# As incríveis aventuras noturnas de uma anta e um TecBan perdido #
Essa história não vai começar com aquela máxima "essa é uma história fictícia e qualquer semelhança...". Todos os detalhes narrados aqui, por mais absurdo que pareçam, são legítimos. Eu precisava dizer isso porque imaginação tem limite. E você pode não acreditar, mas... até mesmo a minha. E essa história é muito longa, então, sente-se confortavelmente. Bem, agora que já superamos esses problemas vamos ao fato.
Goiânia, 5 de setembro de 2012
02:50h
Depois de estudar um pouco, ler qualquer coisa, esperar meus vizinhos dormirem e cutucar alguém no Facebook, o ponto alto do meu dia enfim chega - dormir. Ajeitei o ninho, apaguei as luzes e, linda e loira, me deitei e fechei os olhinhos. Três minutos e sete segundos depois eu tive um sobressalto que quase me faz cair da cama. Não era possível aquela informação que de repente havia entrado na minha cabeça. Talvez eu estivesse enganada e ainda haveria solução.
Mas eu preciso te situar, não é mesmo? Desculpe minha deselegância. Você sabe que eu não gosto de ficar por aí andando com dinheiro nos bolsos então, muito metódica como sou, fui até o banco depositar minhas barras de ouro que valem mais que dinheiro. Isso aconteceu exatamente no dia anterior, dia quatro de setembro. Bem, tudo certo até aí. Continue lendo, ainda não passamos do prólogo. Nessa conta em questão acontecem alguns débitos automáticos. Acontece que houve um desacordo entre uma dessas empresas e eu, onde tive que cancelar o débito automático, mas no fundo sabia que eles iriam cobrar novamente. Eu não tinha muita certeza do dia do débito, ainda mais às três da manhã. O meu desespero então começou.
Mais que rapidamente liguei o computador enquanto meus cabelos caíam. Sim, o débito estava agendado para o dia cinco, exatamente o dia em que eu estava vivendo... Você sabe que em momentos de tensão as pessoas não são nenhum pouco racionais. O que eu poderia fazer? Tentei falar com a empresa e com o banco, mas às três da manhã você pode imaginar que eu não consegui. Eu não poderia deixar que sequestrassem minhas barras de ouro! Meu dinheiro estava lá, correndo sérios riscos, eu precisava agir! Nesse momento eu tive a ideia mais genial de todas: sacar o dinheiro! Era o único modo de impedir que o rombo acontecesse. Começava então a minha saga em busca do TecBan perdido!
03:13h
Eu sei que você está se perguntando onde eu conseguiria um caixa eletrônico à uma hora dessas. Mas o que você não sabe é que a tecnologia aproxima; pessoas de pessoas e pessoas de coisas. Procurei em todos os sites do mundo as máquinas mais próximas e me lembrei de que há um posto de gasolina bem próximo a minha casa onde possui o serviço. Agora eu preciso fazer um daqueles parênteses: a palavra "próximo" não significa exatamente o que ela quer dizer. Segundo o Google Earth o posto fica a 1,21km de distância, ou sete dedos, pra ser mais exata. Um quilômetro não é algo assim tão assustador, mas eu devo lembrar que às três da manhã atravessar uma rua já é pedir pra morrer.
03:31h
Visando no mínimo um assalto, saí de casa apenas com o cartão do banco e minha identidade. Se eu morresse pelo menos a identificação seria fácil. Acho que não preciso nem dizer que não havia uma viva alma nas ruas. Nem carros passando, nem sequer cachorro latindo. Nada. Eu me senti num daqueles filmes americanos de suspense encenado por adolescentes. Mas como na minha cabeça as coisas não funcionam à moda da casa, eu sinceramente fiquei com mais medo de um zumbi do que algum pivete. Percorrido cerca de um quilômetro, ou cinco dedos, começam a surgir alguns carros. Tudo bem não fosse o fato de encostarem o veículo. A cada carro que ia encostando eu só conseguia pensar numa coisa: o porquê de eu nunca ter aprendido nenhuma arte marcial.
03:49h
Estava começando a respirar melhor porque já estava bem próxima do meu destino. Cheguei à esquina da rua do posto sorridente e feliz. Até cantarolava alguma coisa de Zeca Baleiro. Virei a esquina e me deparei com o breu. O posto estava fechado. Como assim, fechado? Quem essas pessoas pensam que são pra fechar um posto de gasolina numa madrugada de quarta-feira? Tudo bem, eu respirei e vi um táxi. E obviamente me joguei em cima dele.
Nesse momento eu preciso fazer uma pausa dramática: você sabe que eu moro na esquina da T-002. Naquele momento eu estava numa rua que já foi. Essa cidade é repleta de ruas que já foram. Num ponto elas têm um nome, em outro ponto elas simplesmente mudam. Mas é a mesma rua. Nesse caso, estava eu na C-004, que já foi T-007. Se você conhece Goiânia, esse dado foi bem útil. Agora, se você não conhece a cidade... bem, eu não posso resolver todos os seus problemas, certo?
Onde parei? Ah, sim. Me jogando em cima do táxi.
- Bom dia. Será que você sabe me dizer onde tem um caixa eletrônico mais próximo?
- Humm...
- Tem um naquele posto, mas tá fechado.
- Olha, provavelmente tem no posto da Walter Santos. Se não, só na rodoviária de Campinas.
Eu preciso repetir isso: se você conhece Goiânia, esse dado foi muito útil. Até porque você vai conseguir visualizar onde eu estava, pra onde eu fui e pra onde o taxista estava querendo que eu fosse. Tudo oposto! Mas aí eu pensei: o que é um peido pra que já está cagado?
- Vamos lá então, moço?
- Ah, mas não é comigo não. É a vez do meu companheiro ali.
- Ali onde?
- Ali na esquina. Pode ir até lá, vou avisá-lo pelo rádio.
Atravessei a rua, bati no vidro do carro. O cidadão que estava lá dentro dormindo, abriu os olhos, viu as horas e voltou a dormir. Inacreditável. Bati de novo, mais forte. Ele levou um puta susto, mas abriu o vidro. Aí eu tive que contar toda a história de novo, só que dessa vez com uma cara mais desesperada.
- Caixa eletrônico uma hora dessas?
- Seu amigo ali falou Walter Santos ou na rodoviária de Campinas.
- Vamos procurar então.
04:00h
Começamos o passeio. Parece que ninguém estava entendendo o quão grave era a situação. A cada minuto que passava eu ficava mais longe do meu ouro. Chegamos ao posto da Walter Santos, eu desci. E é claro que não tinha caixa eletrônico nenhum lá. Eu respirei, entrei de novo no táxi.
- Não tem, só na rodoviária então...
- Vamos lá.
E conversa vai, conversa vem, e essa rodoviária não chegava nunca.
- Você tá indo pra onde?
- Pra rodoviária.
- De Campinas?
- Não, de Goiânia.
- (Poker face)
A essa altura eu estava tão sem rumo que isso aconteceu:
(Só pra situar: estávamos no Setor Campinas)
- Mas o seu amigo disse que era na rodoviária de Campinas!
- A gente pode voltar, sem problema, mas eu não sei se lá tem caixa.
Deus, eu fiz essa pergunta:
- Estamos mais perto de onde?
- Da de Goiânia, pertinho, estamos chegando já.
De novo: se você conhece Goiânia, essa informação... ok. Mas se você não conhece, pensa comigo: estávamos num setor chamado Campinas e eu preciso chegar num lugar chamado rodoviária de... Campinas! E mais: a rodoviária de Goiânia fica num setor chamado "longe", mais conhecido como "puta que pariu" ou, pra ser mais exata, trinta e dois dedos. A sensação de que eu estava sendo enganada era grande, mas não importou porque eu estava em órbita.
04:25h
Chegamos enfim à rodoviária. Depois que o segurança me disse onde ficava o caixa eu corri. Literalmente. Nem acreditei quando vi aquela máquina na minha frente! Inseri o cartão, coloquei as letrinhas, digitei a senha e...
"Este terminal não realiza esse tipo de operação entre 22:00h e 06:00h"
Meu amigo leitor... nesse exato momento transpareci a mais longa cara "Pokerfaceana" da história! Tão grande era minha ira que dei cinco mortais de costas e três duplos twist carpados. Era inacreditável como um serviço que se alimenta do codinome "24 horas" dormir as quatro da matina. Mas eu não ia desistir assim tão facilmente. Voltei-me ao vigia e perguntei sobre outro caixa, mas dessa vez nada de TecBan.
- Não teria um caixa eletrônico da Caixa, não?
- Ali, por ali, ali...
Chego a maquina azul, insiro o cartão, digito a senha, digito as letrinhas... e a opção "Saque" está d-e-s-a-t-i-v-a-d-a! Sabe como eu chamo esse tipo de coisa? Dedo do diabo! Eu fico imaginado a cara do Exu espremido dentro dos caixas eletrônicos se borrando de rir da minha cara. Eu tinha então uma última saída: ao lado tinha outro TecBan. Não custava nada. Agora, nesse momento preciso que você saiba de outro dado muito importante: todos os passos que dei dentro da rodoviária foram seguidos de perto pelo taxista que resolveu fazer sombra pra mim. E me pressionar, claro. E o medo de não receber a corrida?
- Deu certo?
- Não... (com sangue nos olhos). Vou tentar esse outro aqui.
Após alguns segundos manuseando a máquina eu tive então a grata surpresa da noite - eu iria enfim conseguir sacar minhas moedas! Havia dinheiro no caixa, não havia problema de horário e a opção de 'saque' estava ativa. Nada nesse mundo poderia me impedir de enfim conse...
- Não teria um caixa eletrônico da Caixa, não?
- Ali, por ali, ali...
Chego a maquina azul, insiro o cartão, digito a senha, digito as letrinhas... e a opção "Saque" está d-e-s-a-t-i-v-a-d-a! Sabe como eu chamo esse tipo de coisa? Dedo do diabo! Eu fico imaginado a cara do Exu espremido dentro dos caixas eletrônicos se borrando de rir da minha cara. Eu tinha então uma última saída: ao lado tinha outro TecBan. Não custava nada. Agora, nesse momento preciso que você saiba de outro dado muito importante: todos os passos que dei dentro da rodoviária foram seguidos de perto pelo taxista que resolveu fazer sombra pra mim. E me pressionar, claro. E o medo de não receber a corrida?
- Deu certo?
- Não... (com sangue nos olhos). Vou tentar esse outro aqui.
Após alguns segundos manuseando a máquina eu tive então a grata surpresa da noite - eu iria enfim conseguir sacar minhas moedas! Havia dinheiro no caixa, não havia problema de horário e a opção de 'saque' estava ativa. Nada nesse mundo poderia me impedir de enfim conse...
"Não conseguimos fazer a leitura do seu cartão. O acesso será finalizado."
Você
já morreu alguma vez? Aposto que sim. Sabe aquele momento que toda sua vida
passa diante dos seus olhos? Aí você ouve uma voz que diz 'vá para a luz...'
Quase finalizando minha passagem dessa para a outra vida eu pisquei, desci
e resolvi sacanear o demônio. Eu tenho uma relação muito boa e próxima com
máquinas (menos celulares, elevadores e ferros de passar roupas). Erro de
leitura? Eu podia resolver isso. E depois de testar de várias formas possíveis
consegui enfim descobrir a única forma ao qual a máquina conseguia ler meu
cartão. E lá veio ele, devagar e provocando orgasmos múltiplos - dinheiro!
Agora em minhas mãos, todo meu! Mas como era belo aque...
-
Conseguiu?
-
Graças a Deus! Vamos embora, me deixa ali na T-002. Sabe aquela rua onde...
04:38h
Entramos
no táxi e fizemos o caminho de volta. Ficamos então conversando sobre o tempo,
o trânsito, oh sim muito calor, é verdade, o trânsito está ficando cada vez
pior, olha lá, ninguém respeita mais a sinalização, e blá, blá, blá. Você sabe,
depois de tanto stress nada como desempenhar o bom e velho papel de
taxista-passageiro, falando sobre coisas banais da forma mais superficial
possível. O carro parou na porta de casa. Eu estava tão feliz que nada no mundo
poderia... naquele momento eu percebi a presença de uma terceira pessoa dentro
do veículo - o taxímetro.
Você já morreu alguma vez? É, eu já fiz essa pergunta... Digamos que em menos de três horas eu tenha morrido umas cinco ou seis vezes. Eu não acreditei no valor total da corrida. O capeta havia colocado novamente seu dedinho em uma máquina. Claro que ele não iria deixar por menos, eu havia conseguido meu objetivo. Pelo menos até pagar o táxi.
Quando cheguei em casa, na margem do rio Piedra eu sentei e chorei... Eu sei que você não deve estar se aguentando, vou facilitar as coisas pro seu lado. Pode perguntar!
- Compensou? Quer dizer, o dinheiro que iria ser debitado, o dinheiro que você sacou, o valor da corrida do táxi...
- (Poker face seguido de um mortal grupado com duas piruetas)
Eu não escrevi essa história antes porque só hoje consegui me lembrar dela sem chorar... Mas mesmo assim ainda tenho um sentimento mal resolvido sobre esse dia. Lembro-me bem da cara que o taxista fez quando, com toda aquele desespero, falei que precisava urgentemente de um caixa eletrônico. Entre tantas coisas eu imagino sempre o pior:
- Coitadinha! Tão nova e já viciada desse jeito...

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