Tal de quadrado corporativo
Então.
Esse post será um daqueles bem curtos
e grossos, onde vomito toda aquela minha boa e velha indignação sobre as coisas
terrenas e blá blá blá. Mais um, doutora, para o rol das “sessões nostalgia”. Mas
antes de iniciar, se me permite, preciso tecer um comentário. Fico me
imaginando falando essas coisas para outra pessoa, contando sobre esse tédio
que é minha vida e como meus problemas são patéticos e sem a menor importância
aos olhos de qualquer habitante da galáxia. E antes que você faça essa cara que
eu odeio eu já disse que esse iria, sem dúvida, para aquela lista nostálgica. E
é impressionante como eu sempre enrolo e nunca chego ao assunto. O que? Ok, tudo bem!
Eu
trabalho desde os dezesseis anos de idade. E quando eu penso nisso ainda
consigo achar esse fato o máximo. Na verdade esse fato define muito do que eu
sou e quem me transformei. Talvez, a partir disso eu tenha me tornado esse
monstro que vive unicamente para tentar defender e garantir a liberdade e a
independência que nunca teve. Talvez. Talvez isso explique porque sempre recuso
a ajuda dos outros e acredito que sempre conseguirei resolver todos os
problemas do mundo ao meu modo e, o mais importante (e estúpido), sozinha. Sem
ninguém, sem nada. Me parece que sempre retenho o lado ruim das coisas e me
aposso delas. Me parece que nunca cresço com as coisas boas, só me formo com as
coisas ruins. Isso é péssimo, mas não tão péssimo quanto um texto sem a menor
preocupação estética em organizar as ideias de forma coesa. Mas acredito que
você já deve ter se acostumado com isso.
Eu
trabalho há tantos anos que dia desses descobri que precisava trocar minha
carteira de trabalho, estava muito cheia. Esse fato também representa muita
coisa. Porque mais que carimbos e papeis colados, e anotações de férias e
alterações salariais, e trabalhos temporários e informações do INSS... eu
naturalmente fui mudando conforme o tempo, mas na minha carteira de trabalho
ainda figura aquela foto magra com sorriso Monalisa de dez anos atrás. Eu não
sou mais aquela pessoa, e é disso que eu quero falar. Pode ser? Obrigada.
Se
for para pesar, meu primeiro emprego foi, e provavelmente será para todo o
sempre, o melhor emprego que já tive na vida. Resumidamente eu ganhava muito e
trabalhava pouco. E para aqueles que pensaram que eu era algum tipo de
parlamentar, se enganam. Meu trabalho era honesto! Mas acontece que foi
exatamente nessa época que descobri o valor que o dinheiro tem. No meu segundo
emprego, descobri o valor que o cliente tem. Num emprego seguinte descobri o
valor que os processos e a burocracia têm. No outro, o valor da liderança, motivação e
reconhecimento. Num seguinte, o valor do silêncio. Agora, estão tentando me
fazer crer na importância de uma boa apresentação pessoal. Ah meu Deus, você
está dormindo? Eu jamais vou conseguir repetir isso tudo de novo! Eu tenho cinquenta
minutos, pago por eles. Tenha ao menos a decência de manter-se acordada!
E
veja minha cara doutora, você sabe bem o que eu penso sobre essas coisas, não
sabe? Tive algumas experiências que exigiam de mim certa formalidade. Mas se
você me conhece um pouco sabe que ninguém deve me pressionar. Não me aperte,
não grite, e principalmente, não me obrigue. É fato que nesse mundinho podre
dos negócios as regras foram definidas há muito tempo e ninguém ousa
quebra-las. E talvez nem me atrevo a usar essa palavra. Até porque não estou
aqui para quebrar regras e sim para, ao menos, questioná-las.
Fico
lendo esses livros espessos sobre gestão de pessoas e imaginando pra onde vai tanto
conhecimento inaplicável. Chegarei ao clímax em três, dois um: o que define,
meus caros, meu desempenho dentro do ambiente de trabalho são meus
conhecimentos acadêmicos e empíricos, meu cérebro e meu relacionamento com os
demais, meu network e meu modelo de
liderança – nunca, mas nunca será medido pelas roupas que visto. E digo mais –
até mesmo para que eu possa desempenhar meu papel com eficiência e eficácia
como todos exigem o tempo todo eu preciso, no mínimo, me sentir à vontade e
confortável dentro da organização. Sei bem meu potencial e sei bem onde quero
chegar. E eu não conseguirei chegar até lá sendo regida por padrões e modelos
de gestão totalmente ultrapassados e impraticáveis nos dias de hoje.
E
não é apenas uma peça de roupa aqui, uma mudança no visual ali... isso
representa quem eu sou e quem eu continuarei sendo onde quer que esteja. Você sabe
bem que eu não me apego. Não me apego a emprego algum. Nunca. E nunca irei. E não acredito que eu seja ignorante o suficiente para passar fome ou morar
debaixo da ponte. Eu preciso de dinheiro, mas não vou me prostituir por conta
de um quadradinho corporativo.
Tenho dito e tenho dito.
Comentários
Postar um comentário