# Valentine #
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| Amém. |
Roma, século III. Diante de guerras iminentes e perdas
implacáveis nos campos de batalha o governo necessita cada vez mais que jovens
se alistem ao poderoso exército romano. Visto que os jovens eram melhor
combatentes, pois eram mais destemidos quando não tinham esposas e filhos os
aguardando retornar da guerra, o imperador Claudius II proíbe o casamento entre
os mais moços. Um bispo, pela minha ignorância, tido apenas como bispo
Valentim, ignorou a proibição do imperador e continuou a celebrar casamentos em
cerimônias realizadas em
segredo. A prática foi descoberta e o bispo condenado à
morte. Após descobrirem sobre a prisão do bispo muito jovens romanos se
rebelaram em nome do amor e da união.
Como toda boa e velha lenda não poderia faltar o prato
principal – Asterius, uma jovem e bela ninfa romana. Entre os jovens que se
manifestavam jogando cartas de amor e flores no cárcere do bispo, destaca-se a
da garota cega e, por acaso, filha do carcereiro do homem de fé. Asterius
conseguiu permissão do pai para visitar Valentim, e você não vai acreditar no
que aconteceu. Os dois se apaixonaram e viveram uma linda e perigosa paixão até
o dia em que o pontífice foi decapitado, não sem antes milagrosamente devolver
a visão a Asterius. Antes do dia fatídico o bispo escreveu uma carta de
despedida a sua amada, onde o conteúdo jamais fora revelado, porém se sabe que
o homem assinou como Com amor, Valentine.
Sinceramente, eu não sei como Hollywood deixou escapar
essa. Repito – peço perdão pela minha ignorância, até porque acredito que
aqueles estúdios milionários já devem ter utilizado esse filão alguma vez. Não
tem como. É uma historia simplesmente perfeita, por falta de palavra melhor.
Daquelas histórias onde tem aventura e suspense, num ambiente de amor proibido
e fé. Isso lotaria qualquer sala de cinema e renderia camisetas, canecas de
café e aplicativos para o iPhone.
Quem sabe futuramente não escreva um roteiro? Eu fecho
os olhos e consigo ver e ouvir o trailer de cinema, naquela voz monstruosa daquele
velho de barbas brancas, que eu não preciso dizer que não faço a mínima idéia
do nome devido a minha profunda estupidez. Então começa o trailer com uma leve música de fundo, mostrando a cidade, a guerra,
o imperador falando alguma coisa e o bispo, onde no meu roteiro seria algum
tipo de conselheiro do império. Ai então a música começa a ficar mais forte e
mais alta, surge à cena do imperador dizendo que a partir daquele dia o
casamento entre os jovens está proibido. Então a música se acalma novamente e
num mosteiro surge um casal com os olhos lacrimejando suplicando ao bispo sua
graça e dizendo que não poderiam viver sem a benção da igreja. Nessa hora o
bispo confuso, olha o casal e aperta fundo o grande crucifixo que leva no
pescoço e diz Eu sou apenas um servo de
Deus. Nada é tão puro quanto a união daqueles que se amam, e esboça um leve
sorriso.
A musica então começa a acelerar novamente e surgem
algumas cenas de vários casais se amontoando numa capela distante da cidade.
Até que um dia, recolhido em suas orações a porta da capela é estilhaçada pelos
soldados romanos e adentra no ambiente a imagem firme e imponente do imperador,
que diz pausadamente Valentine. Nessa
hora então surge a voz do velho que começa dizendo com a legenda em branco Um
homem..., surgem algumas cenas do bispo na cadeia, movido pela fé..., aparece uma imagem dele fazendo uma oração, e pelo amor..., agora mostra cena em que
ele vê pela primeira vez Asterius. E então ele fala mais algumas outras coisas
que eu não quero pensar agora, vamos então para o clímax e o fim do nosso
trailer.
O locutor começa a falar o nome dos atores enquanto
suas imagens são lançadas na tela ao som da música violentamente rápida e
renitente. O locutor prossegue com uma leve pausa e a legenda branca num fundo
preto em Você..., imagens, vai..., imagens, se apaixonar. Nessa hora a música subitamente para e é mostrado o close da cena de um beijo entre o bispo
e a jovem sob a penumbra da lua na cela escura. Então tudo fica escuro e o
locutor finaliza, com letras que vão aumentando de acordo com o som frágil do
fim, Valentine. Em breve.
Vê isso? Isso é muito melhor que Romeu e Julieta!
Aliás, as pessoas adoram ver e ouvir histórias que já sabem o fim. Talvez seja
por isso que se enamoram, e se casam, e tem filhos. Essa história é a mais
antiga de todas. Todos sabem como acaba, e não é num final feliz. Hoje são doze
de junho, então só posso desejar um feliz mil setecentos e oitenta e três anos
da morte de um bispo traidor do seu império e do seu celibato. Oh, perdão. Onde
estão meus modos? Feliz dia dos namorados!
®
12/06/2010

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