Tal de nada

Então. Me perdoe a falta de coerência, a repetição dos mesmos postulados já descritos por aqui inúmeras vezes, mas a necessidade de gritar me toma de tal forma que de nada valeria a estética não fossem palavras que dessem valor aos meus sentimentos. Subjetividades à parte, meus gritos abafados pelo travesseiro poderiam tirar a Terra de seu eixo. Poderiam contaminar toda a matéria que me cerca, fazendo com que tudo evaporasse e virasse luz e silêncio. Poderiam me retirar ou me recolocar de volta à realidade. Mas não vão.

Eu tenho andado de uma forma diferente. De repente me vejo como a personificação torta dos livros que leio, dos filmes que vejo, das porcarias que como. Não tenho me olhado mais no espelho, talvez com medo de não me reconhecer. Percebo que vagarosa e inevitavelmente vou me transformando em tudo aquilo que um dia repudiei, naquelas coisas das quais fazia apologia contra quando era adolescente. Ando por aí sem sentido, sem esperar, sem buscar, sem planejar. É apenas um aglomerado de gestos e "movimentos retilíneos uniformemente variados"... eu ando por aí niilista demais!

E embora não devesse, essa coisa toda tem me preocupado. Eu ando farta, mas imóvel. Incapaz de agir de forma a sequer tentar mudar alguma coisa. Num dessabor, num destempero... Procrastinando, sem lógica, sem verbo.

Estou absolutamente farta de superficialidade, do raso, do simples, do banal, do comum... entre tantas cabeças que há no mundo não consigo me sentar com nenhuma delas para tentar discutir qualquer coisa sobre a profundidade da vida e das coisas mundanas. As bocas que se movem dizem sempre as mesmas coisas. Os pés os levam sempre aos mesmos lugares, onde os olhos enxergam sempre as mesmas cores. Eu devo realmente ser uma pessoa de pouca fé porque eu não consigo visualizar melhora nesse quadro, ao contrário. Como é sabido por todos, a tendência das coisas é só piorar.

É claro que não se vive apenas de subjetividades e pensamentos filosóficos, mas entenda, o meu refúgio, o meu alívio, o meu suspiro está justamente na imatéria, no intangível. A falta desse submundo caótico sempre me distancia cada vez mais de mim. E para o nosso bem, o meu e o seu, é bom que isso não aconteça.

Nunca estive tão só. Em todos os sentidos que seu cérebro conseguir listar. O blog, que teria o papel de fazer com que eu me sentisse, de certa forma, menos pior, nunca foi na realidade uma conversa, mas um monólogo. Alguma parte de mim se comunicando com outra, como se vivessem separadas por algum motivo biológico-espiritual e essas palavras digitadas as unisse de forma a me equilibrar. Mas isso tudo é muito utópico. Se você quiser acreditar nessa história, fique à vontade.

E dentro dessa coisa toda, o álcool tem um papel muito importante. Nunca se está sozinho e seu papo nunca será subjetivo demais enquanto se está sob seu efeito. Ele aproxima, entretêm, cria vínculos sincero-imaginários e reafirma toda minha fraqueza e estupidez. Ele personifica minha ignorância enquanto me embriaga de felicidade! E eu aceito, conscientemente, essa condição. Me enterro num mundo de possibilidades etílicas a fim de me cegar, de não saber, de esquecer. Mais estúpido que jogar fora toda minha saúde e meu planejamento financeiro é ver uma casca de banana jogada no chão a um metro de distância e dizer: lá vou eu escorregar de novo! Não sair do caminho e achar bom. 

Ando carregando uma intolerância branda, algo que comove e que me faz tossir de febre ao mesmo tempo. Entende? É como brigar dormindo. É como querer gritar, só que do avesso. Nada, mas absolutamente nada anda me comovendo mais. Nada me toma, nada me tira o sono, nada me toca. Ando vivendo dentro de toda a perplexidade morna da realidade. Dentro de uma sopa de chuchu ou algo do tipo.

Entendo perfeitamente porque algumas pessoas precisam se medicar para viver. Hoje, depois de todo preconceito de outros tempos, percebo que essas pessoas se deram conta de que acreditar, tentar, forçar... sozinho não se vai longe. Imagine? Se eu não tenho forças nem pra pegar a caneta que caiu embaixo da cama há uns três meses, que dirá para acreditar que pensamentos positivos e atitudes assertivas poderiam de alguma forma mudar minha vida e me 'curar' do mal irremediável do século? Se você é humano você é fraco. Não há como lutar contra isso, faz parte da nossa natureza podre.

Eu queria deitar ao vento e esperar que  a areia me cobrisse, assim, bem devagar, como um objeto que é coberto de poeira por desuso. E assim, em silêncio, ir desaparecendo ao som do ar em movimento. Jogada ao meu próprio esquecimento e mergulhando cada vez mais fundo nesse poço repleto de mim mesma.

Ando outra, ando estranha. Ando diferente, rumo ao inevitável. Sem cor nem sabor. Absolutamente vazia. Um vazio cheio. Aquele vazio cheio de nada.   


As possibilidades são infinitas. Mas e daí?

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