# Tão Vã #
Numa noite gelada de sexta-feira, após assistirem aquele tão esperado espetáculo, os janotas, todos bem almofadinhas mesmo, se reúnem em frente a entrada do teatro para planejar o meio/fim do restante da noite.
No meio da roda, um casquilho lá, bem magricela, ousou pôr seu dedo em riste e bradou como se carregasse toda a certeza do mundo dentro do peito:
- Eu quero ir tomar no cú.
Todos se entreolharam espantados. Quanta ousadia, pensaram. Quanta petulância, pensaram. Mas alguém resolveu falar ao invés de só pensar mesmo.
- Mas o que é isso? Tomar no cú? - alguém falou.
- Imagine... - outro, num muxoxo.
- É um clássico, não deixa de ser... - refletiu alguém.
- Tomar no cú é sempre boa ideia, mas hoje é sexta-feira meus amigos. O lugar estará lotado.
- Ele tem razão! Não se esqueçam de quantas pessoas indicamos para frequentar o ambiente. Lembrem-se de que todas elas estarão lá.
Comoção e burburinhos de bochichos de oh, sim, sim, claro, evidente. Outro:
- Vamos então à merda!
- Muito escatológico!
Lá do fundo, o de barba branca:
- Vamos nos lascar.
- Oh, muito démodé.
- Sim, sim, ultrapassado, eu diria.
O de chapéu:
- Vamos catar coquinho.
- A essa hora, meu amigo? Por favor!
O das finas lentes:
- Que tal irmos para o raio que nos parta?
- Interessante, interessante.
- Oh não, nessa garoa? Todos estão procurando lugares assim. Não, não.
- Tem razão, amigo, tens razão...
O do charuto entrou no meio da roda, não sem antes ajeitar a peruca.
- Senhores, vamos então para o quinto dos infernos! - com muita devoção.
Ouviu-se alguns aplausos abafados pelas luvas de pelica. Era um local perfeito para uma noite fria, não?
- É um local perfeito para uma noite fria! - (como eu disse)
- Sim, sim, é perfeito!
- Para os quintos dos infernos!
- Senhores, - o gordinho - não quero ser aquele que traz sempre o derrotismo, mas estou certo de que o quinto dos infernos encerraram suas atividades há um bom tempo.
- Oh, mas que pena!
- Que lástima!
- Trágico, trágico!
E blá, blá, blá. A noite seguia mansa, emergida numa névoa quase imperceptível. O homem que catava papelão e arrastava uma carroça por aí assistia pasmo e inerte a discussão fidalga. Estacionou, e do outro lado da rua deu o berro entre os dentes que não tinha:
- Pruquê côceis tudo num vão pra puta que pariu?
Os homens de fino terno se entreolharam e aplaudiram com vontade e discrição.
- Muito bem! Muito bem!
- Bravo! Eu diria mais, eu diria bravo! Bravo!
- Vamos todos a puta que pariu, senhores! - disse o do charuto, com o charuto entre os dentes.
- Sim, vamos, nos encontramos lá.
E num gesto muito respeitoso o de colarinho verde musgo convida o homem catador a participar da euforia de seu grupinho:
- Vamos conosco, vamos?
- Ir pronde, sô?
- Pra puta que pariu!
Ainda congelado, provavelmente pelo frio, o homem catador abriu toda a boca e gargalhou tanto e tão alto que seu pomo de adão acordou eva.
- Vamo então, tom vamo, tão vã.
Até porque, e afinal de contas, é na puta que pariu todos conseguem se fuder.
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