Tal de 2013
Então! Justamente! O que dizer sobre dois mil e treze? O que dizer sobre o ano que definitivamente foi o maior divisor de águas da minha vida? O mais intenso, o mais apaixonante, o mais subversivo, o mais desprendido e, com certeza, o ano mais delicadamente longo de todos! Há uns meses atrás me peguei dentro de um dos meus corriqueiros delírios noturnos pensando em como eu me transformei num curto espaço de tempo como esse - tempo esse se comparado com o resto da minha vida, claro. É algo verdadeiramente impressionante que jamais poderia deixar de lhe contar.
Não direi que sou outra pessoa, mas vou lhe dizer o que fez toda diferença - a leveza! Essa linda que se apossou dos meus pensamentos e ações e transformou minha leva de devaneios naturalmente pessimistas e socráticos em algo leve e incrivelmente produtivo. Eu consegui, senhores, finalmente o tão sonhado des-pren-di-men-to. Soltar e saltar. Me libertar da maioria das amarras que me sufocavam e que não me permitiam ver com outros olhos aquelas coisas tão simples; não me deixava enxergar a simplicidade das coisas ditas 'complexas'. É possível sim relativizar tudo. E dentro dos cálculos de Einstein eu vi na simplicidade a única - e poderosa - forma de continuar bancando minha sobrevivência dentro de toda imundice dos meus pensamentos.
Soltar é, obviamente, mais simples que agarrar. E é tão libertador! Nunca foi segredo o meu grave problema para lidar com pessoas, meu uso medicinal diário de máscaras e, consequentemente, meus sofrimentos trabalhistas. Me livrar do emprego - "do" emprego e "de" emprego - foi, certamente, a mais significativa mudança de todas, já que acontece de fora para dentro e tem um impacto direto no modo de vida que se leva. Eu me recuso a viver dentro da escravidão moderna! Óbvio que esse discurso de esquerda não convence ninguém, nem a mim mesma, até porque não conseguiria sequer um prato de comida sem ter de participar desse jogo onde me prostituo por qualquer pedaço de bife. Acontece que eu percebi que não preciso de dinheiro como eu sempre acreditei e sempre bradei por aí.
Neste ano, senhores, fiquei sem um emprego durante - no mínimo - um terço dele e garanto que não passei fome ou tive qualquer problema para suprir minhas necessidades básicas (sem ter que me prostituir, vender drogas ou me transformar em pedinte). Agora, o que é mesmo incrível - e o que é o segundo ponto mais marcante de todos - é que neste ano eu nunca me entupi tanto de cultura! Nunca viajei tanto, nunca li tanto, nunca frequentei tantas peças de teatro e nunca fui a tantos shows. Sim, sem emprego. Mas como diz a canção "o melhor da vida é de graça"! Oh meu caro, não se engane! Não, não estou curada nem rugindo por aí palavras otimistas, nem vendo o sol amarelo, nem ouvindo os pássaros cantando ou qualquer outra atitude que demonstre a leviandade da felicidade. De graça significa sem custo monetário, o termo bem literal mesmo. E mesmo os acontecimentos que não foram gratuitos. Fiz questão de "doar" todo meu dinheiro a exatamente todos os eventos dos quais eu possuo afinidade intelectual, seja ele qual fosse. Todos! Me dei esse presente que, num curto espaço de tempo, conseguiu abrir meu cérebro como não havia conseguido nos últimos vinte e sete anos. Foi sublime!
Me tatuei, me droguei, viajei sem nenhum centavo, participei de show de rock internacional como "convidada", li livros inesquecíveis e ouvi canções que exorcizarão meus demônios pra sempre. Me libertei - enfim - das minhas ridículas amarras sentimentais, me joguei nos braços dos amigos que me alçaram pra cima e me aparavam de volta. Gritei pela liberdade nas ruas da cidade e tomei alguns porres pela paixão não correspondida. Falei e ouvi absurdos. Deixei de me preocupar com bobagens e consertei a pia da cozinha. Me doei na cama e desisti de me doar fora dela. Recusei propostas que algumas pessoas se matariam pela oportunidade e aceitei outras que alguns cristãos chamariam de pecado. Menti e ouvi mentiras. Abri meu coração, sutilmente, àquelas pessoas que fazem diferença e senti o calor delas que aquecendo de volta. Me graduei em alguma coisa em alguma faculdade e ganhei diplomas e pedaços de papeis timbrados que não servirão nem como decoração dependuradas dentro da moldura dum quadro. Fiz algumas coisas que nem posso dizer aqui, mas que fizeram toda a diferença dentro de seus contextos.
Enfim. Me libertei. Me desprendi. Meu futuro é tão incerto quanto minha morte. É ridículo acreditar que o ano termina quando você precisa comprar um calendário novo. Porém, contrariando meu total desprezo pela maioria dos rituais ocidentais, devo admitir que este ano foi redondo. Redondinho. Começou e terminou de forma frenética. Eu fui - deliberadamente - irresponsável, inconsequente, arrogante, cínica e, por vezes, cruel. Mas sabe de uma coisa? Eu senti algo que nunca havia sentido antes - uma liberdade tão tangível que mais alguns passos e eu poderia tocá-la com a ponta dos dedos. Estou absolutamente decidida a não regressar. Eu experimentei o êxtase dessa coisa toda e jamais conseguiria fechar os olhos para isso. Se isso me matará logo, é uma pena. Mas eu não consigo mais vislumbrar um caminho que não seja repleto de subversão, loucura e leveza.
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| Me, leve. |

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