# A metáfora do sorvete de morango #


Então, é assim: você abre os olhos e se dá conta daquela súbita vontade. É algo mais forte que você. E mesmo que não fosse você não iria lutar muito contra isso não... mas enfim. Você não encontra as chaves do carro, isso sem contar que quando as encontra – embaixo do Boxer que dormia de barriga pra cima em cima do sofá branco – você bate a quina de alguma parte do seu corpo na quina pontiaguda de algum móvel da sala. Adendo: quinas foram feitas para se encontrar, é o caminho natural das coisas. 

Seguindo: você entra no carro e por mais que tente você não consegue fazê-lo funcionar. O vizinho que te odeia e te acha extremamente idiota, depois do sorrisinho maroto, resolve parar para te ajudar. Assim que ele entra no carro e gira chave encontra mais um motivo para continuar acreditando que você é um perdedor – o carro funciona. Você agradece sem entender todos aqueles dentes e depois de emperrar algumas vezes a porta da garagem se abre.

Você nota alguns ruídos estranhos no carro, mas esse tipo de coisa não o desmotivará em busca do que procura. Na esquina da avenida principal um idoso se joga no meio da rua após um ciclista quase o atropelar, que por sua vez se jogou em cima da calçada por conta de um veículo em alta velocidade, o que por sua vez colide com um ônibus do transporte público. Mas ainda era cedo e o engarrafamento somava apenas dezesseis quilômetros. 

Você ouve no rádio alguma coisa sobre tempestade, temporal, mas hoje sua audição está um tanto seletiva demais. Uma hora depois você chega ao supermercado e não encontra vaga para estacionar. Ao esperar atrás do carro de luxo da senhorinha que coloca com todo cuidado os trezentos e sessenta e sete reais e vinte e oito centavos em compras no porta-malas do veículo um carro fabricado no ano de mil novecentos e oitenta e nove encosta levemente na traseira do seu carro. Você sai do veículo e percebe aquela mancha de tinta de aproximadamente quinze centímetros, de uma cor indefinível, no seu carro preto. Você olha para dentro do outro carro e... e enxerga uma pessoa tão indescritível quanto à cor, acha melhor voltar para dentro do seu carro e esperar a senhorinha que, com muito custo, colocava ainda a sacola de valor cento e vinte nove reais e dezoito centavos.

Você estaciona, sai do carro, liga o alarme. Ele dispara. Você desliga e liga novamente. Sai andando. Ele dispara. Você volta, desliga e liga novamente. Espera um pouco. Sai andando, ele dispara. Você desliga, espera um pouco. Liga, e sai andando. Ele não dispara, mas você tropeça numa pedra e quase cai. Você ouve uma risada, mas finge que nada aconteceu e entra no supermercado. O alarme dispara. O segurança chama sua atenção ainda na entrada, aponta o carro. Você tropeça na ida, desliga e liga o alarme, tropeça na vinda. A pedra talvez fosse outra, mas a risada era a mesma.

Você finalmente entra no supermercado. Você sabe bem o que quer, e mesmo que jamais tenha visto um supermercado tão cheio em toda sua vida você não desiste. No caminho rumo ao freezer pensa nos motivos que levaram você a morar tão longe do mercado assim. O pensamento logo passa quando a garotinha de moletom rosa vomita em cima do sapato ao qual você se gaba por ter sido trazido daquele outro país. A mãe pede desculpas e você diz que acontece. Pelas duas vezes.

O tempo decorrido do início até aqui já é incalculável a essa altura. Você chega ao freezer, você abre o freezer, você enfia a mão de qualquer jeito e pega o primeiro pote de sorvete que seus dedos tocaram. Sem olhar preço, sem olhar data de validade, sem olhar sabor nem marca, sem olhar. Assim, displicentemente. Você faz a escolha mais importante do dia sem olhar. Balança aquele pote na mão com quem carrega um boné. E vai para o caixa.

A fila do caixa para clientes com até quinze volumes já estava no setor de legumes e verduras, mais cinco pessoas e chegaria ao açougue. É obvio que você e toda sua inteligência adquirida com TV aberta pensa que será mais rapidamente atendido nos guichês comuns. O caixa que você tão seletivamente escolheu tem quatro carrinhos de compras, três cestas, um leitor de cartão com problemas e uma atendente em treinamento. Você observa a situação pensa que seria melhor mudar, mas a dúvida que as leis de Murphy impõem são mais fortes que sua vontade. Você fica. 

Doze minutos depois você pensa que teria sido melhor mudar de caixa. Dezenove minutos depois falta apenas uma cesta. Vinte minutos depois o leitor de cartão apresenta problema de novo. Vinte e seis minutos depois o sorvete começa a derreter. Vinte e nove minutos depois chega sua vez. Vinte e nove minutos depois você percebe que esqueceu sua carteira dentro do carro.

Está chovendo. Muito. Mesmo. Você corre até o carro – que está com os faróis acesos – e durante a pequena maratona debaixo de água pensa em como poderia ter esquecido o dinheiro. Em meio a tantos pensamentos você tropeça na pedra e, desta vez, além de machucar de verdade o dedão do pé não houve risos. Abre a porta do motorista, o alarme toca, pega a carteira, fecha porta, certifica-se de que os faróis estão apagados e pensa em levar o carro para uma revisão. Em meio a tantos pensamentos você bate exatamente o mesmo centímetro quadrado de dedão no mesmo centímetro cúbico de pedra. Segundo a matemática básica a dor dobra.

Absolutamente encharcado e provavelmente com uma unha a menos no pé direito você entra novamente no supermercado e procura o mesmo caixa, onde percebe que acabou de ser feita uma mudança de turno. Você tenta explicar a situação, ela pede pra que volte para o final da fila. Você volta mancando ao freezer, pega outro pote bem mais displicentemente e volta para a fila. Agora são cinco carrinhos, seis cestas e a energia acaba. A fila do caixa rápido já chegou ao açougue.

Trinta e dois minutos depois você finalmente consegue sair do supermercado com seu sorvete. A tempestade é incrível, mas você não desiste. Decide enfrentar a enxurrada até o carro. Você percebe que está chovendo em todas as direções, inclusive de baixo para cima. A força água leva um de seus sapatos, você corre atrás dele como se tivesse pés de pato, você alcança o sapato, volta para o carro e ouve novamente a mesma risada. Você agora está dentro do conforto de seu veículo, molhando todo o estofamento, e o carro não pega.

Uma pessoa de pouca fé já teria desistido, mas você não. Você é duro.

Finalmente você consegue fazer com que o carro funcione, durante a ré passa o pneu em cima do único centímetro pontiagudo da pedra que o perfura. Você segue a caminho de casa ouvindo algo sobre século, tempestade, maior. São palavras soltas para seus ouvidos seletivos. O carro apaga, o pneu murcha. Isso a vinte metros do portão do condomínio. Você decide que só quer chegar em casa e terminar sua noite como planejou, o carro se vê depois. Então você desce do veículo, a enxurrada tenta levar seus sapatos novamente, você empurra o carro até a garagem. Fica alguns minutos parado na chuva enquanto o portão emperra algumas vezes.

Você abre a porta de casa e quase se arrepende de ter comprado um cachorro ao invés de um hamster. O Boxer derrubou duas cadeiras, espalhou toda a água e ração pelo chão e arrancou a cortina, aparentemente em busca da lagartixa que segurava entre os dentes. Você leva um choque ao abrir a geladeira, coloca o sorvete no freezer, leva outro choque ao fechar. Tira a roupa encharcada, os sapatos importados, entra no chuveiro e prepara aquele delicioso banho quente. A energia acaba. E como você não quer esperar se arrisca no banho gelado mesmo. Dezesseis segundos após desligar o chuveiro a força volta e não cai mais.

Você veste sua roupa quente de ficar em casa, pega o sorvete, senta na frente da TV, coloca os pés em cima da mesa de centro e onde está o controle remoto? Você procura no sofá, nas estantes e o encontra na boca do cachorro, com algumas teclas ainda intactas. Não importa. Liga a TV e percebe que o programa acabou de terminar. Deixa em um canal qualquer que fala sobre a previsão do tempo. Você abre o pote de sorvete e na primeira colherada permanece alguns segundos imóvel, sem entender aquilo tudo, sem entender... 

Nesse momento você tem a maior revelação do dia. Você pensa. Você pensa de novo. Não faz diferença. E antes do piano cair na sua cabeça você diz: eu odeio sorvete de morango.

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