Tal de amor

Então! Veja, não dá pra ser otimista nesse mundo, me desculpe. Tudo bem, rimos dos vídeos de gatinhos e gente caindo de cara no chão - momentos efêmeros de felicidade estática. Mas não dá pra ser assim o tempo todo, meu caro. Durante alguns instantes a felicidade plena te abraça, te deixa em paz, mas é tão pequena e breve como seu salário. Se esvai. E como sempre, no alto da minha prolixidade, eu teimo em começar a falar de algo pra falar de outro algo que na verdade nem era o que eu queria dizer, mas é o que eu digo se fosse algo que- enfim. O que eu quero mesmo que você entenda, meu amigo, é só uma coisa. Mas ouça com muita atenção, essas coisas não se repetem. Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro seria esta: não ame. Os benefícios em longo prazo do uso do não-filtro-amor-solar estão provados e comprovados pela ciência. Já o resto de meus conselhos não tem outra base confiável além de minha própria experiência errante.

Claro, eu sinto... e vejo! Vejo você aí sentado na sua poltrona de couro vintage com a dupla inseparável whisky-charuto dizendo que é elementar, elementar.. É óbvio que eu faria apologias contra o amor visto que minhas experiências nesse campo foram um tanto quanto, eu diria, nada terapêuticas. Mas eu pergunto a você, como me tornar (um dia!) uma filósofa sem o verdadeiro conhecimento empírico acerca das coisas todas? O contato vira conceito, o físico vira abstrato - e é assim que minhas opiniões e impressões são geradas, sempre! Através da imprescindível inserção palpável das coisas dentro da minha vida. Através de experiências reais com as coisas - tangíveis ou não. Agora, supere isso. Posso começar? Oh, muito gentil.

O amor é o feio que arde sem se ver. É dopamina que toma e não se sente.

Quando era adolescente e iniciei meus trabalhos intelectuais tinha certeza de que os poetas, todos eles, eram apenas loucos tuberculosos embriagados de ópio e desejos sexuais, até que um dia também sofri desse mal. Pude perceber o quanto os poetas sofriam para expressar o algo inexpressível. Eu tenho uma teoria sobre o amor que quero compartilhar com você agora, meu caro. Percebo sua cara de animação. Bem, o amor.. o amor é uma doença! É uma patologia mental que todos estamos dispostos e ávidos por padecer desse mal. Mas porque alguém escolheria adoecer conscientemente? Vou conversar com você sobre isso. Mas antes, para não perder o costume, vamos à famigerada contextualização histórica dos fatos.

É bom lembrar que eu sou muito intensa (palavra nova no dicionário). Sendo assim eu só poderia amar mais que todos na Terra e, claro, morrer desse amor. Me lembro perfeitamente da forma como sentia e lidava com o sentimento. É tão estranho pensar nisso agora, depois de tantos anos, e perceber que tudo que direi não passa das mesmas palavras daqueles poetas embriagados. É incrível! Quer ver? Sentia febre. Sentia uma comunhão a ponto de acreditar que REALMENTE éramos uma pessoa apenas. Sentia suas dores como se fossem as minhas. Sentia uma NECESSIDADE inexata e constante, que rompia as barreiras do natural e fazia com que não conseguisse visualizar qualquer futuro SEM a presença da minha amada. Eu poderia passar horas tentando exprimir em palavras cada detalhe do que senti, mas acredito que você tenha mais o que fazer. Vamos então aos fatos.

Eu não acredito no amor. Nesse daí, esse mesmo, não, o vermelho, mais embaixo, isso, do lado esquerdo, não querido, sobe mais, isso, isso, esse mesmo, esse daí. Não acredito que alguém ame alguém. Sob minhas perspectivas filosóficas ninguém ama o outro, amamos, sim, o sentimento que criamos em relação a. A gente ama o que a gente sente, amamos o próprio sentimento criado e não alguém ou alguma coisa. Entende? É tudo uma questão de projeção. Projetamos no outro o sentimento que criamos. Logo, sentimento é algo de DENTRO para FORA e não o contrário. Ninguém é capaz de fazer com que você o ame a não ser você mesmo. Alguns dirão que esse pensamento é muito óbvio, outros irão pesquisar no Google para saber de qual pensador copiei as ideias. Fiquem a vontade.

Partindo desse princípio, fica fácil entender o primeiro - e um dos piores - sintomas dessa doença: as expectativas. Sempre digo: não crie expectativas, crie cães, mas ninguém escuta. Expectativa é uma ilusão criada por nossa mente inebriada de sentimentalismos esperando que o outro preencha alguma lacuna como se ele [o outro] fizesse parte dessa ilusão. Entendeu? Ok, tenha fé. O que eu quero dizer é que (geralmente) existem duas pessoas (num relacionamento), mas por conta de um bug do sistema, uma falha de programação desse software "amor.exe", acreditamos que somos um. Se somos um, o que eu desejo você também irá desejar, não? Não. Nem somos um, nem existem expectativas coletivas. Eu não posso acreditar que alguém sinta DE VERDADE que eu faço parte dela. A falta de individualismo, de solitude e, claro, algumas doses de solidão, apodrece as coisas. Pessoas e sentimentos. Não acredito em duas metades, mas em duas pessoas inteiras que não cultivam expectativas umas sobre as outras. O que você chama de amor, eu chamo de embriaguez.

Amor é um não contentar-se que o outro esteja contente.

O que nos leva a outro sintoma - talvez, definitivamente, o pior - um monstro cinza e nojento que vive dentro do lago da expectativa cuspindo fogo e escatologias chamado ciúme. Oh, o ciúme! O que dizer sobre esse lindo? A criação imoral de expectativas aliada a completa falta de individualismo cria um sentimento altamente possessivo e cancerígeno. Amor não te liberta, te prende. Você é livre para amar, mas não é livre dentro do amor. O sentimento que você alimenta se transforma no monstro que te come. O ciúme é uma pequena bactéria que te consome, que devora toda sua racionalidade, bom senso e sensatez. Primeiro ele te cega, depois te ensurdece. E quando você está vulnerável e estúpido o suficiente você externa toda essa ignorância em forma de julgamentos, incompreensão, raiva e qualquer outra ação infantil e impensada, sempre de forma violenta, agressiva. O que você chama de amor eu chamo de irracionalidade. 

É um estar preso por vontade (do outro)

E o auge de todo esse delírio emocional é o pra sempre, que sempre acaba. Definitivamente, a pior ilusão causada pela doença de amar é acreditar que irá amar para o todo o sempre. O amor atinge uma parte do cérebro que retira totalmente a percepção de tempo. O indivíduo fica preso num vórtice onde o seu passado é sugado por um buraco negro e seu futuro não existe sem a presença do outro. Amor é um universo paralelo que acontece dentro de um filme de ficção científica. E um filme ruim. O que você chama de amor eu chamo de asma.

Veja bem, o amor proíbe, limita, coage. É pretensioso e tendencioso. Cria expectativas inalcançáveis, é frustrante. É egoísta. É possessivo, aprisiona. É tão apelativo que as vezes beira o ridículo. Desfoca e distorce o que é real. Ele inibe completamente o pensamento racional e altera de forma agressiva sua percepção, seja ela qual for. Se eu não puder chamar isso de doença, o doente sou eu! Mas como eu sei que você é uma pessoa muito cética, te darei algumas cartas para que possa jogar comigo. Segundo o pesquisador neurocientista americano Dr. Andrew Newberg, ao estudar o cérebro de alguns "amantes" notou-se uma semelhança com pessoas que possuem alguma doença mental. Além disso, ainda segundo os estudos, o amor cria atividades cerebrais na mesma área onde são ativadas a fome, a sede e a necessidade de drogas. Se por um lado os níveis de dopamina são extremos, por outro o grau de serotonina cai drasticamente, que é exatamente o que faz com que você que está amando possa ser considerado um doente mental (sem ofensas, questão meramente científica). [Quanto à fonte dessas informações... procure no Google] O que você chama de amor, eu chamo de Rivotril.

É um descontentamento contente.

O amor é cômodo. Se você já amou algum dia você vai entender PERFEITAMENTE o que vou dizer a seguir. Pense no(a) seu(a) amado(a). Agora se lembre de todos aqueles fatos ruins que ocasionaram a separação. Agora se lembre o quanto era mais FÁCIL, mais cômodo continuar vivendo e mantendo um relacionamento em que você tem a plena certeza que já chegou ao fim, colhendo, de grão em grão pequenas migalhas de bons momentos altamente efêmeros e superficiais do que passar pelo calvário do término. Sabe por quê? Porque a realidade dói. Porque abrir os olhos e ver com razão dói. Desinstalar o outro, que já está tão bem acomodado na sua vida, inserido em todas as suas camadas - sentimentais, psicológicas, sociais - dói. O amor não cura, meu caro! Ele é o próprio veneno! Ele te entorpece para que você possa continuar muito bem acomodado num mundo imaginário onde fica sempre esperando que as coisas mudem, mas não muda. Porque amor é só aquilo, não há mais nada. O resto são vísceras de gente. O que você chama de amor eu chamo de novela das oito.

No que eu acredito? Eu acredito na liberdade! Na minha, principalmente, e na de todos os outros indivíduos. Eu acredito, embora não sei se posso afirmar assim com muita veemência que pratico ou não, no amor livre de todas e quaisquer amarras sentimentais. Ouça as sábias palavras de Kundera: "só uma relação isenta de sentimentalismo, em que nenhum dos parceiros se arrogue direitos sobre a vida e a liberdade do outro, pode trazer felicidade para ambos." Isso é amor! Amor, como disse o vô Neruda, sem obrigações nem orgulho, amor limpo e livre da cadeia sentimental que aprisiona e limita. Leve, tranquilo e natural, como tudo deve ser nessa vida. É tão difícil assim? É importante dizer que mesmo fazendo minhas apologias contra esse amor que existe por aí ele não deixa de ser inevitável, como qualquer outro sentimento, inclusive. Não estou livre para escolher quem eu vou amar ou não, mas sou livre para amar uma liberdade dentro do amor! Isso não é difícil, nem um pouco. O difícil é encontrar alguém que compartilhe das mesmas ideias soltas e tortas que eu. Porque se eu pudesse lhe dar um conselho, seria esse: você pode até usar filtro solar, mas, por favor, não ame.


"Estou acordado e todos dormem
Todos dormem, todos dormem..."

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