# En Mi Mineur #

Seus olhos são isso. São esse algo carregado de significado e sentimento. Eu precisei começar com essa frase porque é impossível te enxergar sem vê-los. Sem admirar sua intensa e marcante presença. Seu olhar é definitivamente o que te marca, o que faz com que você seja você mesma. O que te mostra, o que te exprime, o que te deixa vulnerável, tocável, próxima, perto. O que te expõe. Seu olhar explica muito do que eu não faço a menor ideia de como dizer.

Em todos os casos, de todas as formas, em todos os sentidos... as coisas, supostamente, devem acontecer naturalmente. Esse é um dos meus lemas - o natural! Aquelas coisas que acontecem alheias à sua vontade, sem mesmo que você saiba que elas estão acontecendo. A naturalidade da situação não diminui a problemática.  Eu já vivi esse fato, sinto que estou presenciando um déjàvu da minha própria vida, e sei, exatamente, onde isso vai acabar. Mais um daqueles momentos onde meus conhecimentos empíricos de nada servirão a não ser para me alertar de que nada mudará, e de que os erros - se assim posso dizer, erros - serão os mesmos, pois os meus sentimentos novamente dominarão a realidade e o bom senso da coisa toda. Nessas horas eu gostaria de ser um desses animais quaisquer, que vivem por aí supostamente abandonados na natureza, agindo pura e simplesmente por instinto. O mal do 'ser sapiens' é a consciência.  Mau ou bom, temos completo discernimento sobre aquilo que estamos fazendo. O que nos faz sentir mais culpados ainda de crimes que nem ao menos cometemos.

Essas linhas foram criadas mesmo para falar intencionalmente do algo que existe e que eu não sei explicar. Sou daquelas de buscar infinitamente o significado das coisas. E claro, de forma lógica, filosófica e, porque não, matemática. Bem ou mal, sou dessas! Existe uma inquietação natural que me leva a buscar respostas onde, às vezes, nem necessariamente existam perguntas. Mas sou de transgredir pensamentos e emoções. As coisas não passam simplesmente por mim, elas me atravessam! Elas me atingem de uma forma tão intensa e complexa que nenhuma teoria de física quântica poderia explicar.  Eu consigo transformar um ribeirão em braço de mar... eu transformo um copo d'água numa chuva torrencial. Mas perceba que além de não ser intencional a questão toda não é simplesmente maximizar as coisas, acontece que meus olhos enxergam muito além, às vezes, mais do que realmente deveriam ver. Eles buscam, naturalmente, ver através de. Através do realmente é dito, através do que realmente é feito, através de. Eu não aumento, eu transcendo. 

Agora... os seus olhos, bem, eles excedem a minha inteligência, ultrapassam meu conhecimento e devoram meus pensamentos sóbrios! É uma daquelas coisas inexplicáveis e igualmente envolventes. O mistério que mora aí dentro estremece a minha paz. Mas como sou daquelas que teorizam até mesmo a mais subjetiva das coisas, tentarei me livrar desses pensamentos que não se livram de mim. 

De inicio, uma barreira. Porque o que há de verdade aí dentro eu não sei, mas sei que não se mostra, não externa, não ultrapassa o limite de suas retinas. Permanece imóvel e impostado, certo de seu lugar, certo de tudo o que acontece à sua volta. É decidido, lúcido e encantador. Alto, latino, meia idade, sentado à orla do pub, bebendo uísque doze anos e tragando um charuto cubano... entende? O ser que te habita é uma pessoa.

É a personificação de uma bossa.

Mas de tudo, é importante lembrar que o ser que habita - habita apenas. Existe uma casa onde ele mora, um casulo, uma cápsula onde ele se refugia. A Maçã Verde. E jamais me pergunte o motivo, não faço ideia. As coisas simplesmente são porque simplesmente são. O que posso fazer se você é uma Maçã Verde? Eis o fato - você é. Então é isso, o ser habita uma Maçã Verde, e sobre esse fato é apenas isso que irei dizer.

E há ainda outro fato importante. Vocês, vocês dois são independentes, mas se completam. Um não existiria sem o outro, mas há uma indubitável certeza de que um de vocês tem o total controle sobre o outro. E que também os dois têm consciência desse fato. Mas não entrarei aqui no mérito freudiano, deixarei esse assunto para que vocês tratem com seu psicanalista. Voltemos aos seus olhos.

Acredito que esteja usando o termo errado. Olhos. Seus olhos não podem ser descritos como meros substantivos singelos. Esses seus olhos são verbo! Olhar..! Seu olhar é um verbo transitivo absurdamente direto. Morteiro. E haja sinônimos para conseguir sustentar essas suas vistas tão carregadas desse sentido todo!

Mas pensando mais claramente sobre o assunto consegui, entre um devaneio e outro, criar o que pra mim parece ser a teoria mais plausível. E é claro que envolve alguns fatores físicos e matemáticos, as coisas se explicam melhor assim. O que te habita é o universo criado por uma estrela morta. Sabe, estrela morta? Quando as estrelas morrem sua massa é tão grande e compacta que engole a si mesma e se transformam naquilo que chamamos de buraco-negro. Sorvem tudo à sua volta, material ou intangível, distorcem até mesmo a própria luz. E acredite, existe um desses aí dentro. E eu tenho provas irrefutáveis dessa descoberta astronômica. Quando eu penso em falar ou fazer alguma coisa... bem, na minha cabeça as ideias são muito bem organizadas e metodicamente planejadas. Mas quando me encontro diante desse abismo dos seus olhos, todas as minhas palavras são imediatamente sugadas por esse infinito que te habita. Existe uma atração gravitacional tão intensa que os átomos do meu cérebro fazem mitose... seus olhos me desorganizam. Você me bagunça!

Seu olhar é conto do Drummond e soneto do Vinícius. É alguma música do Tom com letra do Chico em Mi menor.

Seu olhar é nona de Bethoveen interpretada pela filarmônica de Berlim. 

É essencialmente música e poesia.

Misterioso, intocável, mas quase... quase tangível. Seu olhar me engana e me esclarece - me controverte. Os olhos da Capitu eram aqueles de ressaca... mas os seus não. Os seus são a própria embriaguez! E ai de mim que continuo teimando em querer me embebedar deles! Não há como permanecer sóbria diante de seus olhos, o teor alcoólico é muito alto e sabor é irresistível!

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Como sempre, não existem palavras no mundo que sejam capazes de expressar toda essa subjetividade que carrego. É difícil aceitar que ela foi feita pra ser sentida e não descrita, mas não me contento em perceber a discreta e sigilosa existência de certas coisas e guardá-las apenas dentro de mim. Não cabe.


Esse universo todo aí dentro. Agora, imagine meu medo?

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