Tal de 27

Então. É impossível iniciar qualquer discurso sem pensar que estou entrando numa fase de trezentos e sessenta e cinco dias de pura tensão para evitar a morte iminente, afinal os bons morrem jovens e os bons jovens morrem aos vinte e sete. Isso, claro, retirando toda a modéstia que me cabe para chegar a essa conclusão, no mínimo, pretensiosa. E pretensão é só uma das coisas que adquiri nesse tempo todo e a aperfeiçoei de forma tão egoísta e sem sentido que hoje chego a pensar que a pretensão me cai bem. E digo isso sem pretensões.  

Há meses venho pensando nisso. E "isso" é aquele tipo de coisa que definitivamente não pode ser dita para qualquer um e quiçá pode ser dita. É aquele tipo de coisa que te exclui do círculo, que te deixa à margem, à beira na conversa de mesa de bar, que causa constrangimento e olhares de repulsa e - pior - indiferença. Para a maioria das culturas a morte é um símbolo de reinício, de recomeço, de retorno, de re. Eu não quero discutir o que eu acredito que irá acontecer depois, mas sim o que poderá acontecer agora. Há tempos eu sinto que dois mil e quatorze será o fim - ou então o reinício - de alguma coisa que não sei bem o que é.

Tudo que eu sinto se resume a urgência. Eu ando com pressa de concluir pequenas realizações cotidianas a fim de mudar, de renovar, de começar de um tal zero que nunca estive antes. É evidente que a idade é a principal causadora dessa correria. E me parece que eu corro justamente da idade. Corro de envelhecer, mas sempre caio nos braços dela. Me parece que tenho pressa de sumir com esse número da minha identidade, de simplesmente pular esses meses e pousar confortavelmente no colo dos algarismos pares. Estou com um estranho medo de viver esse prazo. 

A dúvida e a incerteza são outras coisas aperfeiçoadas pela minha arrogância nesse tempo todo. Não dedicarei uma linha sequer àquele momento nostálgico de pensar em tudo que eu não tenho e que ainda não construí mesmo apesar de todos os anos que agora carrego. Esse não é o momento pra isso. Esse é um momento de tantas mudanças - espirituais, psicológicas, comportamentais, filosóficas - que nem me darei ao trabalho de chorar por aquilo que não consegui, mas sim refletir sobre tudo que eu era e em quem diabos eu me transformei.

Eu ainda preciso de muita reflexão para chegar a algumas conclusões, mas algumas coisas são muito óbvias. A forma como meus níveis de intolerância, minha arrogância e prepotência, minha indiferença cresceram ao longo dos anos é assustadoramente preocupante. Isso, claro, para quem está de fora. Uma pessoa com essas características não se importa em magoar os outros. Isso é bem triste. Me pego falando para as pessoas que sou deus numa naturalidade que se for repetida mais umas cem vezes terei de ser imediatamente trancafiada num manicômio com diagnóstico de megalomania.

Fora isso, eu chego aos vinte sete com um sentimento de vazio imenso. Eu sinto que todo vazio do universo está dentro de mim. E é um vazio que precisa desesperadamente ser preenchido por conhecimento e experiências de alguém que tem urgência em mudar e se encher de coisas novas. São vinte e sete vezes morando na mesma cidade, vendo as mesmas pessoas, frequentando os mesmos lugares e tendo rotineiramente os mesmos tipos de experiências. Talvez mude o cenário ou os atores, mas a peça é sempre a mesma.

E é um sentimento de nada tão real e à flor da pele que nem consigo me esconder através das minhas milhares de metáforas, como de costume. Essa idade consumiu naturalmente todo o 'igual' dentro de mim. Todo o 'mesmo', todo o semelhante. Ela custou um pouco pra chegar, mas também quando chegou me desafiou. Me disse que se não for agora, não será nunca mais. Meus olhos ainda não avistam esse novo horizonte e meu coração está completamente enlouquecido. Mas meu coração sente justamente o que os olhos não veem.

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