Tal de glúten
Então. Há alguns anos atrás tive uma epifania dentro de um supermercado. Tudo aconteceu na sessão dos doces e biscoitos. Como de costume, estava eu pacientemente analisando produto por produto, verificando sua data de validade quando percebi algo incrível. Tudo que eu colocava dentro do carrinho de compras possuía um impresso bem grande ao lado do rótulo, algo que todos precisavam saber antes de levar aquele item para casa, algo sem o qual o faria perder o sono a noite - Não contém glúten. Essas três palavras me intrigaram. Como não têm glúten? Como nada têm glúten? Porquê? Isso porque eu nem sabia o que era esse negócio... pior ainda! Como esses fabricantes me privam de uma coisa que eu nem sei o que é? E se for bom? Eu quero um glúten! Eu reivindico meu direito como cidadã de poder decidir se o alimento que eu como pode ou não conter esse... mas o que é mesmo essa porra?
O que se sabe - é uma proteína criada a partir de outras proteínas encontradas de forma natural em alguns cereais e blá blá blá, ou seja, chato! O que EU sei - é a melhor coisa do mundo! E provavelmente, depois da internet da máquina de lavar, é a maior invenção do homem! É sério, exageros à parte, vou tentar fazer com que você entenda do que exatamente eu estou falando... Naquele dia mesmo comecei minha romaria dentro do supermercado atrás do 'my precious'... O que eu buscava? Você sabe bem... eu queria encontrar um pacote de meio quilo desse negócio e devorar! Não me importaria o preço ou se minhas veias ficassem entupidas e eu morresse lenta e dolorosamente... correria o risco para degustar um suculento glúten! Quem sabe não encontraria de vários pesos e sabores? Quem sabe um glúten de chocolate com ameixa? Ou de maracujá com recheio de limão? É, mas você sabe que eu não encontrei isso numa prateleira de supermercado. Nem em qualquer outro canto que buscasse. Mas que merda! Mas aí passou.
Até que um belo dia estava eu no ambiente onde todas as perguntas são respondidas e todos os mistérios do universo desvendados - debaixo do chuveiro. Pois é, e naquele clima de contemplação aos segredos da mente humana tive o que posso chamar de segunda parte dessa epifania, inicialmente, de forma simples. Mas quanto mais eu pensava mais a coisa toda fazia mais sentido. Veja bem, tudo que é bom tem glúten. Chocolate, cerveja, a maioria de tudo que vem enlatado e pronto pra comer, alguns iogurtes, requeijões, bebidas com leite, macarrão, salgadinhos, maionese, ketchup, doces, lanches gordurosos, fritos e de origem duvidosa que você come em quiosques na rua... Percebe isso? O problema é que algumas pessoas de mala suerte nascem ou adquirem, sei lá, uma intolerância, uma alergia, propriamente dizendo, a essa proteína. Que pena! Essas pessoas infelizes vivem uma vida a base de arroz, alimentos caseiros, frutas e verduras, e provavelmente aquelas barras de cereais orgânicas com gosto de ração de cavalo.
Pensando mais profundamente na coisa toda eu cheguei à conclusão de que definitivamente tudo na vida, tudo mesmo deveria vir com esse rótulo e que todas as coisas podem ou não conter glúten. Como assim? Veja bem, meu emprego definitivamente não contém glúten - sem graça, sem sabor, me dá dor de cabeça e ainda custa pra ser digerido. Uma noite com os amigos é como um saco de cinco quilos de puro glúten - me deixa de barriga cheia, mente saudável, levemente alcoolizada e completamente satisfeita. Percebe? O glúten não está presente apenas naquilo que te alimenta literalmente, mas naquilo que te mantém são e vivo com todo o resto de você mesmo. Eu temo que se esse negócio fosse descoberto o glúten entraria para a lista de entorpecentes mais traficados e contrabandeados do planeta.
A Organização Mundial da Saúde, como todos esses outros órgãos 'caga-regras', sempre tão preocupada com nossa saúde podre, bem que poderia divulgar uma lista com os milhares de itens portadores da proteína da felicidade. Quer ver um exemplo? Eu sei que não, mas eu vou dizer assim mesmo, com licença. Contém glúten - rock'n roll, cheiro de livro, acordar ao meio dia no domingo, Chico Buarque, encontrar dinheiro no bolso da calça, macarrão com carne moída acompanhado de suco de maracujá, equações matemáticas, gargalhar com seu melhor amigo até perder o fôlego de uma piada estupidamente sem graça, ler ou ouvir algo e saber que você entendeu exatamente tudo que foi dito, orgasmo, lamber a tampa metálica do iogurte, pé de manga, internet, roupas limpas, liberdade de expressão... e é claro que essa lista tende ao infinito.
Agora um pequeno exemplo de coisas que não contém glúten - gente que fala alto, Luan Santana, ônibus lotado em dia de chuva, programação de tv aberta, calor, insônia, Paulo Coelho, fanáticos, seu chefe, pessoas que acreditam que ecobags irão salvar o planeta, ler 'Você quis dizer' depois de fazer uma pesquisa no Google, horário de verão, politicagem, funk, fila de banco, moralismo, Windows Vista, velar gente morta, jiló, cheiro de esgoto, gente burra, telemarketing, meu salário, preconceito, tubarão, revista Veja, pessoas que não fazem a mínima ideia do que eu estou falando nesse post... e novamente, não precisa nem dizer, mas essa lista também tende ao infinito e além.
Pensa bem em como seria perfeito se todas as coisas do mundo viessem rotuladas com esse selo de acordo com sua ideia de glúten? Pregado na testa daquela pessoa no primeiro encontro ou nas especificações técnicas do eletrodoméstico que você vai comprar. Impresso no balcão da empresa aérea onde irá comprar as passagens ou no contrato da empresa de seguros que você contratou para seu carro. Claro que isso iria facilitar bastante sua vida, mas tem um detalhe, sem glúten, que você precisa saber - isso acabaria com todas as surpresas, imprevistos e contratempos; estes que por sua vez são repletos de deliciosos glútens do improvável. Sendo assim, de acordo com esse paradoxo 'gluténico', é melhor que as coisas permaneçam mesmo do mesmo modo.
Esqueça aquele papo de que glúten é coisa do capeta, que vira chiclete no seu estômago, gruda no seu intestino e que você irá morrer com veias entupidas. E se isso acontecer de fato o problema é todo seu. Não estou fazendo apologia ao consumo de um componente alimentar potencialmente perigoso... estou, no mínimo, te mostrando outra realidade atrás daquilo que todo mundo diz ser o monstro do lago Ness... E como esse é o primeiro post do ano o que me resta é lhe desejar um feliz an- ah, você não acreditou mesmo que eu ia dizer isso, não é? O que eu desejo mesmo é uma vida inteira repleta de glúten! Tá agradecendo por quê? Tô falando de mim. Ora, onde já se viu...
O que se sabe - é uma proteína criada a partir de outras proteínas encontradas de forma natural em alguns cereais e blá blá blá, ou seja, chato! O que EU sei - é a melhor coisa do mundo! E provavelmente, depois da internet da máquina de lavar, é a maior invenção do homem! É sério, exageros à parte, vou tentar fazer com que você entenda do que exatamente eu estou falando... Naquele dia mesmo comecei minha romaria dentro do supermercado atrás do 'my precious'... O que eu buscava? Você sabe bem... eu queria encontrar um pacote de meio quilo desse negócio e devorar! Não me importaria o preço ou se minhas veias ficassem entupidas e eu morresse lenta e dolorosamente... correria o risco para degustar um suculento glúten! Quem sabe não encontraria de vários pesos e sabores? Quem sabe um glúten de chocolate com ameixa? Ou de maracujá com recheio de limão? É, mas você sabe que eu não encontrei isso numa prateleira de supermercado. Nem em qualquer outro canto que buscasse. Mas que merda! Mas aí passou.
Até que um belo dia estava eu no ambiente onde todas as perguntas são respondidas e todos os mistérios do universo desvendados - debaixo do chuveiro. Pois é, e naquele clima de contemplação aos segredos da mente humana tive o que posso chamar de segunda parte dessa epifania, inicialmente, de forma simples. Mas quanto mais eu pensava mais a coisa toda fazia mais sentido. Veja bem, tudo que é bom tem glúten. Chocolate, cerveja, a maioria de tudo que vem enlatado e pronto pra comer, alguns iogurtes, requeijões, bebidas com leite, macarrão, salgadinhos, maionese, ketchup, doces, lanches gordurosos, fritos e de origem duvidosa que você come em quiosques na rua... Percebe isso? O problema é que algumas pessoas de mala suerte nascem ou adquirem, sei lá, uma intolerância, uma alergia, propriamente dizendo, a essa proteína. Que pena! Essas pessoas infelizes vivem uma vida a base de arroz, alimentos caseiros, frutas e verduras, e provavelmente aquelas barras de cereais orgânicas com gosto de ração de cavalo.
Pensando mais profundamente na coisa toda eu cheguei à conclusão de que definitivamente tudo na vida, tudo mesmo deveria vir com esse rótulo e que todas as coisas podem ou não conter glúten. Como assim? Veja bem, meu emprego definitivamente não contém glúten - sem graça, sem sabor, me dá dor de cabeça e ainda custa pra ser digerido. Uma noite com os amigos é como um saco de cinco quilos de puro glúten - me deixa de barriga cheia, mente saudável, levemente alcoolizada e completamente satisfeita. Percebe? O glúten não está presente apenas naquilo que te alimenta literalmente, mas naquilo que te mantém são e vivo com todo o resto de você mesmo. Eu temo que se esse negócio fosse descoberto o glúten entraria para a lista de entorpecentes mais traficados e contrabandeados do planeta.
A Organização Mundial da Saúde, como todos esses outros órgãos 'caga-regras', sempre tão preocupada com nossa saúde podre, bem que poderia divulgar uma lista com os milhares de itens portadores da proteína da felicidade. Quer ver um exemplo? Eu sei que não, mas eu vou dizer assim mesmo, com licença. Contém glúten - rock'n roll, cheiro de livro, acordar ao meio dia no domingo, Chico Buarque, encontrar dinheiro no bolso da calça, macarrão com carne moída acompanhado de suco de maracujá, equações matemáticas, gargalhar com seu melhor amigo até perder o fôlego de uma piada estupidamente sem graça, ler ou ouvir algo e saber que você entendeu exatamente tudo que foi dito, orgasmo, lamber a tampa metálica do iogurte, pé de manga, internet, roupas limpas, liberdade de expressão... e é claro que essa lista tende ao infinito.
Agora um pequeno exemplo de coisas que não contém glúten - gente que fala alto, Luan Santana, ônibus lotado em dia de chuva, programação de tv aberta, calor, insônia, Paulo Coelho, fanáticos, seu chefe, pessoas que acreditam que ecobags irão salvar o planeta, ler 'Você quis dizer' depois de fazer uma pesquisa no Google, horário de verão, politicagem, funk, fila de banco, moralismo, Windows Vista, velar gente morta, jiló, cheiro de esgoto, gente burra, telemarketing, meu salário, preconceito, tubarão, revista Veja, pessoas que não fazem a mínima ideia do que eu estou falando nesse post... e novamente, não precisa nem dizer, mas essa lista também tende ao infinito e além.
Pensa bem em como seria perfeito se todas as coisas do mundo viessem rotuladas com esse selo de acordo com sua ideia de glúten? Pregado na testa daquela pessoa no primeiro encontro ou nas especificações técnicas do eletrodoméstico que você vai comprar. Impresso no balcão da empresa aérea onde irá comprar as passagens ou no contrato da empresa de seguros que você contratou para seu carro. Claro que isso iria facilitar bastante sua vida, mas tem um detalhe, sem glúten, que você precisa saber - isso acabaria com todas as surpresas, imprevistos e contratempos; estes que por sua vez são repletos de deliciosos glútens do improvável. Sendo assim, de acordo com esse paradoxo 'gluténico', é melhor que as coisas permaneçam mesmo do mesmo modo.
Esqueça aquele papo de que glúten é coisa do capeta, que vira chiclete no seu estômago, gruda no seu intestino e que você irá morrer com veias entupidas. E se isso acontecer de fato o problema é todo seu. Não estou fazendo apologia ao consumo de um componente alimentar potencialmente perigoso... estou, no mínimo, te mostrando outra realidade atrás daquilo que todo mundo diz ser o monstro do lago Ness... E como esse é o primeiro post do ano o que me resta é lhe desejar um feliz an- ah, você não acreditou mesmo que eu ia dizer isso, não é? O que eu desejo mesmo é uma vida inteira repleta de glúten! Tá agradecendo por quê? Tô falando de mim. Ora, onde já se viu...
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| Moço, me vê meio quilo aí, por favor? |

To começando a achar que vc leva jeito pra esse negocio de escrever, seus textos tem me lembrado os da Martha Medeiros, que ja disse que ...Há demônio no rock, em todas as bandas.
ResponderExcluirHá demônio no vinho, falta no clericot. Há demônio no jeans, falta no linho. Há demônio nas fotos preto e branco.
Há demônio no cinema, não há na televisão. Há demônio em livros, não há em revistas. Há demônio em Picasso, Almodóvar, Wagner, Janis Joplin. Há demônio na chuva mais do que no sol, há demônio no humor e na ironia, nenhum no pastelão...( penso que há demonio no gluten ou vice-versa) O grande problema é que eu sempre achei ela otimista e ai vem vc e me faz pensar que ou eu to achando errado dela ou de vc. Confesso que seria mais legal se fosse de voce! Adryan
Eu acho que no final das contas os demônios da Martha e os meus glútens são a mesma coisa... Li o texto completo e achei maravilhoso!
ResponderExcluirE esse lance de otimismo e pessimismo... o pessimismo é uma droga alucinógena, deve ser usado em pequenas doses e recomendado apenas à especialistas solitários crônicos... até porque causa dependência e pode levar à morte.
Mas mesmo assim eu ainda acredito que é possível encontrar o lado bom de todas as coisas, até mesmo do glúten. Tudo tem dois lados, pode ser visto por outro ângulo, sob outra perspectiva. Tudo mesmo. Sacou?