Tal de máscaras
Então. Tem uma japonesa tocando piano na minha frente. Ela deve ter uns quinze ou vinte dedos. Tem algumas coisas que eu não consigo descrever. Minha mente faz algumas associações que talvez não façam o menor sentido. Ela (minha mente) tem por hábito criar personificações para as coisas. Não há nada no mundo que, dentro da minha cabeça não seja outra coisa. É como se tudo fosse codificado, nada é o que parece ser, tudo é enevoado, sombrio e sem significado. Meu cérebro então se vê no dever de tornar as coisas mais simples de forma em que elas passem a ser, no mínimo, mais interessantes. Mas isso tudo me parece na verdade muito mais difícil do que aceitar que os dedos da pianista são os dedos da pianista ao invés de aranhas brancas com botas pretas se esforçando para se manter em pé sob uma camada molhada de gelo, ora deslizando com calma, ora patinando freneticamente. É claro que transformar dedos em aranhas não é o que se chama de personificação mas já disse que tem coisas que eu não consigo explicar.
Eu já estou cansada de repetir e saber o quanto é difícil ser eu. Viver presa dentro desse corpo e absolutamente limitada à algum tipo de lei, sejam as da física, as morais ou legislativas. O meu grande problema, doutora, é que tudo que eu faço eu faço consciente. Não há arrependimentos. Eu preciso te contar uma coisa fantástica - as pessoas possuem uma imagem inacreditável de mim. Para elas eu sou a personificação da calma, tranquilidade, bondade, caráter e blá. Vê isso? Porque você sabe bem que eu não sou assim. Estava meditando hoje sobre o assunto depois de ouvir, de alguém que me instiga bastante, meia dúzia dessas "qualidades". Sabe a que conclusão eu cheguei? De que a forma como essas pessoas me veem é apenas a forma como eu me mostro a elas. Muito óbvio, você dirá. É claro. É casca, é superfície. É de mentira, é de plástico. Mas o que eu estou tentando dizer é aquilo de fazer as coisas conscientemente. Nesse ponto eu, sinceramente, ACHO sim que sou diferente. Quer ver?
Nenhuma das pessoas que estão a minha volta acreditaria se eu dissesse que, veja que ridículo exemplo, eu grito. Que eu brigo, xingo, falo alto, ofendo, maltrato, ignoro... essas coisas que somente as pessoas sem todas aquelas maravilhosas qualidades que são atribuídas a mim poderiam fazer. Se eu dissesse pra alguém, por exemplo, que já quebrei quartos, usei droga, me feri fisicamente de forma intencional... bem, elas poderiam dizer num surto qualquer filho dos céus faria o mesmo. Num surto, numa TPM, no acúmulo de problemas. Lembra do "consciente"? Pois é. EU sei que isso não é verdade. Eu sei que isso é um hábito, isso faz parte de mim, fica escondido lá dentro, naquele lado escuro da lua, sabe? E é por isso, claro, que esse tipo de coisa não sai e nunca sairá da minha boca numa conversa despretensiosa de bar ou qualquer outra coisa assim. Até porque eu não sei falar sobre mim. E detesto. Porque não há nada de bom no meu passado que deva ser levado "ao grande público". Mas não era bem isso que eu queria dizer. Vou tentar de novo, ainda temos tempo.
Consciente. A consciência é o que torna o ser humano, humano. Os outros animais agem puramente por instintos e coisas do tipo. Sem culpa nem remorsos. Sem regras morais para lhes dizer o que é certo ou errado. Eles não precisam de máscaras. Eu sim. E é bem nesse ponto que eu queria chegar... Ai, as máscaras! A vestimenta fundamental para todo homem! Acontece assim: abro meu guarda-roupa e lá estão todas elas, uma para cada ocasião. A dos natais em família, as de entrevistas de emprego, a da faculdade, a máscara de fazer compras no mercado da esquina e aquela para jantar num restaurante de luxo. Tem uma para cada amigo, cada ambiente, cada momento. Como uma boa e disciplinada cientista que sou, mês passado fiz um teste para sustentar e alimentar meus conhecimentos empíricos - saí de casa sem máscara. É claro que não foi intencional, mas coloco dessa forma apenas a fim de deixar meu enredo mais interessante pra você. Está acompanhando? Ótimo.
Pois bem, sem máscara eu não tenho rosto, nem expressões, nem gestos. Não tem sorrisos nem rugas. Somente cansaço e frustração. E algo cinza. Ela deve estar doente, ouvi muito isso. Mas nada supera:
- Você não é mais você.
Eu fico aqui te contando essas coisas, sabe doutora, e rindo. Quando eu sou eu, não sou mais eu! Como explicar isso? Esse é exatamente o tipo de ironia paradoxal absurda que ninguém vê. Daí então chegamos a tal hipocrisia da coisa toda... De início é sempre a mesma história - eu sou falsa! Agora... como não ser? Nada pra mim é superficial, claro ou óbvio. Você sabe disso. E você sabe também quanto a minha profunda repulsa e nojo pelo ser humano, a minha vergonha agonizada de fazer parte dessa espécie de bicho. Por outro lado, você sabe o que eu quero e o que eu vim fazer nesse planeta, se lembra? Pois então... dizer o quanto é difícil ser eu faz todo sentido nesse momento. Eu preciso viver dentro dessa sociedade que eu abomino, que causa vômito, que dá alergia... para... você sabe o que me move... Dinheiro! Não dá para conquistá-lo sem ter de caminhar ao lado da pior invenção da natureza. Se por acaso eu ousasse ser eu de verdade todo o tempo, bem, ou já teria morrido ou viveria numa cabana no meio do algum deserto criando cabras e morando com um cachorro.
As máscaras... elas me ajudam a, principalmente, não matar e não morrer. E cada uma delas é carregada de uma hipocrisia e falsidade imensuráveis. Nossa, que horrível, não? Pois é. Te lembra do "consciente"? Vou te contar o que é FATO pra mim: todo mundo faz isso. Sem exceções. Alguns, num nível mais demoníaco e sociopata como eu. A diferença, doutora, é que eu sou aquele animal dotado de consciência. Certo ou errado, cada passo é bem sabido por mim. Então, enquanto escuto aquele monte de lixo que as pessoas falam e fazem e são, ao contrário de vomitar eu sorrio, ao invés de matar eu digo "tudo bem", antes de uma iminente eclampsia, um caloroso "boa noite". Quem consegue viver assim? Não se iluda, doutora. Quando eu falo de pessoas e mais pessoas, estou apenas usando isso como referencial e base para sustentar o que eu quero dizer, porque você sabe que eu não dou a mínima pra ninguém.
Essa conversa ficou bastante desconexa, eu confesso. Mas eu preciso dizer só mais uma coisa, uma última ironia, eu prometo. Imagine se eu dissesse essas coisas a alguém que acredita que eu sou a melhor pessoa do mundo? Depois da aceitação, o máximo que ela faria seria orar por mim... Se você procurar no dicionário a palavra "fraude" provavelmente encontrará uma foto minha ao lado do verbete. E enquanto isso no baile de máscaras e continuo levando como se nada acontecesse, no bom e velho estilo que me cabe. Porque pra mim o carnaval nunca acaba.
Nenhuma das pessoas que estão a minha volta acreditaria se eu dissesse que, veja que ridículo exemplo, eu grito. Que eu brigo, xingo, falo alto, ofendo, maltrato, ignoro... essas coisas que somente as pessoas sem todas aquelas maravilhosas qualidades que são atribuídas a mim poderiam fazer. Se eu dissesse pra alguém, por exemplo, que já quebrei quartos, usei droga, me feri fisicamente de forma intencional... bem, elas poderiam dizer num surto qualquer filho dos céus faria o mesmo. Num surto, numa TPM, no acúmulo de problemas. Lembra do "consciente"? Pois é. EU sei que isso não é verdade. Eu sei que isso é um hábito, isso faz parte de mim, fica escondido lá dentro, naquele lado escuro da lua, sabe? E é por isso, claro, que esse tipo de coisa não sai e nunca sairá da minha boca numa conversa despretensiosa de bar ou qualquer outra coisa assim. Até porque eu não sei falar sobre mim. E detesto. Porque não há nada de bom no meu passado que deva ser levado "ao grande público". Mas não era bem isso que eu queria dizer. Vou tentar de novo, ainda temos tempo.
Consciente. A consciência é o que torna o ser humano, humano. Os outros animais agem puramente por instintos e coisas do tipo. Sem culpa nem remorsos. Sem regras morais para lhes dizer o que é certo ou errado. Eles não precisam de máscaras. Eu sim. E é bem nesse ponto que eu queria chegar... Ai, as máscaras! A vestimenta fundamental para todo homem! Acontece assim: abro meu guarda-roupa e lá estão todas elas, uma para cada ocasião. A dos natais em família, as de entrevistas de emprego, a da faculdade, a máscara de fazer compras no mercado da esquina e aquela para jantar num restaurante de luxo. Tem uma para cada amigo, cada ambiente, cada momento. Como uma boa e disciplinada cientista que sou, mês passado fiz um teste para sustentar e alimentar meus conhecimentos empíricos - saí de casa sem máscara. É claro que não foi intencional, mas coloco dessa forma apenas a fim de deixar meu enredo mais interessante pra você. Está acompanhando? Ótimo.
Pois bem, sem máscara eu não tenho rosto, nem expressões, nem gestos. Não tem sorrisos nem rugas. Somente cansaço e frustração. E algo cinza. Ela deve estar doente, ouvi muito isso. Mas nada supera:
- Você não é mais você.
Eu fico aqui te contando essas coisas, sabe doutora, e rindo. Quando eu sou eu, não sou mais eu! Como explicar isso? Esse é exatamente o tipo de ironia paradoxal absurda que ninguém vê. Daí então chegamos a tal hipocrisia da coisa toda... De início é sempre a mesma história - eu sou falsa! Agora... como não ser? Nada pra mim é superficial, claro ou óbvio. Você sabe disso. E você sabe também quanto a minha profunda repulsa e nojo pelo ser humano, a minha vergonha agonizada de fazer parte dessa espécie de bicho. Por outro lado, você sabe o que eu quero e o que eu vim fazer nesse planeta, se lembra? Pois então... dizer o quanto é difícil ser eu faz todo sentido nesse momento. Eu preciso viver dentro dessa sociedade que eu abomino, que causa vômito, que dá alergia... para... você sabe o que me move... Dinheiro! Não dá para conquistá-lo sem ter de caminhar ao lado da pior invenção da natureza. Se por acaso eu ousasse ser eu de verdade todo o tempo, bem, ou já teria morrido ou viveria numa cabana no meio do algum deserto criando cabras e morando com um cachorro.
As máscaras... elas me ajudam a, principalmente, não matar e não morrer. E cada uma delas é carregada de uma hipocrisia e falsidade imensuráveis. Nossa, que horrível, não? Pois é. Te lembra do "consciente"? Vou te contar o que é FATO pra mim: todo mundo faz isso. Sem exceções. Alguns, num nível mais demoníaco e sociopata como eu. A diferença, doutora, é que eu sou aquele animal dotado de consciência. Certo ou errado, cada passo é bem sabido por mim. Então, enquanto escuto aquele monte de lixo que as pessoas falam e fazem e são, ao contrário de vomitar eu sorrio, ao invés de matar eu digo "tudo bem", antes de uma iminente eclampsia, um caloroso "boa noite". Quem consegue viver assim? Não se iluda, doutora. Quando eu falo de pessoas e mais pessoas, estou apenas usando isso como referencial e base para sustentar o que eu quero dizer, porque você sabe que eu não dou a mínima pra ninguém.
Essa conversa ficou bastante desconexa, eu confesso. Mas eu preciso dizer só mais uma coisa, uma última ironia, eu prometo. Imagine se eu dissesse essas coisas a alguém que acredita que eu sou a melhor pessoa do mundo? Depois da aceitação, o máximo que ela faria seria orar por mim... Se você procurar no dicionário a palavra "fraude" provavelmente encontrará uma foto minha ao lado do verbete. E enquanto isso no baile de máscaras e continuo levando como se nada acontecesse, no bom e velho estilo que me cabe. Porque pra mim o carnaval nunca acaba.
![]() |
| Dói um pouco. Mas é um alívio quando sai de mim. |

Pronto,nós já tivemos essa conversa antes,AS PESSOAS NÃO CONSEGUEM lidar com a verdade o tempo inteiro,elas PRECISAM que vc minta para elas um pouco,Use Maquiavél,pois vc PRECISA de outras pessoas,nem que seja para plantar e colher a comida pela qual vc paga...
ResponderExcluirTenho passado por aqui inúmeras vezes, sempre aguardando algo que vc tenha feito, ou pensado ou escrito... e como sempre lhe disse - espero que vc sempre se lembre - adoro o que vc escreve. Acho que depois de tanto tempo, de tantas coisas ditas, ou não... olhando esse blog (que abro quase diariamente)queria poder escrever como vc...Pra tentar te fazer entender algumas coisas.. minhas palavras não são, nunca serão suficientes. Espero que esteja bem...
ResponderExcluir