Tal de "rien de rien"

Então. Renato Russo que o diga... mas depois de todo esse tempo hoje eu acordei com aquele sorrisinho maroto, à la Monalisa! Você sabe como é, aquele sorrisinho de canto de boca, assim despretensioso e modesto. Inspirada, como uma criança no parque, como alguém que recebe seu primeiro salário, como uma folha de papel em branco. Se as obrigações não tomassem conta da minha vida, é bem provável que nesse exato momento já estaria redigindo a página número cento e vinte e três do meu livro, tamanha necessidade de expulsar de mim essa coisa que nem eu sei o que é. Essa conversa, doutora, será bem direta, como todas as outras vezes que disse isso... 

Desde já peço desculpas por atrapalhar seu sagrado horário de almoço, mas você sabe bem como eu fico quando as coisas ficam presas e reprimidas, não é mesmo? Mas na verdade o que eu preciso dizer não é nada novo, só aquele emaranhado de palavras já repetidas mil vezes por aqui e que hoje vivem impregnadas nas paredes dessa sala... mas o que é incrível mesmo é a língua portuguesa! As palavras são as mesmas, concordo, mas se você alterar sua ordem altera seu sentido de forma substancial. Quer ver como isso funciona?

Todos nós vivemos tomados por nossos medos. Uns mais que os outros. O que talvez nos diferencie seja a capacidade de aceitar e agir. Porque quanto mais medo, mais distância e menos ação. Medo é aquele bicho que vive dentro da gente sendo alimentado por toneladas de incertezas e inseguranças, o tempo todo, o tempo todo. É um monstro-parasita, só existe porque você o cultiva. É fato que precisamos manter alguns medinhos sociais para que consigamos ver nossos netos crescerem, mas a maioria desses medos é mais de dentro pra fora que o contrário.

O medo em questão é aquele denominado "imprecisão". Incerteza. O pior medo de todos é justamente esse de arriscar. De seguir em frente, do abraço, de mostrar a cara, do gesto quase imperceptível, da lembrança inesperada durante o dia. Medo de se jogar. Medo, simplesmente, de ir. Porque nessas horas acontece algo muito mais complexo que os postulados matemáticos que levam o mesmo nome - limite. Porque se por um lado sou dessas que tenta desesperadamente calcular meus passos tortos, por outro não tenho muito mais tempo antes do fim do mundo. Até porque tudo é muito subjetivo sabe? A gente nunca sabe de verdade até onde pode ir.

Mais que incertezas e decepções, mais que frustrações e desenganos, mais que obrigações e paranóias, mais que o que nos forma, que o que nos faz sermos nós mesmos, essa coisa que as pessoas chamam desavisadamente de 'vida' é muito mais que isso. Pude crer que desse emaranhado de rotinas e relatividades caóticas, a vida de verdade vive presa dentro de pequenos fragmentos, pequenos momentos de lucidez poética que dão sentido a todo o resto. No frio, na chuva, no breu da noite, na embriaguez, no silêncio e no som - fora de contexto, um instante ínfimo, mas do lado de dentro um rompante carregado de todo aquele flerte fatal!

O que eu sinto agora é manso, morno e absurdamente confortável. É claro que não tem nome e dorme em segredo. É repleto de paz e sinceridade. De dentes e som. Sem obrigações nem orgulho. Da forma como deve ser - natural. E carregado de tanto desejo que nem acordo mais de ressaca!

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