# Littera #
Por um longo tempo admirei em
silêncio esse bloco de papel em branco. Nele estão inseridas todas as
possibilidades, todas as esperanças, todas as memórias, tudo o que há de se
querer. Mas ele aqui, em branco, intacto e inerte se confunde à minha expressão
ao contemplá-lo, igualmente imóvel, sem palavras e vazio. Será que estou
admirando minha própria imagem refletida nesse pedaço pasmo e sonso de papel? Será
eu mesma tão passível de possibilidades e tão vazia delas? Sim, nesse momento
eu sou um mero pedaço em branco de papel que toma forma unicamente de acordo
com os olhos que me veem.
E se ao acaso os meus próprios olhos
forem aqueles que me fitam, então volto para meu estado de nada além. Nada além
de palavras significantes apenas a mim. Nada além de tinta e lágrimas. Nada além
de um esboço de algo que nunca será completo. Nada além que uma carta que nunca
foi e nunca será remetida.
A penúria desse momento é
assustadora. É fato que tenho certa prática, o que deveria servir ao meu favor.
Eu sinto novamente aquelas dores que, um dia, jurei aos céus nunca mais sentir.
As dores do parto. As dores do partir. Aquelas dores desumanas que me tiram de
mim, que me torna o ser humano mais frágil e indiferente do mundo. A dor de
anoitecer de dia. A dor de chover. E quanta chuva!
Quanto mais eu pereço, mais as
coisas se tornam comuns e previsíveis. E justamente o que diferencia o homem
dos outros animais é a consciência. Mas mesmo de posse desse poder divino, o
caos, dos físicos e matemáticos, ou o eterno retorno, para os filósofos, não
nos liberta para o novo. Estamos todos condicionados a repetir infinitamente as
mesmas mazelas de outrora; e tudo com o mesmo sabor agridoce. E mesmo
conhecendo em minúcias toda a trajetória, todo o maldito caminho que será
percorrido, permanecemo-nos lá, diante da bala, como esse pedaço de papel,
imóvel e sereno. Apenas aguardando.
O paradoxo fica por conta da relação
entre o previsível e o inevitável, o natural. Mesmo sabendo toda a rota é impossível desviar
seu curso. O que eu sinto é irreprimível, mas o rumo desse sentimento era
sabido desde o início. Sendo assim, eu prefiro acreditar que não possuo nem
nunca terei nenhum tipo de controle quanto aos meus desejos do que o fato de
que, conscientemente, eu quis sofrer. Ora, eu preciso me confortar de alguma
forma, visto que meus instintos humanos fazem pouco caso da minha razão!
Amar é um mal inevitável. Irremediavelmente
mal e irremediavelmente inevitável. O amor é mais que meros devaneios de poetas
tuberculosos – ele é um ser que me habita. E enquanto ele corre por minhas
veias tem vida própria. Ele pensa, ele fala, com toda diplomacia e veemência
que lhe cabe. Sabe mais de mim do que eu própria dele. E eu... apenas um
casulo, um mero instrumento para que ele possa se personificar e conseguir
disseminar suas vontades. O amor habita em mim dessa forma, sem considerações
nem regras. E num enlace tão profundo que seria impossível imaginar alguma maneira
onde não houvesse a presença de um ou de outro. Se completam, se carecem.
De modo que é impossível imaginar
arrancá-lo de dentro de mim sem causar nenhum dano. Impossível e penoso. É o
tipo de sentimento que, toda vez que se vai, leva bem mais que lembranças e
saudades. São grandes garras afiadas que te arranham todo por dentro, te rasgam
e largam grandes marcas e cortes incuráveis. As feridas internas são as que
doem mais.
Mas dessa vez algo novo acontece. Novo
e igualmente estranho. As minhas lembranças são do futuro, e minhas esperanças
do passado. Quando eu penso em nós... somos esse papel em branco. Repletas de
possibilidades, ávido em ser preenchido por uma daquelas histórias com finais
felizes, mas que permanece escondido e guardado dentro de um caderno velho. Abandonado,
displicentemente. Nós somos esse papel em branco, carregadas de vontade e
desejo. Somos um passado repleto de futuro. Esse é o amor que habita em mim – a
carta que nunca será enviada e a saudade do que eu nunca vivi.
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| "Deixe em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa E qualquer desatenção, faça não Pode ser a gota d'água!" (Chico) |

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