# A minha revolução silenciosa: capítulo II #
(Parte II ou "a saga de Hades", ou "a Fénix", ou "a primavera de Vivaldi", ou "o silêncio dos inocentes", ou "segundo ato", ou "nas profundezas do mar sem fim", ou "a hora do mergulho", ou algo mais Sessão da Tarde como "o mistério continua". Fique à vontade, escolha seu tema predileto e aperte o play.)
O mundo lá fora anda mais calmo, menos revoltoso e mais silencioso, como aqui dentro. Porém, agora, as pessoas já sabem o caminho que deve ser feito, o que não diminui o furor dentro de si mesmas, exatamente como aqui dentro. Largos passos foram dados a caminho de uma micro revolução lá fora, diferentemente da própria terceira guerra mundial aqui dentro. Aqui dentro as cinzas das antigas estátuas esculpidas e adoradas por mim se espalham pelos ventos de tranquilidade, certezas e segurança. Se esvaem. Dissipam-se a cada novo pequeno recomeço, a cada nova quebra de paradigmas de velhos totens que viviam emoldurados em algumas esquinas de mim. Hoje respiro mais leve e profundamente como há muito tempo não ousava respirar.
Ando por aí mais dona de mim do que nunca. Mais certa, mais precisa e, o melhor de tudo, sem medo. Alguma coisa ou outra ainda faz com que eu sinta aquele frio na barriga, mas em geral nada me comove, me convence ou me ilude mais. Me lembro de algo parecido apenas quando era adolescente e iniciava meus estudos filosóficos por aí. Outra época, mas a intensidade das mudanças são tão significativas quanto. Se me conhece, sabe que nunca fui de dar boas-vindas a qualquer coisa que alterasse minha sagrada rotina metódica ou minhas ideias cristalizadas como concreto, mas acredite, até este paradigma está sendo vencido pela suavidade dos meus mais novos pensamentos.
Não me lembro de quando tudo começou, mas o fim é inesquecível. Cheguei em um ponto onde percebi da forma mais madura que existe que não havia mais saída, não havia mais como sustentar o estilo de vida perigoso, displicente, cancerígeno, nostálgico e deprimente ao qual estava levando. Caminhava por aí como se não houvesse amanhã de uma forma irresponsável jamais vivida. Não havia uma só direção da qual eu olhava em que algo não estava desmoronando ou já tivesse desabado. Tudo, meu Deus! Absolutamente todos os caminhos estavam comprometidos por conta da minha constante negligência. Eu nunca estava lá pra nada. Vivia levando conforme os passos dados ou já traçados por outros, sem esperanças ou expectativas. Sem querer, sem buscar.
Distante da minha família como um parente que só aparece em velórios e casamentos, sufocada pelas minhas próprias mãos ao me perceber fazendo parte de tudo aquilo com o qual sempre repudiei, me humilhando dentro de um quadrado corporativo que servia apenas para limitar ou, por que não, tolher toda minha criatividade e minha liberdade de expressão, asfixiada pelas ilusões sentimentais criadas pela minha própria mente como, talvez, alguma forma de sublimação qualquer a fim de me sentir melhor em relação a alguma coisa, qualquer coisa que seja, estacionando meu cérebro, deixando de pensar e refletir racionalmente e fazendo com meus atos não passassem de meros instintos animais, como um bicho irracional qualquer, e, por fim, me drogando de álcool e soberba, como se a embriaguez da minha arrogância pudesse superar minha estupidez. Era um suicídio, lento, doloroso e caro. Escolhi viver. E mudar.
Voltei-me então para mim mesma, e me vi. Desfigurada, Deus... não sobrara muito eu dentro de mim. Percebi que mais algum tempo de vida frenética e desregrada eu me perderia por inteiro. E não teria volta. Acordei um dia meio morta em cima da cama sem a menor recordação do que acontecera nas últimas dez ou doze horas. Foi o fim. A parte de mim que não me habitava mais saiu de sei lá onde e pousou novamente dentro do meu corpo abatido e doente. Passei alguns minutos na cama sem conseguir me mover, por um lado pelas dores do corpo e da consciência e por outro pela mais longa e pesada epifania de todas. E mudar dói. Incomoda a parte da frente da cabeça e, invariavelmente, faz com que eu me sinta como se estivesse fazendo algo errado. Cria paradoxos e labirintos que as vezes sinto que nunca conseguirei resolver ou desvendar. Mas dessa vez é diferente. É leve... e claro que essa leveza toda me assusta um tanto também.
Primeiro passo da revolução é mudar de dentro pra fora. É criar consciência da necessidade. É tomar para si o problema como um desafio e tentar resolvê-lo não por obrigação mas pelo prazer de se ver e sentir liberto. Pois bem, decidida, comecei a tomar posse de mim novamente.
As mudanças físicas, que são relativamente mais fáceis, vieram primeiro. Joguei fora todas as tralhas e velharias, tudo que julgava velho e desnecessário, tudo mesmo. Troquei os móveis, lavei portas, janelas e até o teto. Livros e cd's organizados em ordem alfabética, roupas velhas foram doadas e alguns planos de organização doméstica foram adotados a fim de minimizar a quantidade de vezes em que preciso bancar a escrava do lar. Respirar melhor - e respirar melhor literalmente - dentro da minha própria casa foi algo realmente significativo. Como já havia dito, de dentro pra fora é que se começa. E de dentro pra fora em todos os sentidos.
Do lado de dentro também está meu podre e deteriorado corpo. Doente, sofre as dores das minhas irresponsabilidades. Resolvi que se realmente quero viver mais alguns anos de vida e eliminar mais alguns itens da minha lista de "coisas para se fazer antes de morrer", precisava tomar partido disso também. Como já havia dito noutro post a bebida foi abandonada a certo tempo. Esse foi um salto, visto que o álcool, além de trazer outras mazelas, fazia com que eu me alimentasse muito mal. Joguei então todas as porcarias calóricas e cheias de açúcares no lixo, montei uma reorientação alimentar com base num cardápio mais saudável e - o mais difícil e inesperado, principalmente pra quem me conhece e sabe dos meus preconceitos - me matriculei numa academia de musculação. No primeiro dia eu achei que ia morrer. No final da primeira semana eu não tinha mais dúvidas disso. Mas em contrapartida, ao final dos primeiros dez dias, além de me sentir mais disposta, respirar melhor e ter eliminado praticamente todas as dores e ruídos estranhos que hora ou outra gritavam das juntas, perdi quase três quilos e provavelmente ganhei mais algum tempo nesse plano terrestre.
Mas existem algumas coisas do lado de fora que precisavam ser eliminadas também no início. Além de ter saído do emprego justamente com intuito de me reencontrar, o simples ato de sair das redes sociais causou um forte impacto em tudo. Dedicarei nas próximas semanas um post apenas sobre esse fato realmente decisivo e emblemático, mas preciso dizer como esse simples ato foi bastante significativo. Me desconectar virtualmente foi libertador. De repente eu não tinha mais nenhuma vida para vigiar, investigar, monitorar e seguir além da minha. Então as horas passadas na frente do computador definhando meu cérebro tentando decifrar as subjetividades escritas por outros foram voltadas todas para mim. Eu tenho mais tempo pra mim mesma, passo mais tempo comigo! E libertador também pelo fato de me livrar da necessidade doentia de ter que necessariamente expressar todos os meus sentimentos através de redes sociais, fazendo disso uma validação, como se sem esse ato de nada valessem esses sentimentos. Me retirar completamente da vida virtual trouxe exatamente o que eu queria e precisava nesse momento - solidão.
Então fui pro casulo, virei uma barata. Vivendo no escuro e nas sombras, sozinha, dentro e mais perto de mim do que nunca. As horas passadas olhando para o teto geraram grandes e maduras epifanias, além de pequenas ideias ainda gestantes, mas que aos poucos - e ao seu momento - nascerão. Me isolei de tudo e de todos. Como disse antes, sair das redes sociais causou forte impacto pois estar longe delas era como se eu tivesse morrido, e era justamente isso que eu queria - morrer para renascer. Sem ver e ouvir gente, sem ter que falar ou sorrir quando não quero, sem ter que dar explicações, dizer bom dia e obrigada, por favor e com licença, sem até logo e adeus. Passei longos dias sem dizer uma só palavra. Deus, como foi bom! Nunca me ouvi tanto! É justamente no silêncio que se ouve mais - e melhor. É uma certeza incontestável - se você é humano, a solidão é absolutamente necessária. A reclusão, a introspecção... é só no silêncio que se ouve e só no escuro que se enxerga. E eu ouvi. E eu vi.
O silêncio me fez rever alguns conceitos que acreditava que eram bem sólidos. A minha postura quanto as relações sentimentais foi uma das - senão a - mais significativa. Se livrar de amarras sentimentais é realmente muito difícil e doloroso. Por mais que eu queira, eu não conseguirei expressar aqui com os devidos detalhes merecidos cada um dos itens das pequenas - porém muito significativas - mudanças, mas num contexto geral acredito que fiquei mais dura e insensível. Logo eu, adepta do ultrarromantismo como um próprio livro do Shakespeare! Talvez seja triste, mas talvez necessário. Por um lado é bem provável que crie uma barreira mais espessa em torno de mim, afastando todos que queiram se aproximar demais, mas por outro... dessa forma fica mais difícil me enganar, me iludir, me deixar levar pelas minhas ideias ilusórias, pelas minhas criações devaneantes. Plantei a semente do desapego, da frieza, da calma e racionalidade - no que diz respeito a esse ponto, quero dizer. É claro que é muito fácil brincar de falar de um assunto tão intangível quanto esse quando sei que "sentir" é - porque não - fundamentalmente inevitável. Mas mesmo assim acredito em mim. Acredito que daqui em diante consiga ponderar e refletir melhor sobre fatos e não somente sobre pura e simples abstração. Mesmo os sentimentos precisam de "método". Esse é o meu.
Várias outras micro e macro revoluções aconteceram, acontecem e continuarão acontecer. Pude ter novamente a mais clara e absoluta certeza de que tudo acaba, tudo morre, tudo perece e que quando se é plenamente consciente desse fato as mudanças são mais fáceis e menos dolorosas, e que abandonar velhos paradigmas se faz necessário de quando em vez. Percebi também que existem algumas pessoas realmente valiosas e únicas inseridas na minha vida pelo caos todo poderoso que a rege e que preciso tomar conta para que elas permaneçam ao meu redor. Descobri que amo viajar e ando bem mais tolerante. O dinheiro continua sendo o foco, mas não tenho mais ganas de guardar e enriquecer a todo custo. Ando treinando algumas falas sobre "como fazer perguntas para as pessoas se ter que, toda vez, fazer discurso pedindo desculpas por estar invadindo a vida do outro" e não me sentir culpada depois. Gosto mais de mim, e sei que se eu quiser eu consigo. Sei que meus problemas mentais não se resolverão do dia para a noite e que o melhor remédio para entendê-los e até mesmo "curá-los", se assim posso dizer, é o tempo. Me sinto uns cinquenta e oito anos mais velha e dois mil anos mais sábia. Me aproximo então novamente aos poucos do mundo, que mudou um pouco desde a última vez que estive lá fora. Mas agora carregada de outras certezas e outros ventos, Deus de mim, falando talvez um pouco mais alto, até porque minha revolução silenciosa nem é tão silenciosa assim.
Ando por aí mais dona de mim do que nunca. Mais certa, mais precisa e, o melhor de tudo, sem medo. Alguma coisa ou outra ainda faz com que eu sinta aquele frio na barriga, mas em geral nada me comove, me convence ou me ilude mais. Me lembro de algo parecido apenas quando era adolescente e iniciava meus estudos filosóficos por aí. Outra época, mas a intensidade das mudanças são tão significativas quanto. Se me conhece, sabe que nunca fui de dar boas-vindas a qualquer coisa que alterasse minha sagrada rotina metódica ou minhas ideias cristalizadas como concreto, mas acredite, até este paradigma está sendo vencido pela suavidade dos meus mais novos pensamentos.
Não me lembro de quando tudo começou, mas o fim é inesquecível. Cheguei em um ponto onde percebi da forma mais madura que existe que não havia mais saída, não havia mais como sustentar o estilo de vida perigoso, displicente, cancerígeno, nostálgico e deprimente ao qual estava levando. Caminhava por aí como se não houvesse amanhã de uma forma irresponsável jamais vivida. Não havia uma só direção da qual eu olhava em que algo não estava desmoronando ou já tivesse desabado. Tudo, meu Deus! Absolutamente todos os caminhos estavam comprometidos por conta da minha constante negligência. Eu nunca estava lá pra nada. Vivia levando conforme os passos dados ou já traçados por outros, sem esperanças ou expectativas. Sem querer, sem buscar.
Distante da minha família como um parente que só aparece em velórios e casamentos, sufocada pelas minhas próprias mãos ao me perceber fazendo parte de tudo aquilo com o qual sempre repudiei, me humilhando dentro de um quadrado corporativo que servia apenas para limitar ou, por que não, tolher toda minha criatividade e minha liberdade de expressão, asfixiada pelas ilusões sentimentais criadas pela minha própria mente como, talvez, alguma forma de sublimação qualquer a fim de me sentir melhor em relação a alguma coisa, qualquer coisa que seja, estacionando meu cérebro, deixando de pensar e refletir racionalmente e fazendo com meus atos não passassem de meros instintos animais, como um bicho irracional qualquer, e, por fim, me drogando de álcool e soberba, como se a embriaguez da minha arrogância pudesse superar minha estupidez. Era um suicídio, lento, doloroso e caro. Escolhi viver. E mudar.
Voltei-me então para mim mesma, e me vi. Desfigurada, Deus... não sobrara muito eu dentro de mim. Percebi que mais algum tempo de vida frenética e desregrada eu me perderia por inteiro. E não teria volta. Acordei um dia meio morta em cima da cama sem a menor recordação do que acontecera nas últimas dez ou doze horas. Foi o fim. A parte de mim que não me habitava mais saiu de sei lá onde e pousou novamente dentro do meu corpo abatido e doente. Passei alguns minutos na cama sem conseguir me mover, por um lado pelas dores do corpo e da consciência e por outro pela mais longa e pesada epifania de todas. E mudar dói. Incomoda a parte da frente da cabeça e, invariavelmente, faz com que eu me sinta como se estivesse fazendo algo errado. Cria paradoxos e labirintos que as vezes sinto que nunca conseguirei resolver ou desvendar. Mas dessa vez é diferente. É leve... e claro que essa leveza toda me assusta um tanto também.
Primeiro passo da revolução é mudar de dentro pra fora. É criar consciência da necessidade. É tomar para si o problema como um desafio e tentar resolvê-lo não por obrigação mas pelo prazer de se ver e sentir liberto. Pois bem, decidida, comecei a tomar posse de mim novamente.
As mudanças físicas, que são relativamente mais fáceis, vieram primeiro. Joguei fora todas as tralhas e velharias, tudo que julgava velho e desnecessário, tudo mesmo. Troquei os móveis, lavei portas, janelas e até o teto. Livros e cd's organizados em ordem alfabética, roupas velhas foram doadas e alguns planos de organização doméstica foram adotados a fim de minimizar a quantidade de vezes em que preciso bancar a escrava do lar. Respirar melhor - e respirar melhor literalmente - dentro da minha própria casa foi algo realmente significativo. Como já havia dito, de dentro pra fora é que se começa. E de dentro pra fora em todos os sentidos.
Do lado de dentro também está meu podre e deteriorado corpo. Doente, sofre as dores das minhas irresponsabilidades. Resolvi que se realmente quero viver mais alguns anos de vida e eliminar mais alguns itens da minha lista de "coisas para se fazer antes de morrer", precisava tomar partido disso também. Como já havia dito noutro post a bebida foi abandonada a certo tempo. Esse foi um salto, visto que o álcool, além de trazer outras mazelas, fazia com que eu me alimentasse muito mal. Joguei então todas as porcarias calóricas e cheias de açúcares no lixo, montei uma reorientação alimentar com base num cardápio mais saudável e - o mais difícil e inesperado, principalmente pra quem me conhece e sabe dos meus preconceitos - me matriculei numa academia de musculação. No primeiro dia eu achei que ia morrer. No final da primeira semana eu não tinha mais dúvidas disso. Mas em contrapartida, ao final dos primeiros dez dias, além de me sentir mais disposta, respirar melhor e ter eliminado praticamente todas as dores e ruídos estranhos que hora ou outra gritavam das juntas, perdi quase três quilos e provavelmente ganhei mais algum tempo nesse plano terrestre.
Mas existem algumas coisas do lado de fora que precisavam ser eliminadas também no início. Além de ter saído do emprego justamente com intuito de me reencontrar, o simples ato de sair das redes sociais causou um forte impacto em tudo. Dedicarei nas próximas semanas um post apenas sobre esse fato realmente decisivo e emblemático, mas preciso dizer como esse simples ato foi bastante significativo. Me desconectar virtualmente foi libertador. De repente eu não tinha mais nenhuma vida para vigiar, investigar, monitorar e seguir além da minha. Então as horas passadas na frente do computador definhando meu cérebro tentando decifrar as subjetividades escritas por outros foram voltadas todas para mim. Eu tenho mais tempo pra mim mesma, passo mais tempo comigo! E libertador também pelo fato de me livrar da necessidade doentia de ter que necessariamente expressar todos os meus sentimentos através de redes sociais, fazendo disso uma validação, como se sem esse ato de nada valessem esses sentimentos. Me retirar completamente da vida virtual trouxe exatamente o que eu queria e precisava nesse momento - solidão.
Então fui pro casulo, virei uma barata. Vivendo no escuro e nas sombras, sozinha, dentro e mais perto de mim do que nunca. As horas passadas olhando para o teto geraram grandes e maduras epifanias, além de pequenas ideias ainda gestantes, mas que aos poucos - e ao seu momento - nascerão. Me isolei de tudo e de todos. Como disse antes, sair das redes sociais causou forte impacto pois estar longe delas era como se eu tivesse morrido, e era justamente isso que eu queria - morrer para renascer. Sem ver e ouvir gente, sem ter que falar ou sorrir quando não quero, sem ter que dar explicações, dizer bom dia e obrigada, por favor e com licença, sem até logo e adeus. Passei longos dias sem dizer uma só palavra. Deus, como foi bom! Nunca me ouvi tanto! É justamente no silêncio que se ouve mais - e melhor. É uma certeza incontestável - se você é humano, a solidão é absolutamente necessária. A reclusão, a introspecção... é só no silêncio que se ouve e só no escuro que se enxerga. E eu ouvi. E eu vi.
O silêncio me fez rever alguns conceitos que acreditava que eram bem sólidos. A minha postura quanto as relações sentimentais foi uma das - senão a - mais significativa. Se livrar de amarras sentimentais é realmente muito difícil e doloroso. Por mais que eu queira, eu não conseguirei expressar aqui com os devidos detalhes merecidos cada um dos itens das pequenas - porém muito significativas - mudanças, mas num contexto geral acredito que fiquei mais dura e insensível. Logo eu, adepta do ultrarromantismo como um próprio livro do Shakespeare! Talvez seja triste, mas talvez necessário. Por um lado é bem provável que crie uma barreira mais espessa em torno de mim, afastando todos que queiram se aproximar demais, mas por outro... dessa forma fica mais difícil me enganar, me iludir, me deixar levar pelas minhas ideias ilusórias, pelas minhas criações devaneantes. Plantei a semente do desapego, da frieza, da calma e racionalidade - no que diz respeito a esse ponto, quero dizer. É claro que é muito fácil brincar de falar de um assunto tão intangível quanto esse quando sei que "sentir" é - porque não - fundamentalmente inevitável. Mas mesmo assim acredito em mim. Acredito que daqui em diante consiga ponderar e refletir melhor sobre fatos e não somente sobre pura e simples abstração. Mesmo os sentimentos precisam de "método". Esse é o meu.
Várias outras micro e macro revoluções aconteceram, acontecem e continuarão acontecer. Pude ter novamente a mais clara e absoluta certeza de que tudo acaba, tudo morre, tudo perece e que quando se é plenamente consciente desse fato as mudanças são mais fáceis e menos dolorosas, e que abandonar velhos paradigmas se faz necessário de quando em vez. Percebi também que existem algumas pessoas realmente valiosas e únicas inseridas na minha vida pelo caos todo poderoso que a rege e que preciso tomar conta para que elas permaneçam ao meu redor. Descobri que amo viajar e ando bem mais tolerante. O dinheiro continua sendo o foco, mas não tenho mais ganas de guardar e enriquecer a todo custo. Ando treinando algumas falas sobre "como fazer perguntas para as pessoas se ter que, toda vez, fazer discurso pedindo desculpas por estar invadindo a vida do outro" e não me sentir culpada depois. Gosto mais de mim, e sei que se eu quiser eu consigo. Sei que meus problemas mentais não se resolverão do dia para a noite e que o melhor remédio para entendê-los e até mesmo "curá-los", se assim posso dizer, é o tempo. Me sinto uns cinquenta e oito anos mais velha e dois mil anos mais sábia. Me aproximo então novamente aos poucos do mundo, que mudou um pouco desde a última vez que estive lá fora. Mas agora carregada de outras certezas e outros ventos, Deus de mim, falando talvez um pouco mais alto, até porque minha revolução silenciosa nem é tão silenciosa assim.
![]() |
| Xeque-Me |

Comentários
Postar um comentário