# O Presente #

A campainha tocou. Ainda era cedo, mas como sempre ele era o primeiro a chegar.

 Há... há quanto tempo.

Ele tem os olhos fundos e pretos sobre uma cara acinzentada, barba acinzentada, cabelo crespo acinzentado. Olhos fundos, pretos e miúdos de dor e cansaço, abatido. Arrastou sua carcaça até um canto da sala, sentou-se no chão, agarrou suas pernas com as mãos e deitou o queixo sobre os joelhos e ali permaneceu imóvel, a não ser pelo vai e vem de suas pálpebras que piscavam pouco, não tinha mais lágrimas, estava cansado, farto.

Sentei-me no sofá, pensei em oferecer alguma coisa, mas ele parecia não querer nada, só ficar ali parado com o olhar perdido. E eu olhava para aquele rosto, para aquela nuvem cinza que girava sobre sua cabeça e só consegui pensar em quanto tempo... quanto tempo, quanto tempo! Com o passar dos anos suas visitas se tornaram cada vez mais raras e mais raras, mas ele sempre voltava. E sempre do mesmo jeito, a mesma face, as mesmas roupas cinzas, a mesma névoa, a mesma Frustração de sempre.

A campainha toca novamente e mal abri a porta o Cansaço tomou conta de mim... ele caiu sobre mim e foi caindo, caindo... Eu sentia meu corpo cada vez mais pesado e antes mesmo de fechar novamente a porta ele engatinhou até o sofá e desfaleceu, mórbido, com a boca aberta e respiração ofegante, mal tinha forças para abrir os olhos. Vez ou outra ao tentar se mover soltava algum ruído de dor e uma lágrima solitária escorria pela face. A essa altura eu percebi que não havia mais nada a ser feito a não ser esperar. Então deixei a porta aberta e fui me deitar, me preparar bem para receber meus convidados. O silêncio da sala foi quebrado apenas quando de súbito o Cansaço percebeu a presença da Frustração e disse através de uma voz rouquíssima e arrastada:

― Há quanto tempo! – e já se doendo todo novamente e se recostando no sofá – Você não morre nunca mesmo! Você é duro.

Eu tentei até sorrir, mas o cansaço era tanto... então eu acabei adormecendo. E depois de muito tempo mesmo sem dormir, eu sonhei. E eu não sei bem se era mesmo um sonho ou um daqueles pequenos pesadelos antes de apagar. Acontece que era real, muito real. Eu conseguia ver seu rosto perfeitamente, embora sempre através de rápidos flashes. Sua face fazia-me sentir culpada. Eu podia ouvir sua voz dizendo por que você quer me matar? Porque você quer me matar? Você é fraca? Você é fraca! Estávamos sentadas ao redor de uma pequena mesa numa sala escura sem portas, sem janelas, sem barulho. A lâmpada suspensa no ar pelo invisível balançava de tal forma que eu conseguia ver seu rosto apenas através dos vai e vens da luz. Mas apesar de toda obscuridade, de todo o ar sombrio daquele momento ela tinha um largo e puro sorriso no rosto, o que fazia com que eu me sentisse mais culpada. Ela não parava de falar enquanto a lâmpada balançava cada vez mais forte dependurada ao vento – eu sou parte de você. Parte. Parte. Se você me matar também morre. Você também morre. Parte de você. Eu sou parte de você. Porque você quer me matar? Fraca. Você não vive sem mim...

― Quem é você? – acordei, num berro.
― Você a mata um pouco mais a cada dia.
― Mas quem é... e que diabo de barulho é esse?
― Você dormiu por dias, minha amiga. E você está péssima, parece abatida.

Quem me dizia tinha olhos enormes, como eram grandes! Olhos de cobiça que comiam cada traço do meu rosto, cada gesto era acompanhado atentamente por seus grandes olhos que me engoliam, me devorava. Eu me sentia cada vez menor e mais ameaçada. Sua língua rodeava lentamente seus grandes lábios vermelhos e através deles, vez ou outra, eu podia sentir um sopro quente de ar, muito quente. Ela estava muito perto de mim. Eu podia sentir o calor do seu corpo. Eu podia sentir o seu coração, que por vezes, não batia.

― Seus olhos são tão lindos! – ela disse.

Me cheirava, me lambia, me sentia através de cada respiração apavorada. Era uma dona encantadora, de lápis escuros nos olhos e boca sedenta avermelhada, não mais que seu vestido longo, de gala. Onde será que pensa que vai, pensei. Estava com panos de festa e, meu Deus, ela não piscava um só segundo. Não desgrudava da minha cara que estava naquele momento sei lá como. Acontece que a Inveja não era lá de muitas visitas, me recordo de uma vez apenas, talvez duas, mas naquela reunião minha Memória não se faria presente. Esta, aliás, acredito eu, tenha-se ido há muito pra nunca mais.

Com muito custo consegui mover meu corpo mole e quase moribundo da cama e desviar a atenção da Inveja mostrando-lhe que lindo era aquele colar que pousava em cima do criado. Oh sim, como é belo, quisera eu tê-lo somente pra mim, ela disse, calma e admirada.

― Pois fiquei com ele. Não me vale nada.

E com um vasto sorriso, como se deparasse com a joia mais cara e mais rara e mais brilhante do universo. Lentamente, mas digo bem lentamente ela ergue a bijuteria com as duas mãos a fim de prendê-la ao pescoço. Saí do quarto.

Enquanto rolava por ente as paredes do corredor do apartamento minha cabeça ruía. Eu sentia que a qualquer momento pedaços do meu cérebro iriam sair pelos meus ouvidos. Cheguei até a cozinha, deplorável. O primeiro sentimento foi de susto. Aquele momento desagradável em que você subitamente é surpreendido por um rosto inesperado e naturalmente, por alguns segundos, congela todos os seus movimentos. Com a cara imunda e desconfiada ele pergunta se estou com fome.

― E sobrou alguma coisa?

A Ironia que passava correndo atrás do Medo não se conteve e soltou uma de suas ridículas gargalhadas. E era um riso gritante, rasgado, irritante e igualmente satírico. Ela como sempre toda colorida, com seus cachos hoje arruivados, camisa laranja, calça verde, sapatos amarelos e aquela cara branca avermelhada de deboche.

Depois de acabar com todas as minhas reservas de sorvete, chocolate e cappuccino a minha Gula partiu para os pratos prontos do freezer. Devorou-os com uma santa felicidade e uma paciência características. Ao me deparar com a cozinha naquele estado de restos espalhados por todos os cantos, não tinha mais fome. Mas a sede continuava voraz! Ainda me restava sede, dessa eu nunca conseguia saciar-me. Era sempre a mesma sede de... –

― Não quero. Sintam-se a vontade, como se já não estivessem.

Essa última afirmação de fato não disse, porque o cansaço ainda era tanto... e meus olhos mareados já diziam por mim. O que na verdade acontecia era que eu tinha medo. Medo de enfrentá-los assim de frente novamente. O fato é que a última vez é sempre pior que a vez anterior e eu não consigo pensar em nada que pudesse superar a vez antiga.

― Onde já se viu uma reunião como essa sem o convidado principal? Ande, vamos. Junte-se a nós. Seja você! – e gargalha novamente quase que sem ar. – Seja você, não é irônico isso?

Enquanto a Ironia rolava pelo chão eu penso e lamento na desgraça de ser eu. Ser eu, eu pensava e remoía. Ai como pesava e doía, e doía... ser eu! Sentindo uma presença atrás de mim virei-me lentamente, ainda rolando pelas paredes da casa, olhei e rapidamente me recompus a posição anterior. Atrás de mim, leprosa e mal cheirosa seguia-me a Dor, com todas aquelas moscas sobrevoando seu esqueleto de carniça e podridão. E sem bem coordenar os movimentos lépidos das minhas pernas cansadas, fui dar na sala novamente. Maldita hora.

Todos eles estavam lá. Todas aquelas maldições que me seguiam e me sequestravam de mim. Como é possível, cheguei a pensar, mas o Fracasso sentou-se aos meus pés e o Cansaço deitou-se no meu colo, então o pensamento se foi. Minha mente permanecia vazia, absolutamente, olhando para o nada. Por vezes conseguia erguer meus olhos e enxergar aquelas mazelas todas.  Minha Vontade batia desesperadamente com a cabeça na parede, cada investida era uma lasca de tinta e cimento que voava pelos ares. Minha Coragem jazia estirada em um canto, cada vez mais desnutrida, seus ossos, cada vez mais visíveis, agora já quase lhe rasgavam toda a pele.

― O Bom-Senso perderá os festejos da tarde. Não virá? – entre risos e cinismos, não é preciso nem dizer quem proferiu tais palavras.

― Tua besta! Não te lembra de que o Bom-Senso voou pelos ares? – isso afinal não sei dizer quem falou. Talvez a Gula, talvez a Inveja. A inércia do meu corpo não me permitia mover um músculo.

Era fato que após tantas reuniões incidentes acontecessem. Da última vez meu Bom-Senso, após um surto de Loucura, saltou pela janela. Talvez um assassinato. A Loucura lhe chegou por traz, deu-lhe um empurrão e um grito estarrecedor. Qualquer um voaria. E por falar no diabo...

Como sempre triunfante nas suas entradas em cena. Era sempre a última a chegar e a que causava mais comoção e alvoroço. Deu-lhe um pé na porta que a fez parar do outro lado do cômodo, entrou pulando, gritando, esparramando as coisas e subindo pelas paredes. O fato é que minhas moléstias não se davam muito com minha Loucura. Ciúmes, refletia. Porque de certa forma ela sempre me tirava do meu sossego confortável a todos e me embarcava em aventuras inimagináveis. Minha Loucura é capaz de criar e realizar coisas que santo algum ousaria sequer imaginar.

A essa altura todos já permaneciam inquietos e visivelmente incomodados com sua presença. Bastou alguns minutos entre saltos, piruetas e ossos estalados para que minha Coragem voltasse a ficar toda corada e cheia de energia, me puxando pelo braço, me agitando, não sem antes afastar com os pés meus dois amigos que ainda permaneciam escorados em mim, que, aliás, eram os únicos que não faziam cenas na presença da Loucura. Minha Frustração continuava a cerrar o fétido cigarro infinito e o Cansaço se doía, grunhia, e por vezes chorava.

― Onde está aquele peste?

A Loucura se referia ao garotinho de olhos negros e obscuros que a propósito mais parecia ter saído de algum filme de terror. Mas com certeza o Medo estava escondido em algum canto da casa, debaixo da cama provavelmente, o que talvez explique meus dias de pesadelos. A loucura sempre se certificava de que o Medo nunca chegasse perto de mim para que seus planos lunáticos não ruíssem. De certa forma estranha e aparentemente confortável minha Loucura tomava conta de mim do seu jeito sem jeito. Era sempre ela quem me libertava de todas aquelas doenças, me fazia rir e gargalhar dentro do inferno, mas sempre, ao final das reuniões, era quem me abandonava primeiro e me matava sempre um pouco mais por suas atitudes inconsequentes e dissimuladas. Minha Loucura é minha redenção e meu declínio. É minha salvação e minha fogueira.

A Coragem tomou conta de mim de certa forma que me vi caminhando outra vez. E quisera eu ter permanecido imóvel no sofá. Minha casa era literalmente a personificação do caos. Minha Hipocrisia rodava com um copo de uísque em uma das mãos e um charuto velho no canto da boca, trazia um sorriso maldito e saía por aí apertando mãos e distribuindo cumprimentos a fora. Minha Fé ateava fogo aos meus livros e CDs com um prazer incompreensível... Meu Caráter desfilava pelos corredores com minhas duas mil máscaras que sempre permanecem guardadas. Sua face ia mudando conforme com qual cara se deparava. Ao tropeçar com a Ironia, que por pouco não me derrubou, eu tive um momento de lucidez. Sim, isso mesmo. E por Deus não me faça repetir tal palavra! Eu percebi que todos aqueles podres sentimentos independiam de mim. Ora, vejam! Todos com suas próprias pernas e cabeças falantes que sentiam por si só e regozijavam-se.  Onde estava com a cabeça quando supus que poderia ser algo diferente? Esses seres não saíram de mim, não mesmo. Alimentam-se sós na escuridão do meu silêncio e retornam a superfície não sob convocação. Eu sou apenas um mero acaso, um abrigo de calamidades que fazem uso da minha carne para expressar seus próprios desejos mundanos. Eu sou um mero acaso perecível e imprescindível, resultado da equação caótica de simplesmente existir.

O Pânico tomou conta de mim enquanto gargalhava entre lágrimas convulsas. Deparei-me então com minha Paixão, nua, em pé na frente do espelho do banheiro se cortando de tal forma em que havia sangue por toda louça. A Loucura então encontrou o momento ideal. Se abaixou lentamente e seus olhos que giravam em todas as direções pararam por um instante para questionar-me, quase que recitando as palavras hipnóticas. Secou minhas lágrimas e com as mãos sob meu rosto:

― Então querida, o que vai ser hoje?

Desalenta, confusa demasiada e exausta, a resposta foi quase automática.

― O que você quiser.
― Vocês ouviram? Vocês ouviram, maldição?

E por onde ela passava alguém recolhia os olhos e os ombros. Certamente não por respeito. Nesse momento houve certa comoção novamente à porta de casa. Mais um infeliz, pensei. Todos correram para acudir e reverenciar e... –

― Um chá? Um chá. Um chá, afinal. – insistia a Ironia.
― Oh, não, não, mas o que é isso. Chá? O que leva? Quem sabe o que pode conter. Oh sim, digo, oh não. Este sofá não me parece seguro. Oh não, não duvido de sua boa intenção, mas agora saia de perto, quem sabe o que leva?

Mal pude crer naquela maldita voz idosa e afônica. Arrastei-me novamente até a sala e lá estava ela. Mais uma que me aparecia de surpresa. Era uma senhorinha miúda com cabelinho branco, a pele toda enrugada e descascada, saiote xadrez e sandália de chita. Inquieta e incomodada olhava para os lados todo o tempo para certificar-se que ninguém chegaria perto. Todos a rodeavam, cochichavam por vezes, mas na verdade todos estavam à minha espera. Eu já sabia de tudo aquilo. Sentei-me ao seu lado e... pobre dona Neura! Sacudia seu corpinho pra frente e para trás num ritmo uniforme. Fechei os olhos, não sem antes vê-los todos me secando à espera do inevitável. A Inveja tocou-me os cabelos, o Cansaço rolou sob meus pés, a Frustração beijou-me a boca e sabe-se lá por onde andava a Loucura. Meus olhos sôfregos cerraram-se e a partir dali minha Senhora tomou conta de mim.

Eu ouvia vozes, não sabia se estavam apenas na minha cabeça ou se meus demônios me gritavam aos ouvidos. Eram gemidos, gritos de dor, gargalhadas e o desespero que toda a situação exigia. Talvez as vozes fossem minhas. Peço perdão pela falta de detalhes, mas eu realmente não sei de onde vinha tanto barulho. Do meu coração, pensei. Não podia ser. Já não o sentia a muito. O que podia sentir na verdade era que o ritmo do meu corpo estava cada vez mais acelerado, me movendo cada vez mais intensamente e puxando os cabelos cada vez com mais força. Me sacudia para frente e para traz e o barulho cada vez mais ensurdecedor tomava conta de mim de tal forma a iniciar uma reação em cadeia que resultaria na explosão dos meus lábios molhados, talvez lágrimas, talvez suor. O que importa é que o sabor do desespero é salgado.

― Não, não, não, não, não... NÃO!

Não sei exatamente por quanto tempo eu fiquei ali naquela posição. Talvez um segundo, talvez um ano inteiro. Acontece que aquele berro expulsaria qualquer demônio do corpo de um afetado. Ecoou por todos os cantos da casa e voltou pra dentro de mim que abri os olhos por um instante e me vi sozinha, até que percebi que meus olhos continuavam fechados e minha goela ainda gritando.

― NÃO!

Abri os olhos numa aflição inigualável. Ofegante e bêbada eu conseguia ver a Loucura cantando e enchendo o peito de felicidade enquanto a Ironia batia palmas e ria-se frenética. Foi nesse momento que ela chegou. E o estranho é que a porta estava novamente em seu lugar, e fechada. Ela a abriu, imponente, deixando todos perplexos.

― Me chamou?

Eu não aguentava mais aquilo. Não aguentava mais ver a cara de ninguém. Cristo, eu quero ficar sozinha, sumam todos vocês daqui, agora! Eu não disse isso. Na verdade nem pensei assim com tanta veemência. Eu estava no meu limite quando vi a dona dos meus sonhos, ou diria pesadelos, bem viva diante dos meus olhos. Todos se recuaram lentamente, pasmos e irados. Minha Loucura esboçou qualquer tipo de reação correndo em sua direção, mas nem ela... A Esperança estúpida, sem desviar os olhos de mim ou parar de caminhar em minha direção levantou apenas o indicador de uma das mãos em direção a Loucura, não se meta, disse com tranquilidade e certeza. Ela vinha com um traje branco amarelado ou amarelo esbranquiçado, não sei. Era uns panos desbotados, isso sim. Estendeu-me a mão. A Inveja chorava com soluços e a Ironia roía as unhas entre gemidos e projetos de risos soltos. Levantei-me, o Fracasso me abraçou tão forte que mal podia respirar.

― Deixe-a. Ela fará sua escolha.

Ele então desaba e ela prossegue.

― Acabemos logo com isso.

A Loucura gritava e arrancava os cabelos com uma face apavorada. Irada!

― Não há espaço pra você aqui! – grita a Loucura.

Ela simplesmente ignora.

― Não se preocupe. Vim apenas trazer-lhe um presente – diz a Esperança estúpida.

Confusa, com frio, exausta. Essas são apenas algumas poucas características que me cabiam naquele momento, sinta-se à vontade para escolher quantos mais quiser. Ela então abriu a porta e eu caí de joelhos. Não podia ser!

― Vim matar sua a sede.



(dezoito de agosto de dois mil e dez)

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