# Metade da Metade #
Certa vez me peguei olhando no espelho tão profundamente, olhando minha cara amassada que nem percebi o tempo passar. O tempo de ficar em pé na frente do espelho e o tempo de tempo mesmo. No meio de toda aquela escultura surrealista que era refletida, bem na frente dos meus olhos um cabelo branco surge do nada na minha cabeleira. Um fio solitário e choroso, espremido entre tantos outros invejosos. Eu realmente não acreditei naquilo que estava vendo. Um cabelo branco logo na minha cabeça, com tantas cabeças que existem por aí. É claro que para deixar a história assim, mais emocionante, eu preciso aumentar algumas coisas. Não era assim algo que se diga nossa, mas como era branco esse cabelo e tal... estava mais para o lado de um castanho bem claro, um louro encardido, uma cor indefinida que definitivamente se tornaria totalmente branca se permanecesse mais um dia na minha cabeça. Arranquei-o imediatamente e dali em diante começou a 'caçada à lenda do cabelo branco perdido'.. mas aparentemente era o único. Até aquele dia. Eu tinha dezessete anos.
Esse fato serviu somente para reafirmar todo o meu complexo de idade. É como se eu já tivesse nascido velha e a cada ano aumentassem dez. E se a quantidade de cabelo branco crescer a essa velocidade aos trinta não sairia mais de casa e aos quarenta provavelmente me mataria. O que eu não posso acreditar é que tudo o que eu sou, tudo o que eu fiz para me tornar essa pessoa desprezível se resuma a fios brancos de tecido morto em cima da cabeça.
Depois de tantos desses anos eu poderia tentar prever e premeditar o meu incerto futuro, mas acredito que seja melhor conferir o passado porque é lá que encontram os motivos, os porquês. O sentido do meu futuro se encontra sujo no meu passado, e o meu presente é apenas um lapso do caos que é a minha vida. Vejamos então o que eu aprendi até hoje e vejamos também se esse monte de informação serve para alguma coisa.
Aprendi que coisas eletrônicas são potencialmente explosivas, mais do que você e o vendedor da loja de eletrodomésticos imaginam. Descobri que pessoas com curso superior também cometem erros de português. Tive certeza de que não se pode discutir com advogados, médicos, psicólogos, filósofos, bêbados, religiosos, fanáticos, cachorros, bebês e corinthianos. Percebi que a solidão não é tão legal e confortável como eu pensava.
Me certifiquei de que as pessoas só tem valor se tiverem dinheiro. Com muita tristeza descobri que a hipocrisia e a maldade fazem parte da natureza humana, e que por mais que eu te abomine eu preciso apertar, balançar sua mão e sorrir se eu quiser continuar vivendo. Percebi que o lucro é alma do negócio e definitivamente não importa o que você faça para alcançá-lo, o importante é chegar lá. Aprendi algo sobre redes de computadores e temo nunca mais esquecer isso.
Aprendi que dentro daquela piada chamada 'faculdade' o que te salva são os amigos que faz por lá, e que nenhuma matéria será pior que a do próximo semestre. Descobri que algumas coisas que eu amo também enjoam, como sexo e chocolate. Descobri que amor é o pior paradoxo de todos; o inferno e a salvação, e que por mais que a paixão seja um porre, um calvário amargo e inevitável, possui doses generosas e necessárias de endorfina.
Tive que aceitar que dinheiro não cai do céu, não dá em árvore nem é levado pela fada do dente. Percebi que o clima mudou e que não dá mais para fritar ovo no asfalto em setembro. Descobri que toda mãe com certeza é bruxa ou algo do tipo, capaz de sentir sua dor a quilômetros de distância e ler seus pensamentos depois de um simples alô.
Tô percebendo o quanto uma noite mal dormida faz mal a minha saúde. E o quanto as frituras, gorduras trans, glúten e cerveja também. Descobri que, de alguma forma muito estranha, existe vida sem internet. Descobri que o melhor amigo do homem é sua solidão, depois o cachorro. Percebi que informação é passageira, conhecimento é relativo e sabedoria não existe.
Descobri que nenhuma informação é inútil quando se está bêbado, e que nesse momento a "quantidade de glândulas salivares do mamute albino da montanha fria" fazem toda diferença. Tive absoluta certeza de que nada é perfeito, nem a própria natureza.
Ahh mas é tanta coisa... hoje eu sei o significado de superavit, glúten, cristianismo, drogas, nanotecnologia, guerra, centrífuga, vácuo, tempo, amor, passado, embreagem, solidão e fatos.
Fico pensando em como será esse texto daqui a vinte e cinco anos... (espero que não seja nada parecido com esse lixo!) quando chegarei à metade, a metade de cem, a famigerada metade de um século. Certamente em mais vinte e cinco anos de vida eu estarei bem pior, vinte e cinco anos mais insuportável, mais rabugenta e mais solitária. Meu cérebro já está sendo programado para isso, para o inevitável. E como todos nós estamos em constante movimento e mutação, aos cinquenta ainda não sei dizer quem serei, mas hoje... quem eu sou? Eu sei. EU - sou apenas uma pronome pessoal do caso reto.
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| O pior são as rugas. Minha testa e minhas mãos já estão repletas delas. |

Tem certeza q não dá já pra colocar a sua psiquiatra no colo, e explicar a ela as coisas da vida ?
ResponderExcluirSempre é legal te ler... essa passagem sua, vou destacar pois estou na fase da fascinação, de querer me apaixonar pelas coisas da vida (só q vem desde criança, ainda não amadureci! rsrs):
"e que por mais que a paixão seja um porre, um calvário amargo e inevitável, possui doses generosas e necessárias de endorfina."
Muito bom ler as bobagens que vc escreve! Flw vlw. Anonímio.
...a "quantidade de glândulas salivares do mamute albino da montanha fria" fazem toda diferença... Como isso tudo sai da sua cabeça? Adryan
ResponderExcluirA pergunta não é 'como isso pode sair da minha cabeça'... mas 'como ninguém mais pensa nessas coisas?'!
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