Tal de "rodinha"

Então... e não me venha com essa sua cara toda torta assim como se eu estivesse dizendo algo muito capcioso. Mania dessa gente de ver pornografia em tudo! É algo muito simples e - prometo - desta vez serei breve e direta. Não há muito que dizer. Até porque não quero privá-lo da companhia dos seus, aqueles ali, bem ali, que o aguardam escondidos atrás dos risos e sorrisos contidos ao perceber nossa sessão de hoje. Apenas aguardando o término para enfim expulsar todo veneno inconsciente (ou não).

O homem é um ser social, já dizia aquela sua professora gorda e de bigode do ensino médio. Provavelmente nas aulas de sociologia ou, na pior das hipóteses, filosofia. Engraçado como eu não me lembro de nenhuma palavra sequer dita nessas "aulas" que tive na época, exceto o nome "Descartes". Não pelo seu legado, mas pelo nome mesmo. Me lembro de quando ia estudar para as provas e sempre esbarrava nesse nome que, emergida dentro de toda minha ignorância, não sabia como se pronunciava. Era pra mim um nome indizível. Engraçado, porque Descartes não foi - a meu ver - um dos ditos pais da sociologia (ou mesmo da filosofia), mas me lembro justamente desse nome apenas pelo nome mesmo. E nesse ponto eu percebo que um parágrafo se foi apenas na tentativa de explicar algo absurdamente superficial e descartável. Prossigamos.

O que me intriga é a partir de ponto o homem se tornou o tal ser social. Em que momento da historia e quais circunstâncias o homem deixou de ser individualista e passou a acreditar que viver em sociedade seria uma ideia melhor. Bem... existe um autor renomado no assunto (Google) que diz que na pré-história (ou idade da pedra, ou paleolítico) os homens perceberam que em bando conseguiriam garantir sua sobrevivência com mais certeza e maior segurança. E, claro, o reforço positivo se tornou dependência. Freud explica. Mas antes de Freud explicar qualquer coisa eu fico pensando até que ponto eu preciso viver dentro dessa "dependência". Mas o que é, uma dependência física? Cultural? Meramente social? E a que ponto eu consigo autonomia vivendo dentro de uma sociedade, seja ela qual for? Até que ponto eu sou condicionada pela sociedade, mesmo bradando aos quatro cantos que, mesmo vivendo dentro dela, eu sou livre, ou ao menos tento ser livre a qualquer custo?

Geralmente quando recorro a essa terapia online tenho sempre as respostas para todas as questões do universo, hoje não. Hoje eu tenho apenas dúvidas e indagações imensas. É fato que não gosto das pessoas. Não gosto "de" pessoas. Mas será que conseguiria viver sem elas? O meu sonho eterno repousa na possibilidade de falsear essa resposta. É frustrante saber que não, que jamais, que ao menos que coloque em ação meu plano idoso de viver dentro de uma barraca no meio do deserto criando uma cabra e um cachorro sem o menor contato com o resto do mundo, não, não é possível. Mas eu tenho fé que seja possível viver no meio delas sem elas. Embora eu precise dos serviços que "formigamente" cada uma delas presta para o formigueiro, eu não preciso me incluir nos pequenos grupos que são formados dentro dela. Te explico.

Ah, e já me vem você com essa cara de Facebook dizendo que como não? você sempre será, sempre estará e sempre fará parte de algum grupo, mesmo que não queira! isso não depende da sua vontade nem do que você pensa, nem- ok. Mas agora eu vou te contar uma história. Sem contextos psicanalíticos, nada disso. Meramente minha torta opinião, que fique bem claro. Então é assim: você tem um grupo de amigos. São, de fato, pessoas bem próximas. Você se comunica e os vê regularmente. Amor para toda uma vida. Num dado momento você percebe que a integridade do seu "bando" está correndo sério perigo, pois pessoas estranhas estão, despretensiosamente, tentando fazer parte dele. Assim, como quem não quer nada. Mais que rapidamente você tenta desesperadamente deixar bem claro que seu bando, bem, é seu bando, oras! Ele é formado unicamente por seus "fundadores" e jamais abrigará participações externas. E para colocar uma pedra no assunto - e como gran finale - você dá um nome ao seu grupinho de pessoas queridas. Você nomeia a relação puramente abstrata entre pessoas! E, ao dar um nome, você leva inconscientemente as coisas para o próximo parágrafo.

Você mora numa casa onde, de uma hora para outra, surge um cachorro. No primeiro dia você, dentro de toda sua convalescença, sente pena do animal e lhe dá comida. No segundo dia ele volta e seu sentimento é o mesmo. No terceiro dia já faz parte da sua rotina. Até que uma semana depois você lhe dá um nome e o coloca pra dentro de casa. Bem.. se não me engano, dar nome as coisas remete ao sentido de apropriar-se delas, de se tornar dono. Você fica aí me olhando com essa cara torta pensando mas onde será que ela quer chegar com isso, não é mesmo? Pois bem. Eu tenho ainda alguma consciência que me faz acreditar que não consigo viver fora da sociedade. Me diz que não consigo viver fora dos grupos criados/impostos por ela (negra, homossexual, pobre, etc), mas rodinhas... rodinhas já são demais pra minha parva inteligência. 

Não que eu não ache seu bando digno da minha suntuosa e magnífica presença divina, mas o meu conceito de "rodinha" não é sociológico, é puramente freudiano (ou lacaniano, vai saber). Eu realmente acredito que as "rodinhas" servem unicamente para elevar o ego e reintroduzir um conceito bastante arcaico. Bem assim, veja: tenho meu grupinho, somos intocáveis dento dele. Ninguém pode se aproximar e aqueles que tentam são sumariamente execrados. Dentro da nossa rodinha somos reis (ou diretores...)! Podemos - sem culpa ou remorso - retesar nossos polegares para baixo desaprovando qualquer ato que não condiga com as normas que nós mesmos criamos para nosso querido grupinho. E, além disso, o principal é: nosso grupinho serve para, basicamente, segregar pessoas. Termo tão obsoleto, não? Mas, mesmo inconscientemente, a função dele é essa, pois segregando as outras pessoas é que nos tornamos fortes, é que nos sentimos foda e pauzudos, é que nosso ego consegue alcançar os céus! Assim, nos sentimos melhores em relação às pobres coitadas pessoas que não fazem parte de nenhuma rodinha ou aquelas que matariam para entrar na nossa! 

Bom, se não for assim - exatamente assim - é algo bem próximo. É uma questão do ego humano (tentar) se sentir aceito e acolhido por alguém. Se sentir parte, se sentir importante e atuante. Mas aí se alguém como eu, pobre mim, diz que não faz parte, que não pertence e que não quer pertencer a um grupo desses, de pequenos egos em busca da soberba eterna... quem sou eu para dizer? É como uma seita secreta, é como pequeninos iluminatis do demônio, que existem apenas para que você, pobre mortal, saiba de sua existência e se conforme calado em jamais poder participar da plenitude e glória daquela rodinha de capas pretas. Ora, faça-me o favor! Me preocupa muito mais o barulho estranho da caixa de descarga do meu banheiro que ser inserida em grupinhos egocêntricos por aí.

Veja, não me entenda mal. A minha paixão, o meu amor pelas pessoas que (infelizmente) se dizem partes dessas rodas sociais modernas não muda. A minha admiração, o meu contentamento em conhecê-las e fazer parte - de alguma forma - de suas vidas, de seus círculos de amizade é gratificante. Mas eu não posso me permitir participar de algo tão superficial, tão egocêntrico e não condizente comigo. Eu nunca pertenço, eu nunca faço parte. E quando sou incluída - sem querer - num grupo (social, étnico, sexual), disfarço com um sorrisinho amarelo. Eu não preciso "pertencer" para sentir que "faço parte" - esse é definitivamente um paradoxo interessante de se analisar. O fato de repudiar a "humanidade" não significa que não posso gostar de uma ou duas pessoas. Uma coisa, meu caro, não anula a outra. Não mesmo! E é óbvio que quando dispenso palavras sobre o tema as minhas orações sempre irão generalizar quando o cerne da minha questão ultrapassar cinquenta por cento mais um. 

Me perdoe. Meu vocabulário é absurdamente precário para conseguir reproduzir meu profundo desgosto por esse tipo de 'convenção social bizarra'. De fato eu não consigo viver longe das pessoas e, inclusive, preciso delas. Para tudo. Elas fabricam da cerveja que bebo a música clássica que toca agora na vitrola. O que eu quero dizer é que não preciso de nada para esticar meu ego ou ao menos para me fazer sentir melhor em relação às outras pessoas do mundo. Eu não vou deixar de me relacionar com as pessoas por conta de suas "limitações sociais", só não irei - jamais - fazer parte delas. (Até porque eu sou Deus!).

Não rola.
(tudum tss!)

Comentários

Postar um comentário