# Aquilo #


Aquilo lá é uma daquelas coisas abstratas que ninguém sabe definir. Nenhum filósofo, físico ou poeta ousariam criar postulados, definir regras. Ninguém ousaria. Eu menos. Mas de subjetividade eu entendo bem. Hoje cheguei à conclusão que sou uma coisa...  a literalidade da subjetividade. E de pensar nisso cheguei à outra conclusão – de que não existe nada mais subjetivo que uma coisa dessas... Como seria uma metáfora literal? Haveria como? Acontece que nesse campo as coisas fazem tanto sentido pra mim que a física e a matemática das coisas, às vezes, não fazem diferença. Proporções e números perdem seus sentidos quando o que cerca meus pensamentos é o imaterial, o inexato, o impreciso, o infinito. O que não se vê com os olhos, o que não se sente com as mãos. O que não tem cara, o que não tem cor. Simplesmente, aquilo.

Aquilo lá certamente é a antimatéria do ser. É a versão mais sublime de nossa carne imaterializada! É o som no vácuo. É cair pra cima. É o oposto surreal e iluminista do nosso cerne! É meu avesso em luz e silêncio. É uma estrela morta.
Se aquilo lá fosse gente... seria uma boca imensa e vermelha que gritaria. Gritaria e gritaria por todo tempo. Seriam olhos de areia, sem piscadas. Só areia. Seriam unhas e rasgos por porta parte. Dedos escorrendo unhas e sangue. E olha que eu nem quero falar em sangue não... se aquilo lá fosse gente não teria coração. Nem células nervosas. Seria ele próprio a personificação da dor... numa boca imensa que grita!

Aquilo é fundamentalmente dor. E aquela dor que, de tão crônica, nem se adoece mais. Uma dor já comum, bem vinda. Dor de frio, dor de gripe, dor de choque. Sem contar a febre... hoje eu entendo o que disseram sobre essa febre que não passa! A febre nada mais é que a dor em matéria. Dor por dor, todos estaríamos vivos. Mas a febre vem para lembrar que meu o remanso tem motivo único. É aquilo lá.

É impossível não dizer que aquilo lá é lágrima. E cada tempestade! É tanta chuva que mal consigo respirar! Aquilo é chuva de vento, ressaca da maré. É copo de vinho, é água da cara pra se lavar. Se banha e se molha entre um suspiro e outro, um alento pra se manter vivo e continuar aguando. Mas o que é de chuva levar, chuva não leva.

Aquilo lá não tem tempo – e é outra constatação importante de se dizer. Dentro daquilo não há espaços temporais – apenas aquele buraco negro ao qual faz com que tudo a sua volta se convirja nele. Ele suga naturalmente o tempo e o espaço. É, definitivamente, uma estrela morta!  

Aquilo lá beira as profundezas dos nossos infernos! É denso e quente. Agonia e lava. Acidez permanente. Na mente e no estomago. É sem sono e sem fome. É um mergulho cada vez mais para o fundo da gente. É infinito e infeliz. Triste e sádico. É clichê. É aquilo que sufoca e ao mesmo tempo hiperventila. É cinza, opaco, tem gosto de sal e cheiro de vinagre.

É a sensação de que tudo está bem mais longe, longe... flutuar rumo ao nada. Uma estranha e condensada leveza. É fazer tudo sem sentir. E no fim a respiração é cada vez mais lenta, mais sofrida. A morbidez mais visível, a gravidade tem um importante papel. Puxa as coisas para baixo. A cara e ombros. Os pés se arrastam. É morrer sem morrer. É viver sem viver. 

Não tem senso.


É antinatural.

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