Tal de eterno retorno (ou ironia compusória)

Então. Tantas coisas pra dizer! Minha mente não consegue organizar tanta coisa assim... Sabe, eu já fui jovem um dia. E antes de dizer qualquer coisa sobre isso eu preciso falar a respeito de como é irônica a nossa perspectiva de idade. Alguns (muitos) anos atrás estava eu revirando alguma caixa velha, dessas cheias de livros e papeis. Revirando a fim de jogar tudo no lixo, e joguei. Mas no meio daquelas coisas me lembro de ter encontrado um livro de matemática da (antiga) primeira série do primeiro grau. As operações mais complexas do tal livro eram as temidas frações numéricas e, mais ao final, alguma coisa chata sobre geometria. Para a época, para aquela idade, isso era o que mais de complexo existia no mundo. Mas o que me chamou atenção mesmo foi uma pequena frase que escrevi, com uma letra precária e digna da minha idade, na contracapa do livro: "se você acha que isso foi difícil, na segunda série vocês vão ver o que é escola!". Depois de rir bastante - e alto - me lembrei do motivo de existir um "vocês" na frase. Ao final de todos os anos meus pais vendiam meus livros velhos para comprar os novos, então supostamente eu queria aterrorizar alguma criança recém-chegada do (antigo) pré-primário. Não sei exatamente o motivo desse livro não ter sido vendido junto com os outros. Sorte a minha, está guardado para minhas sessões de terapia quando for diagnosticada com Alzheimer.

Me parece que eu queria falar alguma coisa sobre idade. Ah, sim. Eu já fui jovem um dia. E sei bem a sensação na novidade. Puxa vida, como é bom! O sabor de algo nunca antes feito, dito, visto, ouvido... o prazer de saber que aquilo é único e que mesmo que se repita um dia, nunca mais será da mesma forma. Quando a gente é mais jovem, e acredito que justamente por essa falta de experiência, criamos super expectativas em cima de todas as coisas da terra. Tudo - o que ainda não aconteceu - quando acontecer será o máximo, será uma experiência sempre única e maravilhosa. Sabemos que nem sempre é assim. O fato é que...

Novas experiências acerca do que já conhecemos não deveriam provocar tantas expectativas. Essa palavra, expectativas, está dentro daquela lista de coisas que não se deve fazer. Não se devem criar expectativas. Sim, sim, o meu ceticismo não me deixa cair nessas, mas nem sempre ele dá conta sozinho de todas as situações que acontecem na minha vida. Quando envelhecemos pressupomos que a maioria dos sentimentos e emoções corriqueiras que acontecem a todo o momento com todo mundo já passou por nós. Nada, então, é novo. O que muda de verdade é o contexto, as pessoas não. As pessoas nunca mudam. Dessa forma, não precisamos criar expectativas acerca de nada mais. É uma coisa bem triste, eu sei. Envelhecer é acrescentar a cada dia um dia a mais à sentença da condenação que é viver preso dentro de si mesmo. Alguns preferem a pena de morte. Mas a maioria vive a prisão perpétua mesmo.

Ora, mas onde mesmo quero chegar? Você sabe que quase nunca quero, de verdade, chegar a algum lugar, mas eu vou tentar facilitar as coisas pra você, ó pá. A minha vida é tão redundante quanto 'subir pra cima'. Vou te falar sobre a minha teoria da casca de banana. Então você está andando tranquilamente pela rua, sossegado, ali, cuidando da sua vida, quando, de repente, a uns três metros de distância, você vê uma casca de banana no chão. Perceba que nada no mundo, naquele momento, pode te impedir de tomar qualquer decisão. Você está livre para desviar. Você pode, quem sabe, pular a casca ou até mesmo chutá-la para o lado. Você pode parar e voltar. Procurar outro caminho. Você pode até ignorá-la e acreditar que a presença dela, ali, não fará a menor diferença na sua vida. Você até pode - se, claro, tiver uma alma muito bondosa e for ecologicamente correta - recolher a casca de banana da via pública, separá-la e dispensá-la numa daquelas latas de lixo de recolhem materiais orgânicos. Olhe só quanta possibilidade, meu amigo! E tendo em vista a quantidade de coisas que você pode fazer, tenho apenas uma pergunta: porque diabos teima em-

- Já ouviu a piada da loira?
- Como é?
- Desculpa, mas eu preciso falar! Tem tudo a ver..
- Olhe, me desculpe, mas... se você não percebeu eu estou nesse momento tentan-
- É bem rápido, é assim: daí tinha uma loira andando na rua daí ela viu uma casca de banana no chão há uns dois metros de distância daí o que ela falou?
- Estou ansiosa pela resposta.
- Ela falou: ih, lá vou eu escorregar de novo!!
- Fascinante. Terminou?

Mas é bem isso que eu quero falar. Porque, meu Deus, repetimos nossos erros como se não tivéssemos consciência dos seus resultados? Me parece sempre ser algo muito estúpido esse tipo de atitude, e você sabe dos meus problemas com coisas claramente estúpidas. E antes de falar sobre teorias filosóficas eu preciso forçar minha mente para tentar entender esse que parece ser um daqueles mistérios da humanidade... detesto mistérios da humanidade. Eles complicam as coisas simples.

A explicação mais razoável que me vem à mente é que da mesma forma que somos todos dotados de estupidez compulsória, somos também carregados de es.. esp... olhe, eu nem consigo dizer esse nome nojento... vou fechar os olhos e cuspir, ok? Saia da frente, por favor. Somos todos dotados de... esperança!! Deus, como doeu! E como cheira mal... cheira mofo e ovo quebrado! Mas enfim, infelizmente é um dos itens de série dos humanos e temos que conviver com isso. Mas o que eu quero dizer mesmo quando digo essa palavra é que, para nosso azar, sempre esperamos resultados diferentes para as mesmas ações. Percebe o quanto isso é estúpido? Não é a mesma coisa de jogar durante anos os mesmos números na mega ou fazer todos os dias o mesmo caminho esperando um transito melhor. Estamos falando de pessoas aqui. E pessoas, você sabe, elas não mudam. Veja que estou até sussurrando pra você. As pessoas são e sempre serão os mesmos humanos que causam repúdio e indignação. Não se pode confiar nelas. Até que eu cheguei nesse mundo...

Porque eu tinha que ser diferente, não é mesmo? Vou te contar outro segredo meu. Eu não duvido das pessoas. Oh sim, entendo perfeitamente sua cara de espanto. Mas é fato que acredito sempre em cada palavra do que dizem. Ainda sussurro, meu amigo, ouça bem. A única coisa que tenho das pessoas é o que elas me dizem e o que elas fazem quando estão perto de mim. Eu não tenho mais nada delas, entende? Como eu poderia duvidar de suas palavras e com qual autoridade eu faria uma coisa dessas? Quem sou eu para lhe questionar? Até porque é muito fácil descomplicar as coisas. Sim, sim, elementar. O que estou dizendo é que é muito mais fácil acreditar no que me é dito que criar infinitas teorias sobre a possibilidade da mentira. Você deve estar aí se perguntando como eu posso ser tão ingênua e contraditória. Contradigo quando falo que não se deve confiar nas pessoas e logo acredito em tudo que falam e ingênua justamente por isso. Sim, e sim. Mas não se apegue a esses detalhes, afinal não sou desse planeta. Voltemos ao assunto.

Do que estava falando mesmo? Ah, sim. E ninguém poderá dizer o contrário. Estamos o tempo todo cometendo os mesmo erros esperando resultados diferentes. E mesmo depois de várias tentativas ainda pensamos que agora será diferente. Esse ciclo tedioso e torturante me parece muito triste. É muito triste pensar que não posso evitar sequer esse tipo de pensamento. Eu carrego sempre muita fé nas pessoas acreditando, estupidamente, que, por acaso, aquela em especial poderia ser igual a mim. Eu vivo com fé num mundo sem deuses, onde a efemeridade das relações torna tudo igual eternamente. É como um castigo onde quem é punido é justamente aquele que nunca cometeu crime algum.

Percebe o quanto é cíclico e inevitável? Deus, é uma tortura! E não há nada que se possa fazer. Não é simples quando se trata da vida real. Agora, se for uma casca de banana... bem, o caos rege. Todos sabem que iremos escorregar e cair mais uma vez.




"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?" (Friedrich Wilhelm Nietzsche, 1882)

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