# Independência de que mesmo? #

Então eu liguei a TV aguardando a tal “maior manifestação de todos os tempos” e o que eu vi... bem, o de sempre. A mesma passividade, apatia e inércia do grupo que já esteve naquelas ruas em um número bem mais expressivo. Ora, mas o que você supõe que se faça? Que fiquemos indignados em casa, confortáveis atrás das TV’s e atuando como ativistas em redes sociais? Não. Aliás, eu nem proponho mais soluções, o que não me tira o direito de ficar FURIOSA e me sentir na obrigação de GRITAR minha ira. (Nota: perceba que faço agora exatamente o que acabei de execrar, ficar indignada e berrar metaforicamente no conforto do meu lar, mas eu sei que os que leem irão superar a depressão que desenvolveram após esse fato e qualquer gasto necessário com terapia e medicamentos poderão ser encaminhados à minha caixa postal, me coloco a inteira disposição).

(Outra nota: não estive nas ruas (hoje) porque sinto que minha mãe pode sofrer graves complicações se precisar me tirar da cadeia, apenas isso.)

Parece-me, mas só parece, que a intenção do “povo heroico” era “bradar retumbantemente” as “margens do rio Ipiranga” que, nesse caso, era o palanque onde estavam acondicionados, dentre outros, nosso queridíssimo prefeito-sustentável e o vice imperador- quero dizer, governador do estado. Mas então, eu me pergunto, porque não invadiram/interromperam/atropelaram o tal desfile a fim de garantir o sucesso da tal – essa parte eu adoro – ”operação”? (operação?!)

Ah, mas você sabe bem. Nosso estado tem a polícia mais pacífica da face da galáxia! Lembra? Lembra-se das flores? Não é lindo? É uma delícia saber que vivemos num estado onde podemos protestar livremente sabendo que um dos maiores – senão o maior – ícone que simboliza toda a força, autoridade e arrogância do PODER ao qual estamos lutando CONTRA está (misteriosamente) do nosso lado! Não é mesmo uma maravilha? E vendo os noticiários (sempre nada tendenciosos e absolutamente imparciais, claro) eu, como de costume, tive uma visão mais lúdica da coisa toda.

 - Seu... é.. seu puliça?! É... licença aí hein... Será que... bem, se não estivermos causando nenhum transtorno... se estiver bom pra todos, será que podíamos dar uma manifestadinha por aqui hoje? Sabe, descer e subir algumas ruas com nossas faixas e bandeiras atrás da micareta! Olhe, estamos reivindicando pela saúde, segurança, educação... e pelos desaparecidos na ditadura (!?). Veja, são reivindicações bem suaves e plausíveis, não acha? Hein, o que me diz? É só hoje, será bem rápido, eu prometo! A gente grita e vai embora! Não vamos incomodar ninguém! Hein, o que me diz, hein, hein?

- Oh sim, claro! Afinal, fazemos parte de um estado livre e democrático, onde todos têm o direito de se expressar e-

- Oh, muito obriga-

- Cale a boca, ainda não terminei! [pigarro] Bem, como eu dizia todos têm o direito de se expressar além de possuirmos a plena liberdade de ir e vir quando e onde bem entendermos e... ei você! Não se atreva a cruzar essa linha amarela, garoto!

- Nós podemos chegar ali?

- Não, vocês tem permissão para ficar dentro deste quadrado aqui.

- Este aqui?

- Isso mesmo!

- Mas... é que... sabe, nós tínhamos planos de gritar algumas palavrinhas de ordem na cara do prefeito e das demais autoridades, lá em frente ao palanque, sabe como é... coisa boba, uma palavrinha ou outra, nada de mais, ninguém iria notar, e vai ser bem rápido, eu prometo!

- Negativo.

- Não podemos descer a Tocantins?

- Oh sim, claro! Porque não disse isso antes?! Claro que podem...

- Oh, muito obrigado senhor, senhor, senhor!

- Mas só depois que o desfile terminar, e todos forem embora, e as ruas estiverem vazias, e afinal é feriado, e tal, e tal, e tal...

Eu fico aqui pensando e tentando imaginar como seria a história do mundo se todas as “revoluções” fossem pacíficas. “Oh, minha nossa, veja, vem aqui ver mãe, ela está incitando a violência, que horror, que horror!” Não perderei meu valioso tempo nem gastarei meu exímio latim para explicar o que já disse. A ironia nas minhas palavras jamais irá superar a ironia maior que está por trás de todas essas coisas. Quer um exemplo delicioso?

- PAUSA DRAMÁTICA -

Inciso IX do Art. 5º do Capítulo I da Constituição Federal: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”;

Inciso XVI do Art. 5º do Capítulo I da Constituição Federal: todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização (...);

Inciso XXXIV do Art. 5º do Capítulo I da Constituição Federal: “são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas:
a) o direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder”.

- FIM DA PAUSA DRAMÁTICA –

(Agora você está pronto para prosseguir)
Após criar um projeto de lei que proíbe o uso de máscaras nas manifestações (sim!), o excelentíssimo deputado estadual, pelo Rio de Janeiro, Domingos Brazão aparece na TV para dar explicações sobre o tema. E a TV... adoro! Depois de recitar poeticamente toda aquela baboseira sobre vandalismo ele solta o que, pra mim, foi a maior pérola dos últimos tempos. O deputado disse, exatamente com essas palavras, que “a intenção mesmo é a de REGULAMENTAR as manifestações”. “Regulamentar”?!? Só eu acho esse tipo de declaração uma ABERRAÇÃO?

Pois bem, regulamentemos. Em nome da ordem e dos bons costumes, né dePUTAdo? Então daqui a alguns meses nos teremos a “Cartilha Nacional de Manifestações”, onde o governo estabelecerá as normas e regras para que possamos expressar o que já é nosso DIREITO. Coisas como manifestações de segunda a sábado somente fora do horário comercial, nada de passar das dez da noite, não será permitido ocupar vias públicas, a não ser que o grupo se reúna apenas em cima das calçadas, e nada de acampar em frente a casa dos outros, coisa mais deselegante! Acho justo, bem digno. E eu, sinceramente, não me assustaria se algo assim acontecesse.


Mas parece que eu comecei falando de uma coisa e terminei falando de outra. Olhe, desculpe pela minha prolixidade. Peço desculpas se magoei seus sentimentos de PSEUDO-CONSCIÊNCIA POLÍTICA e, para concluir, preciso reafirmar meu compromisso com sua saúde. Sinta-se à vontade para encaminhar a minha caixa postal suas receitas médicas e demais despesas com terapia, ressaltando que prefiro pagar por sua sanidade mental ao ouvi-lo dizer que está MUDANDO O PAÍS dessa forma. Continue me mandando solicitações de jogos e aquele aplicativo que promete mudar a cor do Facebook, mas não me convide mais para participar da sua REVOLUÇÃO DE MERDA, tomar Toddynho no meio da rua e constatar que “DEMOCRACIA” é uma PIADA!!


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