# Le Dernier Acte #

E da mesma forma o nome da peça, foi difícil escolher. As escolhas são sempre muito difíceis de tomar nessas horas. Mas nada mais constrangedor que a escolha dos atores. Disse desde o início que não sabia atuar. O rapaz que fazia música no bar tocava baixo, teclado e cantava, tudo ao mesmo tempo. Eu não sei fazer essas coisas, entende? Eu não consigo ser e atuar e cantar e tocar e ser... a individualização de cada movimento, de cada sentimento deve ser respeitada. Fui coagida por mim mesma a me sujeitar a vários papeis nessa peça, e, é claro, nenhum deles foi exercido com a devida maestria. Como diretora e roteirista bradava frases de motivação e punição, como atriz nunca soube quando exatamente era minha deixa, como figurante fui indicada a Oscar e como expectadora... bem, não queria sair da sala ao fechar das cortinas, não quis aceitar o fatídico e nostálgico momento do fim. Apagam-se às luzes.

Eis o terceiro e último ato da peça. Este é aquele momento onde as grandes revelações acontecem, onde o espectador se surpreende, se emociona ou até mesmo se irrita com o desfecho. É o momento onde são selados os emaranhados de suposições, onde os nós são desatados, o momento em que acontece a maior parte dos exercícios dos músculos da face do espectador. Onde os fatos são rememorados em forma de retrospectiva e agora, nesse momento, fazem todo sentido do mundo. O mordomo era o patrão, o patrão o assassino, o assassino a vítima, a vítima o mordomo. Onde o roteirista se sente à vontade para brincar com sua imaginação e colocar os seus nervos a prova. Mas como em toda peça bem escrita nada é o que parece.


PRÓLOGO
O prólogo, na verdade, era para ser epílogo. Mas como nada é realmente o que parece, o depois vem antes. Após quase três horas de vida despendidas a escrever algumas palavras que pudessem expressar o que eu sinto nesse momento, desisti. Selecionei o que seria o mais longo texto já publicado nesse tal de blog e simplesmente apaguei tudo e sem dó. Não faria sentido dizer tais palavras dessa forma. Não posso - e jamais irei - expor pessoas e situações aqui nesse ambiente, até porque além de ser uma coisa estúpida de se fazer não faz definitivamente meu tipo. Os quase trinta parágrafos deletados não se transformarão assim, do dia para a noite, em bits zero-um vagando pelo ciberespaço,  mas também não posso usar minhas palavras, as únicas ferramentas que tenho para alcançar e atingir as pessoas, de forma displicente. Eu não controlo meus sentimentos, mas posso - e devo - controlar minhas palavras. Não tenho mais fé em poder dizê-las exatamente da forma como estavam escritas à única pessoa que interessa. E, acredite, o simples fato de perder a fé num gesto aparentemente singelo já é um grande ato. O ato final.


PRIMEIRO ATO

CENA UM | Check List
Era agosto ou setembro, se bem me lembro, como diz a canção. Alguém perguntava qual foi o momento mais marcante ou mais feliz, você disse que como algumas pessoas já haviam dito, foi o nascimento do seu filho. Engraçado como toda vez que me lembro disso, e é apenas isso que me lembro, me vêm instantaneamente à mente a imagem do chapeuzinho vermelho e uma música antiga do Cazuza. Sei que você me entende. Alguma coisa sobre Clarice Lispector e Steve Jobs. Certeza que te conheço de algum lugar. Conhece Fulana? Foi engraçado a forma como me olhou ao dizer que conhecia sim a Fulana, mas de onde mesmo vocês se conhecem? Incrível a velocidade em que as coisas fazem sentido. Também estudo lá. Vamos almoçar?

CENA DOIS | Flerte Fatal
As coisas então aconteciam daquele bom e velho modo que muito me agrada - naturalmente. O filho, os bares fechados, as músicas ao som da chuva, as idas e vindas daqui para ali, Édith Piaf, aquela necessidade, Le Petit Prince, os telefonemas eternos, minha casa, sua casa. Eu não sou leviana, eu disse. Eu também não, você disse. Desejo sem máscara.

CENA TRÊS | Maçã Verde
As coisas aconteciam com alguma explicação, como diz a canção. Há um mistério, eu disse. Há, na verdade, coisas que não foram ditas, você disse. É claro que ninguém entende minhas subjetividades! Não é disso que estou falando, até porque debaixo de todos os meus cabelos brancos e minha ignorância social, eu sabia muito bem quais eram as coisas que não eram ditas. O subentendido deixa tudo muito claro, não é mesmo? Peguei papel e caneta e iniciamos aquele momento todo emblemático e carregado de significado. Existe um ser que te habita, escrevi, e durante toda uma hora descrevi, subjetivamente claro, como eu via o universo dentro de você. Foi um momento realmente memorável. Foi a partir dali, creio eu, daquele almoço absolutamente despretensioso, que as coisas foram se tornando cada vez mais graves e inevitáveis.

CENA QUATRO | Hematita
O telefonema: e então depois de horas emergidas em álcool e sentimentalismos... falei coisas, ouvi coisas. Aquele tipo de coisa dita que faz todo sentido, que muda, que desvia a configuração das coisas, que altera, que perturba, que causa. Depois disso, livros e pedras. Muitas pedras.


SEGUNDO ATO

CENA UM | Short Message Service
Fatos realmente significativos, conversa franca através de meios frios. Não quero te magoar, alguém disse. Distância e silêncio.

CENA DOIS | O Abismo
Basicamente distância e silêncio. Eu sempre digo isso: a única coisa que tenho das pessoas são o que elas fazem e dizem para e por mim. Só. Nesse contexto é complicado assimilar informação valiosa sobre você dita por outras pessoas, entende? Supostamente as palavras deveriam sair dos seus próprios lábios para fazer sentido pra mim. Um pouco mais de distância e silêncio.

CENA TRÊS | A saga do colar 
Você está sem nenhum senso de humor ultimamente, você disse. Tenho algo pra você, eu disse. Eu sabia que era..., você disse. Quero te dizer algo, eu disse. Mas não disse. Algo sempre acontecia, e perceba a diferença que faz conjugar verbo no passado. Não conseguia dizer as coisas porque seus olhos funcionavam como um vórtice no espaço, aquele negócio de buraco negro sugando as coisas, você sabe bem. Eu tinha medo. Se eu entendo, eu entendo, você disse. E durante séculos fiquei me perguntando o que diabos será ela pôde entender se eu não disse nada?

CENA QUATRO | Dia dos namorados
Aproximação à lá raposa, lenta e sistemática, porém sem pretensões. Palestras, livros furtados, imagens, picanha, capim, i see dead people e São Valentim. 

CENA CINCO | A revolução
Oitenta mil pessoas do lado de fora e do lado de dentro de mim, subversão aflorada, mãos dadas, casamento argentino, muito álcool, mãos dadas, fichas se jogando e sweet dreams.


TERCEIRO ATO

CENA UM | O eterno retorno
Tudo sempre volta. Da mesma forma, na mesma intensidade, bom ou ruim. Sempre volta.

CENA DOIS | Mitologia grega
Na cidade grega ouvi algumas coisas das quais achei terríveis de se dizer e de se ouvir. Mas o que foi dito ao pé do meu ouvido aos berros - a fim de ultrapassar as caixas de som - não supera nenhum dos outros dez mil acontecimentos bem mais emblemáticos e perturbadores daquela noite. 

CENA TRÊS | The Green Mile
Propus um fim a mim mesma. Preciso falar com você, vê isso pra mim, eu disse. Preciso de ajuda, eu disse. E eu disse mais tantas outras coisas várias e várias vezes. Veja bem, a insistência definitivamente não é meu forte. Ela só me deixa mais irada e frustrada. Minhas tentativas de dar uma de John Coffey em À Espera de um Milagre, colocando pra fora tudo aquilo que me fazia tossir e me impedia de respirar direito, foram frustradas e inviabilizadas pela distância, silêncio e indiferença.

CENA QUATRO | O último ato
Odeio quando meus planos são sabotados pelo caos, mas nesse caso foi estranhamente bom. Eu diria mais, eu diria libertador. A última cena da peça nunca aconteceu, propriamente dizendo, nem nunca acontecerá. É um monólogo que encenei dentro de mim mesma a fim de, ao menos de alguma forma, encerrar o nunca acontecido.

Há uma cadeira no centro do palco, nada mais. Estou sentada sobre ela embaixo de uma luz esverdeada. Com as mãos apertando a madeira do acento eu grito a todos os espectadores o que fazem ainda ali, a peça já acabou, será que ninguém percebe? Eles riem. Falo sério, eu digo. Isso não é comédia, eu digo. Eles riem mais, mais alto, se contorcem. Meu desespero aumenta quando percebo que por algum motivo não posso me levantar. Aperto os olhos e lanço um berro capaz de superar todas as vozes que ecoam gargalhadas. De súbito, ao abrir os olhos, não há mais ninguém. As cadeiras estão vazias, as luzes acesas, nenhum ruído, nenhum som. Nesse momento me levanto e caminho lentamente, com uma respiração mais leve, com ombros mais leves, com passos mais leves, de volta para o lugar mais seguro que existe - os bastidores de mim.

FIM.

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