Tal de externar
Então. Eu e os meu graves rompantes de epifania! Mas certamente não seria eu mesma se não os tivesse. E, eu sei que sempre falo isso, mas dessa vez há de ser verdade: este post será breve, meu amigo. E posts somente existem com um significado, para um único propósito - externar! Porque viver carregando sozinha essa montanha de pensamentos e ideias é humanamente inviável. E este, senhores, é justamente o tema da minha conversa de botequim de hoje. Sugiro que se tiver algo melhor para fazer - ler um cardápio, comer jiló, pular duma ponte, ligar na operadora de celular - faça imediatamente. Não se dê ao trabalho de ler essas palavras até o final porque, para você, não terão a menor validade.
Desde criança sempre fui uma Rosa de Hiroshima - "muda, telepática"... segundo minha mãe eu chorava bastante, mas abrir a boca para algo mais além de comer e respirar fundo era um sacrifício incomensurável. A minha timidez era realmente caso de terapia, tanto que mamãe pensou nessa possibilidade inúmeras vezes. Mas papai, com toda serenidade e racionalidade que lhe cabe, sempre dizia a mesma coisa - é fase. De fato, foi uma fase. E como foi longa! Provavelmente já devo ter contado essa história por aqui, mas como todos sabem minha memória nunca está presente quando resolvo revirar minhas gavetas da lembrança. E, além, do que, preciso situar o bondoso leitor, que deixou de fazer algo realmente significativo em sua vida para continuar lendo esse texto imprestável.
Doutor Davi, era o nome dele. Uma das poucas pessoas que realmente mudaram o curso da minha vida de forma profundamente significativa. E não posso me furtar em expor este meu segredo, mas quando criança alimentava uma paixão platônica e inocente pelo meu pediatra. Mas enfim... me lembro como se fosse ontem, mamãe e eu dentro do Hospital da Criança onde meu corpinho era inspecionado por todos aqueles frios instrumentos durante horas. Até o dia da consulta. Lembro-me de ouvir o doutor falar e falar e perceber mamãe ficando cada vez mais apreensiva. Mas, daquele dia, apenas duas lembranças me são realmente claras. A primeira foi aquilo sobre uma doença cardio-alguma-coisa, sobre a tal válvula não-sei-o-que, sobre não poder ficar nervosa. Ele dizia que eu não podia ficar nervosa, que eu era muito pequena ainda para preocupações que me deixassem num estado de estresse capaz de disparar aquela coisa da válvula... faz muito tempo e é claro que não me recordo de suas palavras, literalmente falando.
Foi aí então que ele se levantou da cadeira, colocou suas duas mãos sobre meu rosto, meu coraçãozinho disparou. "Você precisa é colocar um sorriso nesse seu rosto tão lindo!" Ai, doutor Davi... veja o monstro que você criou! Ninguém jamais saberá o quanto isso me causou naquele momento. Eu era uma criança calada, introspectiva, imóvel, sem opiniões, sem envolvimento. Sem graça, sem sal, "sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada"... De fato eu não abria a boca para isso também - sorrir. Mas depois daquelas palavras alguma coisa mudou. Não sei como te explicar isso... mas me parece que uma certa urgência em continuar viva me invadiu. Apesar de não ter ainda, naquela idade, o menor conhecimento científico sobre o subtexto sequer, era certo que minha morte naquela ocasião era iminente! Ao menos era o que me minha consciência infantil acreditava. Mas isso não me tomou como uma obrigação, um dever. Foi algo mais sutil e natural. Aos poucos percebi que não havia problemas em abrir a boca de quando em vez para soltar alguns verbos. Não doía, não me expunha, e não me custava nada.
Posso então afirmar categoricamente que aprendi a falar mais tarde que todos. Isso, claro, me trouxe alguns problemas futuros que não cabem aqui nesse relato. O caso é que os benefícios superam. Comecei a me aproximar das pessoas de modo a compartilhar e até mesmo constatar aquilo que eu lia incansavelmente nos livros e revistas. Descobri, inclusive, que era possível existir pessoas com os mesmo gostos e inclinações que eu! Veja que descoberta fascinante! E em meio a essa aproximação, esse contato imediato de primeiro grau com essa espécie da qual eu temia e cultivava o mais alto nível de pavor, aconteceu o improvável - criei amigos. Uau, foi um dos acontecimentos mais incríveis do mundo! De repente eu estava inserida em um grupo, fazia parte de algo além do meu quarto e dos meus livros. E na medida em que a intimidade ia crescendo eu podia falar cada vez mais sobre as minhas mais íntimas ideias, desejos e pensamentos. Eu podia, enfim, me libertar daquilo que me aprisionava. Mas tudo sempre, claro, com muita cautela e responsabilidade.
Agora vamos divagar um pouco sobre as nuances do outro lado da moeda... Sim, até hoje conservo minha característica muda, telepática (e muito bem, obrigada). Ocorre que o processo não se dá em simplesmente falar. Ainda hoje tenho pavor das palavras, principalmente das que ouço sem querer ouvir. Porque (ainda não sei bem ao certo o porquê) as pessoas me veem como alguém em que elas podem simplesmente confiar e, consequentemente, despejar seus segredos mais profanos assim, sem medo, sem pudor, com uma facilidade que me apavora. E quando eu digo "pessoas", você sabe bem de quem estou falando. Não se trata de amigos ou alguém do qual eu tenha o mínimo de intimidade - essas pessoas não contam e não entram nas estatísticas. Estou falando é da dona Edna, a senhorinha que resumiu seus setenta e oito anos de vida em cerca de vinte e cinco minutos de viagem pura e simplesmente porque eu estava sentada ao seu lado no banco do ônibus. Estou falando da colega de trabalho que, numa relação de meros e ocasionais cumprimentos de "bom dia" e "olás", senta-se ao meu lado e depois de dizer "posso te contar um segredo?" me revela que está tendo um caso com um dos homens casados e fora de qualquer suspeita dentro da empresa. Descobri que as pessoas também tem essa necessidade mórbida em externar seus pensamentos, mas, definitivamente, não da mesma forma e nem pelos meus motivos que eu.
É engraçado. Eu fico rindo aqui sozinha pensando nessas coisas... eu sempre tenho algo a dizer e preciso sempre desesperadamente tirar essas coisas dentro de mim. Elas me engasgam, me entopem, e, invariavelmente, me enlouquecem! Mas tudo o que eu penso, tudo o que eu sinto é como um filme do David Cronenberg, onde nada é o que parece e, definitivamente, não foi feito para o "grande público". Isso soa bastante arrogante, eu sei. Talvez seja. Mas como eu sempre digo, se eu saísse andando por aí disseminando minhas ideias e pensamentos pelo planeta a fora, hoje provavelmente estaria morta ou no mínimo presa. Não vale a pena correr o risco. É sempre melhor falar a quem queira ouvir.
E eu falei até agora sobre tudo isso unicamente para chegar ao famigerado ponto crítico da situação. Externar meus sentimentos... talvez, mais que minhas ideias e opiniões, meus sentimentos gritam dentro de mim de uma forma em que, mesmo calada, quem está ao meu lado consegue ouvir claramente. É gritante! Eu preciso todo o tempo falar o que sinto, antes que as coisas aqui dentro piorem. E aí, meus caros, acontece aquilo que você já sabe. Nós, humanos, temos esse péssimo hábito de acreditar que todos aqueles ao qual possuímos certa afinidade são iguais a nós. Mas não são. Eu falo para deixar as coisas claras, para não haver dúvidas, para evitar enganos e desentendimentos. É tão mais fácil assim! Mas nem todos compartilham dessa ideia. E, se tenho uma opinião sobre isso, é essa: minha bola de cristal não funciona. Não há nenhuma forma de entender o que se passa com você, o que acontece/aconteceu se você mesma não me disser. Tudo o que eu tenho de você é o que você me diz e o que você faz quando está próxima. Apenas isso. E isso seria o suficiente para entender tudo não fosse o silêncio. É claro que o silêncio também diz muita coisa, mas acho que, dentro desse nosso contexto, o silêncio cumpre seu papel de não dizer nada mesmo. Estou deixando de tentar entender e me esforçando para ouvir o que não é dito. É uma tarefa bastante complicada pra mim, mas eu tenho fé.
E esse blog... bem, esse blog cumpre bem sua, digamos, missão. É um santo remédio para quem tem sempre o que dizer e ninguém para ouvir. Eu tenho a consciência - já bem resolvida - de que ninguém passa por aqui e desperdiça seu tempo lendo essas linhas sem sentido. Mas o simples fato de tirar essas palavras de dentro de mim já é, de certa forma, uma parte da "cura". É como as conversas que tenho sozinha debaixo do chuveiro. Só que aqui elas são materializadas e impressas de forma a se eternizar. E para que? Bem, você sabe, cada post é um comprimido. Mais barato, mais eficaz e livre de efeitos colaterais. Externar é tão necessário quanto o silêncio; cada um na sua dose, na sua medida. Cada um receitado no momento que lhe cabe.
Desde criança sempre fui uma Rosa de Hiroshima - "muda, telepática"... segundo minha mãe eu chorava bastante, mas abrir a boca para algo mais além de comer e respirar fundo era um sacrifício incomensurável. A minha timidez era realmente caso de terapia, tanto que mamãe pensou nessa possibilidade inúmeras vezes. Mas papai, com toda serenidade e racionalidade que lhe cabe, sempre dizia a mesma coisa - é fase. De fato, foi uma fase. E como foi longa! Provavelmente já devo ter contado essa história por aqui, mas como todos sabem minha memória nunca está presente quando resolvo revirar minhas gavetas da lembrança. E, além, do que, preciso situar o bondoso leitor, que deixou de fazer algo realmente significativo em sua vida para continuar lendo esse texto imprestável.
Doutor Davi, era o nome dele. Uma das poucas pessoas que realmente mudaram o curso da minha vida de forma profundamente significativa. E não posso me furtar em expor este meu segredo, mas quando criança alimentava uma paixão platônica e inocente pelo meu pediatra. Mas enfim... me lembro como se fosse ontem, mamãe e eu dentro do Hospital da Criança onde meu corpinho era inspecionado por todos aqueles frios instrumentos durante horas. Até o dia da consulta. Lembro-me de ouvir o doutor falar e falar e perceber mamãe ficando cada vez mais apreensiva. Mas, daquele dia, apenas duas lembranças me são realmente claras. A primeira foi aquilo sobre uma doença cardio-alguma-coisa, sobre a tal válvula não-sei-o-que, sobre não poder ficar nervosa. Ele dizia que eu não podia ficar nervosa, que eu era muito pequena ainda para preocupações que me deixassem num estado de estresse capaz de disparar aquela coisa da válvula... faz muito tempo e é claro que não me recordo de suas palavras, literalmente falando.
Foi aí então que ele se levantou da cadeira, colocou suas duas mãos sobre meu rosto, meu coraçãozinho disparou. "Você precisa é colocar um sorriso nesse seu rosto tão lindo!" Ai, doutor Davi... veja o monstro que você criou! Ninguém jamais saberá o quanto isso me causou naquele momento. Eu era uma criança calada, introspectiva, imóvel, sem opiniões, sem envolvimento. Sem graça, sem sal, "sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada"... De fato eu não abria a boca para isso também - sorrir. Mas depois daquelas palavras alguma coisa mudou. Não sei como te explicar isso... mas me parece que uma certa urgência em continuar viva me invadiu. Apesar de não ter ainda, naquela idade, o menor conhecimento científico sobre o subtexto sequer, era certo que minha morte naquela ocasião era iminente! Ao menos era o que me minha consciência infantil acreditava. Mas isso não me tomou como uma obrigação, um dever. Foi algo mais sutil e natural. Aos poucos percebi que não havia problemas em abrir a boca de quando em vez para soltar alguns verbos. Não doía, não me expunha, e não me custava nada.
Posso então afirmar categoricamente que aprendi a falar mais tarde que todos. Isso, claro, me trouxe alguns problemas futuros que não cabem aqui nesse relato. O caso é que os benefícios superam. Comecei a me aproximar das pessoas de modo a compartilhar e até mesmo constatar aquilo que eu lia incansavelmente nos livros e revistas. Descobri, inclusive, que era possível existir pessoas com os mesmo gostos e inclinações que eu! Veja que descoberta fascinante! E em meio a essa aproximação, esse contato imediato de primeiro grau com essa espécie da qual eu temia e cultivava o mais alto nível de pavor, aconteceu o improvável - criei amigos. Uau, foi um dos acontecimentos mais incríveis do mundo! De repente eu estava inserida em um grupo, fazia parte de algo além do meu quarto e dos meus livros. E na medida em que a intimidade ia crescendo eu podia falar cada vez mais sobre as minhas mais íntimas ideias, desejos e pensamentos. Eu podia, enfim, me libertar daquilo que me aprisionava. Mas tudo sempre, claro, com muita cautela e responsabilidade.
Agora vamos divagar um pouco sobre as nuances do outro lado da moeda... Sim, até hoje conservo minha característica muda, telepática (e muito bem, obrigada). Ocorre que o processo não se dá em simplesmente falar. Ainda hoje tenho pavor das palavras, principalmente das que ouço sem querer ouvir. Porque (ainda não sei bem ao certo o porquê) as pessoas me veem como alguém em que elas podem simplesmente confiar e, consequentemente, despejar seus segredos mais profanos assim, sem medo, sem pudor, com uma facilidade que me apavora. E quando eu digo "pessoas", você sabe bem de quem estou falando. Não se trata de amigos ou alguém do qual eu tenha o mínimo de intimidade - essas pessoas não contam e não entram nas estatísticas. Estou falando é da dona Edna, a senhorinha que resumiu seus setenta e oito anos de vida em cerca de vinte e cinco minutos de viagem pura e simplesmente porque eu estava sentada ao seu lado no banco do ônibus. Estou falando da colega de trabalho que, numa relação de meros e ocasionais cumprimentos de "bom dia" e "olás", senta-se ao meu lado e depois de dizer "posso te contar um segredo?" me revela que está tendo um caso com um dos homens casados e fora de qualquer suspeita dentro da empresa. Descobri que as pessoas também tem essa necessidade mórbida em externar seus pensamentos, mas, definitivamente, não da mesma forma e nem pelos meus motivos que eu.
É engraçado. Eu fico rindo aqui sozinha pensando nessas coisas... eu sempre tenho algo a dizer e preciso sempre desesperadamente tirar essas coisas dentro de mim. Elas me engasgam, me entopem, e, invariavelmente, me enlouquecem! Mas tudo o que eu penso, tudo o que eu sinto é como um filme do David Cronenberg, onde nada é o que parece e, definitivamente, não foi feito para o "grande público". Isso soa bastante arrogante, eu sei. Talvez seja. Mas como eu sempre digo, se eu saísse andando por aí disseminando minhas ideias e pensamentos pelo planeta a fora, hoje provavelmente estaria morta ou no mínimo presa. Não vale a pena correr o risco. É sempre melhor falar a quem queira ouvir.
E eu falei até agora sobre tudo isso unicamente para chegar ao famigerado ponto crítico da situação. Externar meus sentimentos... talvez, mais que minhas ideias e opiniões, meus sentimentos gritam dentro de mim de uma forma em que, mesmo calada, quem está ao meu lado consegue ouvir claramente. É gritante! Eu preciso todo o tempo falar o que sinto, antes que as coisas aqui dentro piorem. E aí, meus caros, acontece aquilo que você já sabe. Nós, humanos, temos esse péssimo hábito de acreditar que todos aqueles ao qual possuímos certa afinidade são iguais a nós. Mas não são. Eu falo para deixar as coisas claras, para não haver dúvidas, para evitar enganos e desentendimentos. É tão mais fácil assim! Mas nem todos compartilham dessa ideia. E, se tenho uma opinião sobre isso, é essa: minha bola de cristal não funciona. Não há nenhuma forma de entender o que se passa com você, o que acontece/aconteceu se você mesma não me disser. Tudo o que eu tenho de você é o que você me diz e o que você faz quando está próxima. Apenas isso. E isso seria o suficiente para entender tudo não fosse o silêncio. É claro que o silêncio também diz muita coisa, mas acho que, dentro desse nosso contexto, o silêncio cumpre seu papel de não dizer nada mesmo. Estou deixando de tentar entender e me esforçando para ouvir o que não é dito. É uma tarefa bastante complicada pra mim, mas eu tenho fé.
E esse blog... bem, esse blog cumpre bem sua, digamos, missão. É um santo remédio para quem tem sempre o que dizer e ninguém para ouvir. Eu tenho a consciência - já bem resolvida - de que ninguém passa por aqui e desperdiça seu tempo lendo essas linhas sem sentido. Mas o simples fato de tirar essas palavras de dentro de mim já é, de certa forma, uma parte da "cura". É como as conversas que tenho sozinha debaixo do chuveiro. Só que aqui elas são materializadas e impressas de forma a se eternizar. E para que? Bem, você sabe, cada post é um comprimido. Mais barato, mais eficaz e livre de efeitos colaterais. Externar é tão necessário quanto o silêncio; cada um na sua dose, na sua medida. Cada um receitado no momento que lhe cabe.
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| Não tenha medo de falar. Eu tenho medo de ouvir. |

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