Tal do álcool
Então... estou embriagada de doses de sinceridade! É a única embriaguez que me deixa verdadeiramente lúcida. Mas antes de qualquer coisa, e para não perder o costume, vamos à contextualização histórica. Treze, talvez doze anos. Não mais. Era final de noite de natal. Estava inadvertidamente jogando cartas com meu tio mais novo. Meu tio... que tem idade para ser meu irmão, é até estranho, mas enfim. Ele abastecia meu copo com um vinho barato qualquer, desses que se jogam na sua frente quando você passeia pelo supermercado nessa fatídica época do ano. Bem, era uma bebida doce afinal, até então estava achando aquilo muito bom. Num certo ponto da noite percebi que meu copo não esvaziava mais. O paradoxo é que eu estava ficando cada vez mais bêbada. Eu não entendia como aquilo era possível. O copo sempre cheio e minha mente cada vez mais tonta. Ou estava me embriagando de truco ou bebendo por osmose. Mas, você sabe bem... ao que me parece estava bebendo tão rápido que meu tio tinha que abastecer meu copo de extrato de tomate com mais regularidade. Mas... tudo certo até acordar no outro dia. A primeira ressaca a gente nunca esquece! É fato que eu era uma criança que sofria de várias mazelas patológicas, estava razoavelmente acostumada com algumas dores - mas não aquela. Era um dor que vinha de não sei onde doendo não sei o quê. Estômago embrulhado, ânsia de vômito, corpo moído, sede do camelo do deserto, cabeça roendo de dor e minha mãe fazendo questão de não me deixar esquecer que nunca mais deveria beber de novo. Não deu certo, mãe.
Os especialistas dizem que sempre se começa usando drogas mais fracas para só depois conseguir ingressos para Woodstock. É claro que no meu caso não seria diferente. As comemorações de fim de ano em família me ajudaram muito nesse quesito. Dos ingênuos e inofensivos brindes com cidras vagabundas às, eu diria, comportadas taças de vinhos baratos - foi um passo. E vivi muitos anos felizes nesse mesmo passinho; dois pra lá, dois pra cá. Confesso que houve época em que me considerava a própria sommelier de boteco; conhecia dos sabores mais doces aos mais secos dos mais diversos vinhos nacionais e importados. Hoje me lembro com saudosismo desses bons tempos onde apreciar um bom vinho com boas companhias não passava de algo meramente despretensioso. Até conhecer a loura que desgraçaria para sempre minha vida e mudaria o curso de boa parte dela.
A cerveja me abriu as portas do inferno! E perceba que não há exageros nessa passagem visto que, algumas vezes, por pouco, por bem pouco, quase realmente visitei o Exu. Já passei por todas as fases do bebedor de cerveja - de beber só quando a garrafa de vinho já estivesse completamente seca, de beber a mais barata, de beber a mais gelada, descobrir que a marca tal causa diarreia, a marca tal dá dor de cabeça, mudaram a fórmula da marca tal e agora ficou impossível digerir, beber a cerveja da modinha, descobrir enfim aquela que foi feita para seu paladar, sempre combinar encontros com amigos em ambientes que vendam cerveja, beber cada vez mais, beber cada vez mais rápido, beber sozinha em casa, aceitar como um ritual beber absolutamente todos os finais de semana, beber durante a semana, beber todos os dias, criar motivos para beber até várias vezes ao mesmo dia... dizendo essas coisas horríveis me sinto como se estivesse no meu primeiro dia na reunião do grupo dos Alcoólicos Anônimos contando minha triste história e sendo aplaudida no final após dizer que agora... agora eu pretendo mudar! Seria comovente não fosse trágico.
Acho que não preciso dizer que da cerveja para as bebidas quentes foi um passo também, aliás, um salto. Gigante. Passei rapidamente pela vodka e jamais retornarei, caminho alegremente pelos vales amadeirados da tequila e agora, minha última paixão etílica, os robustos campos agridoces do maldito whisky. Isso, claro, de forma natural e rotineira. Pois existem, de quando em vez, minhas idas e vindas aos prostíbulos de licores, conhaques, cachaças, bebidas importadas com nomes exóticos e indizíveis, rum, drinques variados e até - quem diria - o proibidão com direito a sangue nos olhos e "faca na caveira": absinto. Porque cheguei a um ponto em que a leveza e baixo teor alcoólico da cerveja não me satisfaziam mais. Eu sei que você deve estar nesse momento se perguntando onde isso irá parar, já te direi. Mas antes não posso me furtar a lhe contar o que acontece no dia seguinte. Como prosseguir meu relato sobre os etanóis sem lhe contar o que eles causam?
De pequenas dores de cabeça e leves mal estar até carteiras furtadas, tapas na cara e joelho quebrado - é isso que eles causam. Se tem uma coisa que eu aprendi é que a matemática não mente - quanto mais álcool, mais merda. Ou pelo menos a probabilidade de acontecer algo do qual você irá se arrepender durante muito tempo aumenta conforme a quantidade de doses. Veisalgia, é o nome científico da ressaca nossa de cada dia. Sintomas patológicos após uma noite de bebedeira não diminuem a responsabilidade no trabalho no dia seguinte. Convenhamos, atestado de ressaca deveria até ser crime! Mas o que acontece de pior mesmo não tem CID - a ressaca moral... uma mistura de vários dos péssimos ingredientes de um, eu diria, ego ferido... Frustração, angústia, nostalgia de fim de livro e até, em alguns casos mais graves, doses moderadas de puro desespero. A ressaca moral, inclusive, é o motivo de estar aqui agora me perdendo nessas linhas.
Eu preciso fazer você entender porque eu bebo. É muito simples - antidepressivos são absurdamente caros. Viver sóbria, lúcida e absolutamente consciente dentro dessa minha mente é humanamente impossível pra mim. Dói. Pensar dói. E se pensar fosse uma profissão eu seria especialista. Não faço nada além de simplesmente pensar em tudo o tempo todo. Você diria que pensar é totalmente comum e que não há nada de errado nisso, mas os meus pensamentos fogem às regras da normalidade. São sempre tão intensos, tão profundos, subvertem todo meu ser, derramam complexidade e morbidez dentro de mim. Perceba o quanto isso é angustiante e terrivelmente chato! Chato! Eu não posso ser egoísta; não dá pra punir todas as pessoas da Terra só porque não consigo resolver meus problemas psicológicos. Além do que, apesar de todo homem ser uma ilha, ninguém consegue viver sozinho de verdade. E por mais que eu levante essa bandeira e estufe o peito pra falar sobre toda essa minha liberdade ilusória (e utópica), infelizmente, também não consigo viver sozinha comigo mesma. Então estão aí os dois motivos básicos pelos quais me aventuro pelo álcool; a sobriedade que me deprime, me envenena e me faz permanecer acordada quando tudo que eu quero é dormir e o fato de que uso esse recurso para sair da minha ilha e me encontrar com as pessoas de verdade que vivem fora dela, me socializar e sentir que, mesmo que por algumas horas, mesmo talvez sendo observada por trás de máscaras, o monstro que sou pode ser, de alguma forma, acolhido por alguém. Triste... mas não dou à mínima.
Talvez não até agora. Alguma coisa acontece no meu coração e nem preciso cruzar a Ipiranga com a avenida São João. Ando me perdendo por aí. Antigamente bradava com orgulho minha ímpar capacidade em conhecer os limites da minha mente e do meu fígado. Não importava quando ou onde, assim que o limite chegasse eu parava imediatamente de beber, houvesse o que for. Em contrapartida achava deprimentemente ridículo todas essas pessoas que bebem até cair, passando mal por aí, comas alcoólicos por ali. Confesso que meu sistema imunológico é muito bom, meu fígado me compreende bem e, até o momento, posso dizer que nunca precisei me hospitalizar por conta disso nem nunca fui carregada pra casa. Mas repito, até agora. Algo de realmente preocupante em relação as minhas investidas pelos botecos vem acontecendo cada vez com mais frequência.
Dia desses, refletindo sobre o assunto, pude crer que se fosse abastada de dinheiro a essa altura da vida eu poderia tranquilamente ser categorizada como alcoólatra. Mas como diz o ditado, Deus sabe o que faz, não é mesmo? Dinheiro faz com eu me sinta livre e essa liberdade aliada ao álcool são meus ingredientes para produção de fissões nucleares, e nem precisa de plutônio. O que acontece de verdade é que, ao que me parece, estou perdendo - ou já perdi - o freio. Não consigo mais me satisfazer em me divertir despretensiosamente até às onze da noite. Não, vou caminhando de bar em bar até que não haja mais nenhum lugar descente para me sentar e continuar minha aventura, até que a última garrafa esteja completamente vazia, e até que o primeiro raio de sol apareça solitário no horizonte. Envelhecer está sendo muito penoso... além de não suportar o fato de que ando fazendo esse tipo de loucura, colocando minha vida em risco a troco de mais uma dose, me sujeitando a coisas que repudiava no passado e destruindo qualquer possibilidade de estabilidade financeira, não tenho exatamente mais idade para tais aventuras noturnas e meu corpo sempre clama por sossego no dia seguinte. E o dia seguinte é tão ou mais emblemático que os instantes flutuados no mar da embriaguez.
Após acordar sempre inundada de um calor imenso e uma disritmia preocupante, acontece a pior parte da jornada etílica - a chuva de lembranças. E aquelas que estão talvez ainda um pouco inebriadas ou desconexas saltam rapidamente para a memória assim que coloco a mão no celular, abro a mochila, ando pela casa e até, invariavelmente, encontro um hematoma aqui outro ali. Meu lado CSI entra em ação a fim de solucionar os mistérios das últimas horas, catando aqui e ali evidências que provam minha estupidez. Não há chuveirada, remédios ou água no mundo capaz de sanar minhas dores físicas, que dirá as psicológicas. É absolutamente frustrante e angustiante reviver, agora sóbria, os passos dados e as doses bebidas da noite que passou. As coisas que disse, as que ouvi, a forma como fiz ou deixei de fazer alguma coisa, as pessoas com as quais me envolvi - tudo lixo. Um entulho que somente é apagado da lembrança após acontecer uma nova história para rememorar. É deprimente.
Dia desses me ocorreu uma daquelas famigeradas epifanias sempre bem vindas. Não satisfeita em terminar a noite a salvo em casa após chegar de um encontro bem bacana com amigos, pedi um táxi e fui parar às três da madrugada dentro de uma boate. Sozinha. É óbvio que o álcool já tomava minha mente, mas o que é inadmissível é essa sede que não cessa. Me peguei falando com estranhos, me sentido velha amiga de garotinhas de dezoito, demonstrando a minha "grande e vasta experiência" acerca dos mais diversos assuntos com todos que cruzavam meu caminho, chacoalhando o copo de whisky na mão. Cena deplorável. A epifania que citei anteriormente veio por conta dessas questões de idade. Quem sabe o álcool, que sempre me deixa socializável, não seja um antídoto contra o envelhecimento? Talvez sob seu efeito eu me sinta mais viva e consequentemente mais jovem!?! Talvez... mas de qualquer forma esse fato não diminuiria a estupidez dos meus atos insanos e inconsequentes.
Estou realmente preocupada. E perceba que a raridade do fato de estar preocupada comigo mesma agrava ainda mais a situação. Será já um vício? Acredito que ainda não. Talvez uma fase? Espero. E como conseguir me conter já que a maioria dos ambientes que frequento este é um hábito comum? Talvez não devesse mais frequentá-los? Não, isso seria como tentar diminuir os roubos dentro de agências bancárias proibindo o uso de celular dentro delas - estúpido e desnecessário. Os males devem ser enfrentados em seu cerne, em suas raízes. Como parar se quando começo não quero parar? É simples - não começar. E há ainda outro problema muito mais grave: o álcool facilita o caminho para outras drogas, sou muito suscetível a essas coisas, sou fraca. É melhor então parar enquanto elas continuam apenas dentro de um copo.
Eu preciso fazer você entender porque eu bebo. É muito simples - antidepressivos são absurdamente caros. Viver sóbria, lúcida e absolutamente consciente dentro dessa minha mente é humanamente impossível pra mim. Dói. Pensar dói. E se pensar fosse uma profissão eu seria especialista. Não faço nada além de simplesmente pensar em tudo o tempo todo. Você diria que pensar é totalmente comum e que não há nada de errado nisso, mas os meus pensamentos fogem às regras da normalidade. São sempre tão intensos, tão profundos, subvertem todo meu ser, derramam complexidade e morbidez dentro de mim. Perceba o quanto isso é angustiante e terrivelmente chato! Chato! Eu não posso ser egoísta; não dá pra punir todas as pessoas da Terra só porque não consigo resolver meus problemas psicológicos. Além do que, apesar de todo homem ser uma ilha, ninguém consegue viver sozinho de verdade. E por mais que eu levante essa bandeira e estufe o peito pra falar sobre toda essa minha liberdade ilusória (e utópica), infelizmente, também não consigo viver sozinha comigo mesma. Então estão aí os dois motivos básicos pelos quais me aventuro pelo álcool; a sobriedade que me deprime, me envenena e me faz permanecer acordada quando tudo que eu quero é dormir e o fato de que uso esse recurso para sair da minha ilha e me encontrar com as pessoas de verdade que vivem fora dela, me socializar e sentir que, mesmo que por algumas horas, mesmo talvez sendo observada por trás de máscaras, o monstro que sou pode ser, de alguma forma, acolhido por alguém. Triste... mas não dou à mínima.
Talvez não até agora. Alguma coisa acontece no meu coração e nem preciso cruzar a Ipiranga com a avenida São João. Ando me perdendo por aí. Antigamente bradava com orgulho minha ímpar capacidade em conhecer os limites da minha mente e do meu fígado. Não importava quando ou onde, assim que o limite chegasse eu parava imediatamente de beber, houvesse o que for. Em contrapartida achava deprimentemente ridículo todas essas pessoas que bebem até cair, passando mal por aí, comas alcoólicos por ali. Confesso que meu sistema imunológico é muito bom, meu fígado me compreende bem e, até o momento, posso dizer que nunca precisei me hospitalizar por conta disso nem nunca fui carregada pra casa. Mas repito, até agora. Algo de realmente preocupante em relação as minhas investidas pelos botecos vem acontecendo cada vez com mais frequência.
Dia desses, refletindo sobre o assunto, pude crer que se fosse abastada de dinheiro a essa altura da vida eu poderia tranquilamente ser categorizada como alcoólatra. Mas como diz o ditado, Deus sabe o que faz, não é mesmo? Dinheiro faz com eu me sinta livre e essa liberdade aliada ao álcool são meus ingredientes para produção de fissões nucleares, e nem precisa de plutônio. O que acontece de verdade é que, ao que me parece, estou perdendo - ou já perdi - o freio. Não consigo mais me satisfazer em me divertir despretensiosamente até às onze da noite. Não, vou caminhando de bar em bar até que não haja mais nenhum lugar descente para me sentar e continuar minha aventura, até que a última garrafa esteja completamente vazia, e até que o primeiro raio de sol apareça solitário no horizonte. Envelhecer está sendo muito penoso... além de não suportar o fato de que ando fazendo esse tipo de loucura, colocando minha vida em risco a troco de mais uma dose, me sujeitando a coisas que repudiava no passado e destruindo qualquer possibilidade de estabilidade financeira, não tenho exatamente mais idade para tais aventuras noturnas e meu corpo sempre clama por sossego no dia seguinte. E o dia seguinte é tão ou mais emblemático que os instantes flutuados no mar da embriaguez.
Após acordar sempre inundada de um calor imenso e uma disritmia preocupante, acontece a pior parte da jornada etílica - a chuva de lembranças. E aquelas que estão talvez ainda um pouco inebriadas ou desconexas saltam rapidamente para a memória assim que coloco a mão no celular, abro a mochila, ando pela casa e até, invariavelmente, encontro um hematoma aqui outro ali. Meu lado CSI entra em ação a fim de solucionar os mistérios das últimas horas, catando aqui e ali evidências que provam minha estupidez. Não há chuveirada, remédios ou água no mundo capaz de sanar minhas dores físicas, que dirá as psicológicas. É absolutamente frustrante e angustiante reviver, agora sóbria, os passos dados e as doses bebidas da noite que passou. As coisas que disse, as que ouvi, a forma como fiz ou deixei de fazer alguma coisa, as pessoas com as quais me envolvi - tudo lixo. Um entulho que somente é apagado da lembrança após acontecer uma nova história para rememorar. É deprimente.
Dia desses me ocorreu uma daquelas famigeradas epifanias sempre bem vindas. Não satisfeita em terminar a noite a salvo em casa após chegar de um encontro bem bacana com amigos, pedi um táxi e fui parar às três da madrugada dentro de uma boate. Sozinha. É óbvio que o álcool já tomava minha mente, mas o que é inadmissível é essa sede que não cessa. Me peguei falando com estranhos, me sentido velha amiga de garotinhas de dezoito, demonstrando a minha "grande e vasta experiência" acerca dos mais diversos assuntos com todos que cruzavam meu caminho, chacoalhando o copo de whisky na mão. Cena deplorável. A epifania que citei anteriormente veio por conta dessas questões de idade. Quem sabe o álcool, que sempre me deixa socializável, não seja um antídoto contra o envelhecimento? Talvez sob seu efeito eu me sinta mais viva e consequentemente mais jovem!?! Talvez... mas de qualquer forma esse fato não diminuiria a estupidez dos meus atos insanos e inconsequentes.
Estou realmente preocupada. E perceba que a raridade do fato de estar preocupada comigo mesma agrava ainda mais a situação. Será já um vício? Acredito que ainda não. Talvez uma fase? Espero. E como conseguir me conter já que a maioria dos ambientes que frequento este é um hábito comum? Talvez não devesse mais frequentá-los? Não, isso seria como tentar diminuir os roubos dentro de agências bancárias proibindo o uso de celular dentro delas - estúpido e desnecessário. Os males devem ser enfrentados em seu cerne, em suas raízes. Como parar se quando começo não quero parar? É simples - não começar. E há ainda outro problema muito mais grave: o álcool facilita o caminho para outras drogas, sou muito suscetível a essas coisas, sou fraca. É melhor então parar enquanto elas continuam apenas dentro de um copo.
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