# A minha revolução silenciosa #
Eu sou mesmo uma péssima pessoa. Enquanto as pessoas estão lá fora morrendo, bradando retumbantemente gritos de ordem e progresso, estou aqui, da forma mais egoísta do mundo pensando no lixo que sempre permeia meus pensamentos e em como varrer com isso daqui. Onde estão meus modos como cidadã? Mas como exatamente irei mudar o mundo se nem ao menos consigo me autorevolucionar? Minha pátria em chamas e eu aqui tentando abafar todo esse incêndio dentro do peito, dentro da cabeça, que sempre volta... sempre volta! Onde estão meus modos e minha civilidade? Mas como irei derrubar governos quando não consigo sequer deitar minha cabeça em paz no travesseiro? Deus, onde está minha consciência política? Mas como travar guerras se nem ao menos consigo vencer minhas próprias batalhas? Eu sou mesmo uma péssima pessoa.
De fato minha vida anda caminhando e cantando sem seguir a canção. Sem compasso, sem refrão, desafinada, num acorde solitário. Tragédias de sempre, sem novidades. Provavelmente jamais conseguirei me livrar das amarras que tanto questiono como sendo a doença de maior causa mortis. É incrível que quanto mais idade, menos vontade. Quanto mais idade, mais passiva, mais razoável, menos sal, enfim, menos "vontade de potência". Vou acatando aqui e ali tudo aquilo que já vomitei na cara das pessoas. E cada vez mais percebo essa minha INcapacidade de nunca conseguir terminar as coisas. Dezenas de posts salvos como rascunho nesse tal de blog, frases ditas pela metade, minhas obrigações acadêmicas, profissionais, sentimentais e psicológicas - tudo ao meio. Parado lá no meio do caminho à sombra da pedra. Minha renitente procrastinação se torna cada vez mais um sintoma patológico. O que me faz pensar que sou mesmo uma péssima pessoa.
Quanto minhas palavras salvas como rascunho. As melhores palavras escritas são aquelas fruto do acúmulo de dor e sofrimento. Se essas duas não existissem, não existiriam poetas. Não sou poeta, é evidente. Mas nesse momento de "doença" haverá sim uma primavera intelectual da minha parte. Eu sinto. Agora, quanto às palavras ditas pela metade... minha intensidade é momentânea. É crônica, mas os melhores momentos são rompantes de epifanias isoladas. É preciso que se esteja exatamente naquele momento na minha frente. Como nem sempre isso é possível, todo o fel volta para o pote que, de quando em vez, é despejado por aqui. Perceba que ele nunca ficará preso. Jamais morreria do meu próprio veneno.
Quanto minhas obrigações acadêmicas. Acredito que nunca mais conseguirei me livrar de qualquer instituição de ensino superior. Parece-me um passeio só de ida. Quanto mais eu tento sair, mais algo me puxa de volta. A claridade que aponta o final nunca é a porta da saída; uma vez um vagalume, outra a lanterna que o vigia esqueceu ligada. Eu não sei quando isso vai acabar, mas sei que quando me livrar desse engodo provavelmente permanecerei alguns dias em órbita em volta de mim mesma pois tenho a certeza que durante certo tempo a minha vida parecerá que perdeu todo seu sentido. Louvai.
Quanto às minhas obrigações profissionais. Não sei se o maior dos problemas, mas, sem dúvida, o pior. Eu odeio gente. Odeio pessoas. Odeio quando elas olham pra mim, detesto o cheiro delas, tenho nojo quando, forçada por alguma situação, preciso sentir o calor de seus corpos. Eu odeio gente. Gente me sufoca, me oprime, me reprime, me deprime... e a ironia é que para sustentar meu estilo de vida pseudo-classe-média eu preciso me lançar aos braços dessa gente ordinária. É a parte da minha vida onde nunca consigo consistência. Imaginei ingenuamente que a graduação me proporcionaria alguns rios de dinheiro fácil e indolor, mas a verdade é que todo dia pela manhã eu sinto ânsia de vômito ao pensar no mundinho corporativo ao qual estou metida e criticamente atada. Dificilmente conseguirei me desvincular desse quadradinho capitalista-corporativista. É um triste fato. Lidar com pessoas me deixa doente, porém não há como comprar meus remédios sem me meter com elas. De todos, é o paradoxo mais injuriante. É o único sem soluções imediatas, apenas remendos e remediações. Placebos para manter o bom senso. Às vezes não funciona. Como agora.
Quanto às obrigações sentimentais. São as que causam maior dano imediato. Eu preciso registrar o quanto eu detesto me equivocar nesse ponto. E não existe nada que defina melhor esse momento que equívoco, claro e imenso como o próprio sol! Eu acreditava que estava sendo enganada, mas enganada estava eu em pensar isso = equívoco! Você nunca me enganou, e, aliás, nunca disse uma palavra. O que eu tinha eram apenas suposições. Então, supus errado, porque se fosse diferente, é óbvio, não seria eu. Mas como sempre eu preciso passar por aquele momento doloroso e LONGO - o processo da queda da ficha. Deus, como isso demora! Quanto mais demora, mais alto é o caminho das fichas até o chão. Interessante que já estive de todos esses lados, no passado. Já estive no seu lugar, já estive no lugar dela, agora estou aqui. Acho que não sobrou nenhum outro lado pra ficar. Mas o pior papel de todos é o que você representa. Fico imaginado o quanto deve ter sido incômodo toda essa minha estúpida insistência insensata e esse romantismo barato carregado de um discurso que não convence ninguém. Ainda terei a oportunidade de te dizer exatamente essas palavras, assim espero. Mas por hora irei me recolher. As febres só passam após aquele período de muito repouso e quietude. Agora, definitivamente do lado de fora de todo aquele sentimento que me iludia e me inebriava posso ver com clareza que, sentimentalmente falando - me perdoe Nietzsche - não existem interpretações, e sim fatos. Existem ainda alguns nós a serem desatados, mas os mais cegos já foram rompidos. Ninguém ensina isso no acampamento de escoteiro. Escoteiros são muito insensíveis nesse ponto.
E o que dizer das minhas obrigações psicológicas? Eu sou uma pessoa muito doente! E como é engraçado ouvir isso de mim mesma! Não consigo viver em paz quando as outras partes do que quebra-minha-cabeça não estão nos seus devidos lugares. Nesse momento, por mais que eu mergulhe dentro de mim não consigo encontrar soluções para meu Estado. Minha subversão a mim mesma está sem foco, sem bandeira, sem hino - como aquelas das ruas, inclusive. Eu grito aqui dentro, finjo que me ouço. Fico apenas enumerando os problemas sem propor soluções. Há muitos anos, ainda no colégio, uma professora de sociologia explicou a diferença entre mudança e revolução. Ela pegou uma cadeira, colocou no meio da sala. Ela disse que aquilo era uma mudança, a cadeira foi mudada de lugar, daqui pra ali. A mudança é uma coisa singela, sem muito barulho, limpa e tranquila. Ela então disse que revolução seria colocar aquela cadeira, de cabeça para baixo, pregada no teto da classe. A revolução é barulhenta, dolorosa, quebra barreiras e paradigmas e, invariavelmente, é violenta. O mesmo medo que tenho em ser agredida pelos policiais na rua é o medo que tenho de agredir a mim mesma. Mas aí está outro paradoxo - não há revoluções pacíficas. É preciso me rebelar violentamente contra mim. E se doer, se sangrar, é sinal de sucesso. Até porque, afinal de contas, eu sou realmente uma péssima pessoa.
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| Tudo isso aqui dentro. Eu não quero estar aqui quando tudo for pelos ares. |

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