# Resumo da última hora #

Mas eu também não sei qual é a do título. Sabia que já tem gente se arrumando pra ir trabalhar? Ah, mas quer dizer. Milhões de coisas acontecem a cada segundo, eu não vou conseguir colocar todas aqui no papel. Até porque minha sobriedade já se foi há horas. E o dia começou como os outros: eu acordei. E nada de metáforas ou sentido figurado. Mas eu prefiro começar dizendo que eu até comi algumas batatas fritas, mas ainda tinha fome. Mas do que importa a hora mesmo? E fome tem dessas coisas agora? Abri os olhos às seis da tarde e tudo que tinha no estômago eram algumas batatas e creme de limão. Oh, o melhor da cidade, já experimentou? E sabe quem trouxe? Não vem ao caso. O caso mesmo é sair de casa hora dessas.

O que estariam fazendo as pessoas numa madrugada de domingo para segunda? Ruas desertas, nem gente, nem carro. O silêncio que ensurdece é interrompido pelos latidos há quilômetros... onde está aquela gente toda? Poxa vida, gente que dorme! Mas oh sim, tudo bem. Nem todos levam uma vida desregrada de métodos e horários como eu. Estão todos perdoados. O caminho tinha dois, não mais que três quilômetros. O suficiente para ser assaltada, estuprada, sequestrada... Ora, ora! O pessimista aqui não sou eu! Bermuda larga, regata e outros detalhes indizíveis me fazem passar despercebida entre os raros zumbis que vagueiam pela noite adentro. Disfarce inclusive que sempre me rende os mesmos questionamentos de sempre. Mas agora pouco te conto sobre isso.

Gays. Eles sempre me atendem muito bem, e eu nunca vou entender o motivo... (reticências que tendem ao infinito).

- Já está pronta pra pedir?
- Vocês vendem cerveja aqui?
- Cerveja? Não...
- Vou ali ao posto, já volto.

Posto. Postos de gasolina são ambientes emocionantes na madrugada. A turma de formandos em psicologia tem que ver isso daí. Eu consigo provar qualquer teoria frequentando as madrugadas daquele lugar durante um mês. Dependendo das emoções, até menos. Mas emocionante mesmo é pagar quatro reais e cinquenta centavos numa long neck de Budweiser. Agora era a freira-lésbica, que descarregava sem querer um leve frenesi, uma excitação que causava alguns espasmos nas pernas, não sei bem. Dava alguns pulinhos, era isso.

Isso aqui foi depois de sorrirmos do senhor que falava alguma coisa incompreensível, visivelmente - absolutamente - bêbado:

- Só isso?
- Passa duas pra mim, pode ser? Depois pego a outra, vou me sentar ali... ia. - o senhor, cambaleando, senta-se à mesa, não sem antes quase derrubá-la. Aí ela dá mais um sorrisinho e mais um pulinho.
- Tem outra ali. Ali do lado daquela.
- Ah sim. Pode passar as duas?

Primeiro contato com o chapeuzinho vermelho. Ao me encaminhar a mesinha de madeira da Heineken, do lado de fora da loja de conveniência, o chapeuzinho senta, mas levanta depressa. 

- Pode sentar.
- Fique à vontade.
- Não, não. Pode sentar, faço questão. - e mais algumas outras coisas que não me lembro. Nas mesas vizinhas havia um grupo de pessoas com seus celulares-funk e assuntos-funk no volume máximo. Eu não iria fazer cerimônias, não era exatamente o dia. Agradeci e me sentei. É um senhor, sessenta no mínimo. Mas no mínimo! Bem magrinho, cara de boa gente. Chapelão preto, botina, jeans e camisa vermelha, bem vermelhinha. Parece que eu não sei contar histórias direito, nunca sei. Na minha cabeça é tudo tão mais simples! Eu sempre tenho que ficar explicando tudo, já tem muitos detalhes, mas tem mais.

Lembra-se sobre o disfarce que causa sempre os mesmos questionamentos? O senhor da mesa ao lado quase não consegue pronunciar, mas eu entendi bem.

- Você tem um pó aí pra me emprestar?

Imagina os vários erros nessa frase! Ao perceber que nem olhei, ele pediu desculpas e acredito que imaginou que eu era algum delírio da sua imaginação, pois desatinou a falar. Até pensei em me levantar, mas o monólogo do senhor estava ficando cada vez mais interessante.

- Mulheres... já tive uma. Eu tinha uma construtora, faturava milhões. Mas a mulher me deixou apenas uma casa vazia com um colchão. Sofro até hoje. Nunca perdoei, nunca esqueço. Ela me traiu, e a vontade que eu tenho é de matar ele. Como eu fiz com ela. - a cerveja começou a ficar amarga - Essa bicicleta aqui, tá vendo? Bicicletinha... tenho um seis válvulas em casa. Um Opala Diplomata. Vinte minutos. Daqui vinte minutos saio daqui e acabo com ele. Ele fez meu filho se ajoelhar diante dele. Ele vai se ajoelhar diante de mim. Eu vou dar seis tiros na cabeça, na cabeça! Assim, pá pá pá. Ele não sabe com quem mexeu, eu sou perigoso. Eu vou fazer ele implorar como ela fez!

Não conseguia olhar pra ele. Não por medo, mas pra garantir o suspense. Mas o chapeuzinho vermelho tinha que fazer sua segunda aparição justo na hora.

- Posso pegar essa cadeira?
- À vontade.
- Eu não quero me sentar na sua mesa, não. Eu respeito você. Não quero invadir seu espaço, você está aí sozinha... numa boa. Só quero pegar a cadeira.
- Pode pegar! Fique à vontade!
- Tranquilo... eu respeito você. Eu vou pegar a cadeira e vou sentar aqui do lado. Não quero te incomodar. 

Bem, agora chega um típico traficante, cumprimenta e senta-se à mesa do senhor, que rapidamente diz vamos ali, no cantinho, preciso conversar com você urgente. Aí ele volta feliz, porém ainda amargurado. Não me lembro bem da conversa dos dois, minha cerveja estava quase no fim e eu olhava pro céu em busca de respostas. Me sentindo culpada pelos crimes que não cometi, sentia mais pena de mim mesma que de qualquer outra pessoa que porventura estivesse sofrendo por minha causa. Lembrando da amiga que me acusa, da que me chama de velha, da outra que me chama de gorda e pensando que ninguém faz ideia do quanto e de como isso me afeta, cedo ou tarde. Então chega aquele pensamento bem digno de mim, que não sai da cabeça e que sempre faz com que meus olhos fiquem boiando n'água - preciso sair daqui, preciso ir embora, é isso! Eu preciso partir, porque de alguma forma, quando eu for, isso tudo vai passar. Tolice a minha! Mas não deu tempo de chorar, a cerveja acabou, peguei outra, atravessei a rua e pedi o sanduíche.

A única coisa que eu fico imaginando nesses momentos é - essa gente não trabalha? Poxa vida, madrugada de segunda-feira! Será que todos tem algum tipo de trabalho tão indigno quanto eu? Indigno no sentido de anormal, de fora do padrão "oito as dezoito". Aí olhando para a Castelo Branco eu fico me perguntando sobre essa anormalidade que "ela" tem. Mas aí me vem que é tão comum ser incomum que chega ser normal ser anormal. Então, quem é diferente de verdade? Não dá pra saber. Mas dá pra saber que o par de mulheres que desce do Celta - não sem antes bater o para-choque no meio fio (e causar algumas risadas constrangedoras) - era, de fato, um casal. Como eu sei? Eu sei, oras. Celta, olhares, meio fio e aquela frase onde identifiquei apenas o nome daquele bar gay lá no centro da cidade, sabe qual é? Pois então.

Na sanduicheria ainda havia um homem com algum tipo de deficiência múltipla nos membros. Andava com dificuldade e tinha os braços voltados para dentro do corpo. Levava um colete surrado, bem velho e sujo dizendo: "segurança da guarda". Deus, segurança! Quando ficava parado por alguns segundos, logo o corpo começava a tremer e ele ia caindo devagarinho, assim como quem está bêbado ou com sono. Ou os dois. Imagine o quanto ele se engana, pobre coitado! Oh sim, sim, estou julgando sim, não se assuste. Imagine o quanto ele acredita que pode mesmo evitar algum crime, por exemplo! Mas não era mesmo dia de focar nos temas, até porque do outro lado da rua um jovem estaciona um C4 Pallas e rouba minha atenção para o pensamento anterior - essa gente não trabalha não?

Depois de me arrepender com todas as forças da minha adiposidade mórbida de ter comido aquele sanduíche, o chapeuzinho vermelho me reaparece como quem brota do chão.

- Olha, me desculpa... desculpa te atrapalhar, interrompendo seu lanche, mas eu tinha que te falar, te falar uma coisa. Eu admiro muito você. Você assim sozinha... você é uma mulher linda, educada... e sozinha. Sabe, isso me comove! Eu admiro sua solidão e respeito muito ela. Parabéns, - estendendo a mão - eu já vou embora. Desculpe te atrapalhar, mas eu tinha que falar!...

Algum tipo de convenção social estúpida diz que é feio e estranho falar e dar corda para estranhos, e por algum motivo feio e estranho foi exatamente o que eu fiz, quando na verdade eu queria sentar aquele velho maluco na cadeira e conversar durante horas. As pessoas estão olhando, eu pensava. O que as pessoas vão dizer, eu pensava. O velho se foi, mas deixou aquele ar notálgico-filosófico na mesa. Aí eu quase chorei de novo, mas nem deu tempo. O chapeuzinho vermelho me surge outra vez.

- Olha, você me desculpa mesmo... eu não sou uma pessoa ruim, uma pessoa má. Olha aqui - tirando um papel do bolso - esse aqui é o telefone de uma grandona, a maior que tem por aqui. Ela é linda, uma mulher alta e muito bonita, como você. Você... você pode escrever seu telefone aqui? - Eu olhei pra cara do velho. Era velho mesmo. Que tipo de pessoa pede que um número de telefone seja anotado num pedaço de papel? Mas ele tinha uma carinha muito boa, muito viva, bem humilde. E antes que eu entendesse que ele realmente estava falando a verdade e desse alguma resposta, ele abre o papel. - Olha aqui, tá vendo? Eu não sou uma pessoa ruim, tá vendo? - O que eu via era um boletim de ocorrência, alguma coisa sobre lesão corporal, exame de corpo de delito, nomes, rubricas, carimbos, nada mais.

- Não, não, não... telefone não.
- Você é comprometida, tem namorado, casada?
- Sim, aham.
- Então tá explicado, me desculpa. Vou deixar você sozinha, mas eu precisava dizer. Você é muito linda e eu respeito muito sua solidão. Me desculpa, - estendendo a mão - mas a gente se vê por aí, não?

E foi. Sumiu. E antes de pagar a conta, uma imagem de cinema: um carro descendo a toda pela Castelo perde a direção, canta pneu e roda duas vezes no meio da pista antes de parar. Dá ré, volta pra pista e continua viagem como se nada tivesse acontecido. Eu olho para os lados pra ver o quanto as pessoas haviam ficado estarrecidas com aquilo - ninguém nem estava olhando. Não é possível? O barulho que o carro fez... como não interessa a ninguém? Aí começo a pensar na indiferença e naquele livro do Kafka. E enquanto o besouro (ou a barata) voam junto com meus pensamentos, o jovem do C4 grita pra eu aterrissar minha nave, deixei minhas chaves no balcão do caixa.

Volto para a loja de conveniência, pego uma cerveja. No caixa está um rapaz, que segura no balcão pra não cair, ergue a outra mão equilibrando as duas cervejas e diz pra lésbica-freira:

- Fulano de Tal! Pode anotar esse nome! Um dia... quando eu voltar aqui... pode anotar esse nome! Vou ser muito famoso!

Tropeça em mim e vai embora. A mocinha percebe minha presença e me recebe com uns pulinhos discretos. Deve ser muito emocionante trabalhar aqui, eu disse. Ela riu, sorriu, não sei bem, mas não respondeu. Oh moça envergonhada! Saí da loja e me sentei ao lado do senhor novamente, certa de que ouviria mais histórias. E ouvi.

- Você pode passar lá em casa depois, - dizendo para o rapaz de antes, sentado em sua mesa - quantas você quiser. Tenho quinze espingardas, pode escolher. - O rapaz se levantou, despediu, foi-se. Ele continuou. - Eu vou lá hoje, hoje. Mas tenho pressa não. Vou terminar essa daqui. Ele mexeu com macumbeiro! Eu sou macumbeiro! Obaluaiê filho de Ogum. Vou fazer uma mandinga no cemitério que eu quero ver ele rastejando até mim. Ele vai perder tudo em quinze dias, e vai vir rastejando até mim. E quando ele vier vou fazer assim, seis tiros na cabeça. Porque eu não atiro na perna não. Eu atiro é na cabeça, pá pá pá pá. Ele vai ver que mexeu com o homem errado. Eu sou macumbeiro, e sirvo ao capeta!

Em algum momento entre Ogum e capeta eu olhei pro céu novamente. Não posso olhar para o céu que a vontade de ir embora toma conta. Nem digo mais que é vontade de voltar pra casa, apenas um desejo incontrolável de partir. Então eu penso nas pessoas que me rodeiam, em como e quanto elas representam pra mim. Se faz ou não alguma diferença. Na forma como elas me afetam e na forma que, involuntariamente, eu as afeto também. Dou alguns rasantes até o motoboy chegar. Ele cumprimenta o senhor macumbeiro matador e senta-se à mesa. Incrível como todo mundo conhece esse homem! Ele se vira e me entrega um cartão. Diz que é motoboy, que é de confiança. Eu olhava para aquele cartão e pensava em como dizer que não usava serviço de moto-táxi, só táxi mesmo. Que os preços eram sempre absurdos e que, além de incrivelmente mais barato, táxi é muito mais confortável e seguro e- mas não disse nada. Agradeci e guardei o cartão. Está jogado por aí em algum canto da casa.

Antes de ir embora ainda pensei seriamente em prolongar minha noite/dia/madrugada. Desisti da ideia quando percebi que minha cabeça já estava doendo e das coisas horríveis que aconteciam quando tinha esses surtos no meio da noite. De qualquer forma é incrível como as pequenas coisas são potencializadas pelo silêncio e escuro da noite, e algumas cervejas geladas. Nesse caso, três. Os pequenos e inofensivos pensamentos cotidianos também, que nesse caso se tornam grandes questões filosóficas insolúveis. Enquanto estava andando por aí como louca pelas ruas e becos todos os problemas foram solucionados mentalmente. Mas é só chegar em casa, dormir, que eles estão todos lá novamente. É como sonhar... é como ser sonâmbulo. E na esquina de casa o tal motoboy ainda me grita:

- Tá perdida?
- Indo pra casa.
- Quer que eu te leve?
- É bem ali na esquina.
- Qualquer coisa pode ligar!
- Pode deixar, eu ligo.

Mas eu não vou ligar.

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