# La Fable de la Baiser Pas Donné #
Nunca me arrependo de nada que faço. E perceba o quão criminoso é unir as palavras "nunca" e "nada" na mesma oração! Pior que isso é viver o eterno martírio do crime que nunca cometi. Não sei se hoje minhas metáforas conseguirão tapar meus buracos... mas há dias isso vem me atormentando e, de uma forma ou de outra, preciso me livrar desse pensamento. Que, aliás, me parece errado. Parece-me errado me arrepender de algo que não fiz porque não queria me arrepender... Acredito que estou sendo muito direta, não faz meu tipo. Vamos à contextualização histórica agora. O fato é que realmente não me arrependo das coisas, é natural pra mim. Partindo do princípio de que não ligo pra nada, que nada me comove de verdade, é fácil não se arrepender. Mas as coisas não são tão simples. Ninguém consegue viver uma vida sem arrependimentos. E é aí que o Freud entra. Inconscientemente desenvolvi como um mecanismo de defesa do meu ego o arrependimento das coisas que deixei de fazer, ao invés do contrário. Dessa forma, me sinto livre para fazer o que quiser e sofro um pouco depois apenas com as coisas que não fiz. Concordo que é de uma estupidez infinita. Mas consigo respirar melhor assim.
Agora, mesmo assim, mesmo dentro de todas as coisas que possivelmente deixei de fazer, o arrependimento, aquele sentimento de não ter feito o que deveria, aquele lamento... ainda assim é muito raro. Não sei se isso me torna uma pessoa pior, como aquelas com um ego maior que seu próprio corpo, não sei. Mas como ainda não houve mortos - talvez, feridos - não tenho pretensões de rever esse conceito. E é exatamente pela raridade desse fato que estou um tanto perturbada. Inclusive, considerando todo o contexto da situação no dia em que não aconteceu em comparação com os dias de hoje. Fico imaginando uma pessoa comum lendo essas palavras e se perguntando de que diabos mesmo essa mulher está falando? Não facilito as coisas, mas tenha fé.
Era uma quarta-feira, talvez quinta. Ou talvez qualquer outro dia útil da semana. Calor, sim, sim. Noite quente. Restavam ainda algumas latas na geladeira. Não sei exatamente "de que" ou "de quando" restaram, o que me lembro foi de ouvir dizer vou tomar aquelas latinhas da sua geladeira. E foi. E veio. É tão desconcertante alguém dentro da minha casa! Você nunca saberá como! Como já dizia a canção, "a minha casa é meu reino", onde, supostamente, o rei deveria ser eu. Protegida, livre das interferências malignas do mundo exterior, dentro da minha casa eu sou eu de verdade. É o único lugar onde me sinto realmente à vontade, onde posso pendurar minhas máscaras, onde posso andar nua. A minha casa, independente de onde for, sempre será o lugar mais seguro do mundo - até alguém entrar nela. Porque se tem alguém aqui dentro, aqui dentro desse castelo que eu criei, trato de ficar na defensiva, a postos, preparada e armada para qualquer tentativa de ataque. Metáforas à parte, me sinto mesmo desconfortável, até certo ponto, claro, pois se trata de algo tão incomum que não sei como me portar e nenhuma Glória Kalil conseguiria me ensinar as regras de etiqueta necessárias. Mas você, como de costume, deixa qualquer ambiente agradável e descontraído.
Colocando minha memória para funcionar várias passagens me saltam, e não posso, de modo algum, me furtar em externá-las. Exceto a primeira vez que olhei por longos segundos pra dentro dos seus olhos, nunca, antes ou depois daquele dia, pude ver tão claramente esse teu ser-habitante. Naquele dia enfim eu pude ter a mais sólida certeza da sua existência. Ele saltava dos seus olhos e corria por todos os seus gestos atrapalhados, se espalhava pelo ar, rebatia por todos os cantos, das paredes às janelas, e entrava diretamente dentro dos meus ouvidos. A sua voz e seus gestos me diziam algumas coisas enquanto seus olhos me gritavam outras. E a reticência do seu olhar me descerra.
Você estava ligeiramente frenética. Metade você mesma, metade álcool. Inquieta, queria o tempo todo falar e me fazer falar alguma coisa que não sei bem o que era. Ou talvez saiba. Ou talvez não. Aquela parte onde a anfitriã apresenta a casa, bem, essa parte eu até consegui fazer. E você futucava em tudo, e com toda a delicadeza que lhe compete, ia derrubando uma coisa aqui, outra ali. Deixou, negligentemente, algumas marcas por aqui e por ali, não sem antes furtar um livro da estante. Queria muito (poder) falar de outras coisas, mas acredito que detalhes demais diminuiriam o sentido do relato, até porque o principal ainda está por vir.
E todas carregadas de embriaguez e um desejo silencioso e secreto. Mas estava estampado na cara, na nossa cara, a reciprocidade de algo que definitivamente não deveria estar ali. Mas estava. E à flor da pele. Você estava em pé à porta, pronta para ir embora. E como todos sabemos que os deuses conspiram... começou a chover. E como todos sabemos que os deuses conspiram... começou Legião. Você queria ver a chuva, abri a porta. Você dizia que precisava ir embora, eu dizia que chovia muito. Espere um pouco, eu dizia.
Pedi um abraço. Me abraça direito, eu disse. E você delicadamente me abraçou como o próprio mamute da selva. Já lhe contei alguma vez sobre meus problemas psíquicos em relação a abraços? Não cabe aqui, outro dia, quem sabe. Acontece que dentro daquele abraço muita coisa aconteceu. Com meus olhos fechados eu pude enxergar mais claramente. Senti aquele cheiro verde de maçã, o calor da sua face tocando a minha. E larguei um pouco de bafo quente e molhado por ali também. E em meio à dúvida entre a vontade de consumar o desejo e o peso inconsciente do provável arrependimento, tive uma epifania. Eu precisava falar.
Eu preciso te dizer uma coisa, eu disse. Pausadamente, pincelei letra por letra do que disse em seguida: eu não sou leviana. A ironia é mesmo algo que nunca me abandonará. Engraçado e incrível a quantidade de vezes que essas palavras me foram ditas no passado, em circunstâncias parecidas inclusive, e lá estava eu, reafirmando o sarcasmo caótico da minha vida. Disse mais algumas coisas, que fariam toda diferença se as citasse aqui. E você particularmente disse outra coisa, que faria toda a diferença se citasse aqui. Mas o que importa mesmo é o que está gravado na memória.
Toda fable tem uma "moral da história", um sentido que indica um ensinamento. A moral dessa história se chama 'contexto'. Eu fico pensando em como éramos próximas naquele tempo e em como era inegável que algo acontecia. Perceba que, de forma bastante egoísta, estou nesse relato ignorando qualquer contexto externo ao nosso. Estou apenas trazendo fatos, contando uma história. E agora, hoje! Não sei dizer pra onde foi 'aquilo'. Se está adormecido, se está esquecido ou, até mesmo, se aconteceu algo de verdade. Eu não quero (posso) acreditar nessa última possibilidade, pois acreditar nisso seria o mesmo que aceitar que você... bem, aceitar que você não é nem a sombra da pessoa que imagino ser. A moral da história também fala sobre o inevitável, leviandade e arrependimento. Não tenho ainda uma opinião formada sobre isso. O que eu espero mesmo é nunca me arrepender de ter me arrependido.
Colocando minha memória para funcionar várias passagens me saltam, e não posso, de modo algum, me furtar em externá-las. Exceto a primeira vez que olhei por longos segundos pra dentro dos seus olhos, nunca, antes ou depois daquele dia, pude ver tão claramente esse teu ser-habitante. Naquele dia enfim eu pude ter a mais sólida certeza da sua existência. Ele saltava dos seus olhos e corria por todos os seus gestos atrapalhados, se espalhava pelo ar, rebatia por todos os cantos, das paredes às janelas, e entrava diretamente dentro dos meus ouvidos. A sua voz e seus gestos me diziam algumas coisas enquanto seus olhos me gritavam outras. E a reticência do seu olhar me descerra.
Você estava ligeiramente frenética. Metade você mesma, metade álcool. Inquieta, queria o tempo todo falar e me fazer falar alguma coisa que não sei bem o que era. Ou talvez saiba. Ou talvez não. Aquela parte onde a anfitriã apresenta a casa, bem, essa parte eu até consegui fazer. E você futucava em tudo, e com toda a delicadeza que lhe compete, ia derrubando uma coisa aqui, outra ali. Deixou, negligentemente, algumas marcas por aqui e por ali, não sem antes furtar um livro da estante. Queria muito (poder) falar de outras coisas, mas acredito que detalhes demais diminuiriam o sentido do relato, até porque o principal ainda está por vir.
E todas carregadas de embriaguez e um desejo silencioso e secreto. Mas estava estampado na cara, na nossa cara, a reciprocidade de algo que definitivamente não deveria estar ali. Mas estava. E à flor da pele. Você estava em pé à porta, pronta para ir embora. E como todos sabemos que os deuses conspiram... começou a chover. E como todos sabemos que os deuses conspiram... começou Legião. Você queria ver a chuva, abri a porta. Você dizia que precisava ir embora, eu dizia que chovia muito. Espere um pouco, eu dizia.
Pedi um abraço. Me abraça direito, eu disse. E você delicadamente me abraçou como o próprio mamute da selva. Já lhe contei alguma vez sobre meus problemas psíquicos em relação a abraços? Não cabe aqui, outro dia, quem sabe. Acontece que dentro daquele abraço muita coisa aconteceu. Com meus olhos fechados eu pude enxergar mais claramente. Senti aquele cheiro verde de maçã, o calor da sua face tocando a minha. E larguei um pouco de bafo quente e molhado por ali também. E em meio à dúvida entre a vontade de consumar o desejo e o peso inconsciente do provável arrependimento, tive uma epifania. Eu precisava falar.
Eu preciso te dizer uma coisa, eu disse. Pausadamente, pincelei letra por letra do que disse em seguida: eu não sou leviana. A ironia é mesmo algo que nunca me abandonará. Engraçado e incrível a quantidade de vezes que essas palavras me foram ditas no passado, em circunstâncias parecidas inclusive, e lá estava eu, reafirmando o sarcasmo caótico da minha vida. Disse mais algumas coisas, que fariam toda diferença se as citasse aqui. E você particularmente disse outra coisa, que faria toda a diferença se citasse aqui. Mas o que importa mesmo é o que está gravado na memória.
Toda fable tem uma "moral da história", um sentido que indica um ensinamento. A moral dessa história se chama 'contexto'. Eu fico pensando em como éramos próximas naquele tempo e em como era inegável que algo acontecia. Perceba que, de forma bastante egoísta, estou nesse relato ignorando qualquer contexto externo ao nosso. Estou apenas trazendo fatos, contando uma história. E agora, hoje! Não sei dizer pra onde foi 'aquilo'. Se está adormecido, se está esquecido ou, até mesmo, se aconteceu algo de verdade. Eu não quero (posso) acreditar nessa última possibilidade, pois acreditar nisso seria o mesmo que aceitar que você... bem, aceitar que você não é nem a sombra da pessoa que imagino ser. A moral da história também fala sobre o inevitável, leviandade e arrependimento. Não tenho ainda uma opinião formada sobre isso. O que eu espero mesmo é nunca me arrepender de ter me arrependido.
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