# O Fim do Mundo #

Confesso que não reconhecia o lugar. Várias ruas, vários prédios, era tudo muito nublado, muito cinza, muito indefinido. Um lugar onde tudo era perto e longe ao mesmo tempo, entende? E diferentemente dos meus outros sonhos, onde existe toda uma contextualização, toda uma preliminar, como se meu próprio cérebro me preparasse para o que viria, este, excepcionalmente, não foi assim. Simplesmente estava lá, naquele momento, naquele lugar. E esse é um dos principais pontos que me perturbaram ainda mais. Mas voltemos aos fatos. Foi um sonho bem curto, mas isso não diminuiu meu desespero.

Era dia. De repente, então, eu sinto certa comoção das pessoas. Olho para o céu vejo aquela coisa fantástica. Algo atravessou rapidamente o caminho entre a lua e o sol causando o eclipse mais majestoso de todos os tempos, porém muito rápido, não entendi muito bem como, até aquilo aparecer de repente. Estou desesperadamente tentando, nesse momento, encontrar alguma imagem, ao menos parecida com aquilo, mas sem sucesso. Sinto que não consigo te explicar sem uma imagem, tentarei.

Imagine um medalhão. Um medalhão cinza. Não, prata. Prateado. Um daqueles medalhões antigos dos nossos avós.  Não sei, talvez um colar? Um medalhão-colar, isso. Então, era redondo, mas a impressão que eu tive é que era achatado. Não era uma esfera, era como um colar mesmo. Chato e redondo. Agora imagine várias estrelas de Davi, símbolos maçônicos, "o olho que tudo vê", entre outros símbolos místicos ou mistificados durante os séculos. Pense naquele medalhão-colar, com as extremidades pontiagudas, com todos esses símbolos gravados nele. Agora vamos além: pense que todos esses símbolos estão gravados de forma que vazam para o outro lado do medalhão, entende? De forma que a luz ultrapasse o desenho dos símbolos, entende?

Bem, consegui algo para tentar ajudá-lo, e me ajudar também:


 
Foi o melhor que consegui. Ainda não consigo materializar meus sonhos. Percebe que os símbolos estão vazados? Tirando a parte que os símbolos dessa imagem não representam os do sonho, mas você já consegue imaginar a partir do que descrevi, não é mesmo? Bem, seguimos.

Agora eu preciso que você abra um pouco mais sua cabeça. Eu preciso que você imagine esse medalhão-colar como um astro. Algo que vem do espaço, alguma daquelas coisas. Pois agora continuarei meu relato.

Depois do eclipse essa grande... coisa, surgiu também do mesmo nada de antes. E eu jamais conseguirei fazer com que você entenda o tamanho e a velocidade com a qual essa coisa despencou do céu. Veja novamente a imagem. Ele surgiu exatamente nesta posição. Não caiu, estava assim, e surgiu na lateral. Imagine Saturno. Imagine algo do tamanho de Saturno se chocando com a Terra numa velocidade absolutamente inacreditável. Então aconteceu o seguinte.
 
Logo após o eclipse essa coisa surgiu. Foi tudo muito rápido, muito rápido! Eu senti um tremor que tirou tudo do seu lugar. Me senti como numa gangorra, o chão foi para frente e para trás e numa questão de segundos tudo estava desabado. Ouvi a explosão e tive uma visão inacreditável. Uma bola de fumaça enorme, amarela, meio laranja, numa altitude e velocidade também inacreditáveis, ia avançando sobre o planeta e, senhores, eu pude ver centenas de pessoas sendo lançadas a quilômetros de distância, tamanha a velocidade que aquela fumaça toda ia progredindo.
 
Naquele momento, em meio aos gritos de pavor das pessoas eu tive uma das sensações mais incríveis de toda minha vida. E dormindo! Eu senti - e sabia - que ia morrer. Mas era óbvio! Sim, eu ia morrer naquele exato momento. Não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer para evitar aquilo. Eu entrei num pânico surpreendente. E é incrível como tudo não passou de alguns segundos apenas. Você consegue acreditar que naquele momento, naquele exato momento ainda sobrou algum tempo para refletir sobre o que seria dali em diante? Iria para o céu? Certamente para o inferno! Deus existiria mesmo?
 
Corri para uma escadaria que dava acesso a uma praça, tudo sempre bem cinza. Agachei-me com as mãos cerradas sobre ou ouvidos aguardando minha morte. Deus, foi a coisa mais inacreditável do mundo! Eu ia morrer! E então, naquele momento tão íntimo de mim mesma com minha natureza tive tempo de pensar, chorando, em apenas uma coisa, que disse, inclusive, mentalmente; a boca já não conseguiria abrir naquele momento: mãe, pai, eu amo vocês. Daí então tudo ficou muito quente, ouvi o som de fogo, de algo queimando - provavelmente eu - porém muito rápido. Então eu morri.

Foi incrível morrer! Durante a passagem (passagem!?) eu ainda pude ouvir alguma coisa indefinida. Ficou tudo branco e de repente... cara! Eu estava no espaço! Eu não conseguia ver meu corpo, nada disso. Mas na minha frente estavam as coisas mais lindas que eu já havia visto na vida! Estrelas, planetas, galáxias ao fundo e a paz mais inacreditavelmente perfeita do universo! Olhe, se morrer for assim mesmo eu quero morrer um pouco assim todos os dias!

Mas aí de repente eu já não estava mais lá, estava de volta a Terra que não sabia como ainda estava inteira. Era um planeta pós-apocalíptico, como se vê nos filmes. Os prédios em pedaços, carcaças de carros, um céu cinza e sem sol além de uma chuva fina e mansa de cinzas. A partir desse momento não me lembro de muita coisa. Apareceram outras pessoas, pessoas armadas inclusive. Me esforcei para acordar antes dos zumbis entrarem em cena...

Abri os olhos e os corri desesperadamente por todos os lados a fim de confirmar que não se passava de um sonho idiota. Acordei chorando, com uma sensação horrível. Meu corpo doía, sem contar uma nostalgia e mau humor, tudo ao mesmo tempo. Fiquei muito mal durante todo o dia, aquela sensação custou um pouco para sair de mim. Tanto que faz duas semanas que tive esse sonho e apenas hoje consegui me sentar para descrevê-lo sem me emocionar. Eu sei que parece muito estranho mesmo, talvez nem tanto por estar vindo de mim, mas... repito, foi a sensação mais incrível e alucinante de todas. Morrer! E daquela forma épica! Mas de uma coisa eu pude ter certeza: quando eu morrer eu realmente voltarei pra casa!

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