela vai dizer é infinitamente melhor e mais interessante do que você estava dizendo, ou seja, não estava dando a mínima para o que você estava falando. Não confio em gente que não sabe perder e, muito pior, gente que não sabe ganhar.

Não confio em ninguém que diz que odeia política e utiliza frases como "tanto faz" e "não vai mudar nada" a respeito desse tema. Não consigo confiar em alguém que para de confiar em você quando você diz que não acredita em Deus. Não confio em nenhuma pessoa que diz que dinheiro não traz felicidade. Não dá pra confiar em pessoas que são irremediavelmente otimistas o tempo todo. Só uma nota: eu acho que gente otimista demais não tem cu. Sabe? Essas pessoas não soltam pum e não fazem cocô. Não fedem, não acordam com ramela nem com mau hálito, separam as roupas no armário por cor e, provavelmente, não transam muito. Em suma: são insuportáveis.

Jamais confio em alguém que não gosta de cachorro e/ou crianças, que no caso são a mesma coisa. Não dá pra confiar em alguém que não consegue perceber  essa inegável prova da existência de Deus, as coisas mais sublimes da terra; cachorro e criança. Não confio em gente que sente prazer ao ver sangue. Daquele tipo que entra em certos sites da internet para, deliberadamente, procurar gente morta de todo o tipo. Não confio em gente corrupta e, jamais, confio em alguém que trai. Traição de qualquer tipo, de qualquer espécie.

Existe uma tendência que me leva a, no mínimo, desconfiar do caráter de quem dorme no cinema, de quem não está fazendo absolutamente nada de importante e intencionalmente não te atende quando você liga, de quem fala demais da vida dos outros pra você, de quem lava apenas o chão do banheiro e se esquece das paredes, de quem duvida de você o tempo todo, que discorda e/ou concorda com tudo que você diz e de quem não toma atitudes. Sem contar gente que diz que não *gosta* de ler, que prefere calor que frio, que completa suas frases, que sempre desiste de sair por conta da distância, que acredita que o sentido da vida é passar em concurso público, que acha que amizade é apenas intimidade e que nunca tomou um porre até cair. 

Não confio em alguém que, após acabar de te conhecer, começa a te julgar e a te definir em poucas palavras como se o espírito do preto velho estivesse habitando a pessoa naquele momento. Não confio em gente que sofre daquela doença chamada 'mesquinharia sem-vergonha'. Também não confio em gente que fica encostando-se em você em vias públicas e que não sabe tomar distância quando está numa fila. Não confio em alguém que acredita que um prestador de serviços se torna imediatamente seu escravo depois que você assina o contrato e que ele deve realizar todos os seus mimos porque, afinal de contas, você está pagando e reza a lenda que o cliente tem sempre razão. E não há como confiar em gente que não sabe pedir desculpas.

Não confio em ninguém que não gosta de lua, que não ri bastante, que é extremista, radical e/ou fanático, que não se doa, que nunca amou, que acha que cultura é coisa pra gente rica, que reclama o tempo todo de tudo, que saca dinheiro na fila do banco pra pagar a conta na fila da lotérica, que acha que sexo é a coisa mais importante do mundo, que não se emociona e que não gosta de sorvete.

Perceba que a grande maioria das minhas desconfianças está arraigada no íntimo de toda gente sem o mínimo de caráter, educação, bom senso e sensatez. Seria muito mais fácil se tivesse dito em um único parágrafo: não confio em gente mau caráter, sem o mínimo de educação, sensatez e livre de hipocrisias cotidianas. Seria muito mais simples mesmo, mas acontece que também não confio em quem resume demais. Acontece que não confio em ninguém que acredita estar falando com sua psiquiatra através de palavras escritas num blog. Tem que ver isso daí.

Don't trust me.

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