Tal de futebol

Primeiramente devemos evitar a fadiga.


- Porque você ficou tanto tempo sem postar nada?
- Porque eu quis.


Pronto. Vamos ao post.




Então. Esse é um daqueles assuntos que sua mãe ensina a você quando é criança que não deve ser discutido em nenhuma hipótese.

- Meu filho, nunca discuta sobre futebol, religião e política. E se realmente for necessário, tente ser o mais imparcial possível.

Pois é. Você obviamente não deu ouvidos a mamãe. Vivemos num país filhadaputamente falso moralista com suas religiões "não-praticantes", sem nenhuma consciência política mas... time de futebol todo mundo tem. Oh god... Eu vou tentar explicar a você porque eu definitivamente odeio futebol. Mas primeiramente é bom lembrar que todo esse meu ódio nada tem a ver com o esporte. Inclusive, eu costumo dizer que futebol é o esporte mais difícil do mundo porque eu jamais conseguiria correr atrás de uma bola durante noventa minutos numa área de aproximadamente seis mil metros quadrados... pensa? Sem contar toda a habilidade e o famoso talento que o ser humano precisa para praticar o esporte. Pode ter certeza que, quando eu não tiver nada mais valioso pra fazer, sinto prazer em sentar na frente da tv e assistir uma partida de futebol, sozinha claro. Porque está aí, justamente aí todo meu problema - o clã do satanás chamado torcida.

Existe algo realmente diabólico dentro do ser humano que não permite que ele consiga separar coisas e sentimentos. Isso faz parte da nossa natureza podre que não nos deixa avaliar as coisas com distanciamento. Não. Se você ama, não basta ser cúmplice; se você segue alguma doutrina, não basta fazer o bem e tentar salvar o mundo; se você milita em algum partido político, não basta tentar mudar e melhorar sua comunidade; se você tem algum time de futebol não basta torcer... não! Em todas as áreas você precisa ser um merda duma porra dum fanático de bosta! Quando eu toco nesse assunto minhas veias saltam... 

O senso comum afirma que as pessoas mudam através de um processo de evolução. Houve uma época em que se me perguntassem qual era o problema do Brasil eu respondia: corrupção. Isso quando era adolescente ainda. Mas depois de estudos, experiências e a tal evolução natural percebi que a educação é a causa do caos. Nesse mesmo passado, em relação a pergunta de qual a coisa que eu mais repudio no mundo, minha resposta era: hipocrisia. Mas quanto mais aprendo com a razão e com o conhecimento empírico percebo que todo meu nojo recai sobre o fanatismo.

Obviamente você que está lendo isso agora é uma pessoa muitíssimo inteligente, culta e... peraí, não tem ninguém lendo isso... foda-se! Pois bem, mas o que eu quero falar é que nem é preciso dizer a você que o fanatismo é provavelmente o sentimento que torna as pessoas mais burras em menos tempo. E perceba que eu falo de burrice mesmo. Existe um abismo de diferença entre ignorância e burrice e a burrice é um câncer que mata e devasta todo o bom senso e a capacidade crítica do ser humano. O fanatismo nos torna cegos, burros e incrivelmente intolerantes. Os fanáticos são dogmáticos, não possuem o menor senso crítico e o pior - além do fato de adotarem uma doutrina, conduta ou ideia para si e se fecharem absolutamente para novos conhecimentos tornam-se obcecados a tal ponto de tornarem-se violentos e totalmente intolerantes àqueles que vão contra sua linha de raciocínio, além ainda de tentar te convencer de que você está errado! Ai, como eu amo essas pessoas... mas do que eu estava falando mesmo? Ah, sim. Futebol. Voltemos então. 

Ai Larissa, mas você é muito chata mesmo, não gosta de nada, só sabe falar mal das coisas e blá blá blá. Olha, antes de você começar a babar por aí devo te lembrar que o que eu falo eu falo com conhecimento de causa. Vou te contar uma breve historinha da minha vidinha... Era uma vez... eu. Daí como todas as outras pessoas ensandecidas no mundo tinha lá meu time do coração, pelo qual eu comprava camisas caras, ia a todos os jogos, participava de discussões lamentáveis sobre qual time era melhor e cheguei a um ponto de pintar metade do meu quarto da cor do maldito time, acredita? Sério, eu fiz isso. E isso não tem graça! Então um belo dia eu levei um soco na cara. Não literalmente, claro. Estávamos papi e eu no estádio assistindo a final do campeonato estadual. Meu pai, pra variar, da torcida adversária. É bom lembrar que estavam disputando a taça as duas maiores torcidas do estado. Ok, o jogo acabou, meu time mais uma vez tinha sido campeão em cima do seu maior rival e eu, bem, eu estava, digamos, fora do meu corpo. Totalmente louca e rouca.


Sempre esperávamos as torcidas organizadas irem embora para podermos sair do estádio sem correr o risco de morrer no percurso até o carro. Eu, com minhas bandeiras e camisa do time toda suada passava naquele momento pela setor onde ficava a torcida do time perdedor. Tinha algumas dezenas de pessoas ainda por ali mas nenhuma me chamou tanto a atenção quanto uma menina, dos seus dezessete, dezoito anos, sentada na arquibancada, chorando. Mas não era um choro desses quaisquer. Com a camisa do seu time nas mãos ela soluçava e perdia a respiração antes de mergulhar de novo no choro convulso. Ela estava em prantos de uma tal forma como se perdera um ente querido ou como se uma parte dela morrera ali, no gramado do campo. Emanava dessa menina uma dor tão grande, meu amigo, mas tão grande que por alguns segundos confesso ter ficado sufocada.


E ela ali, chorando pelo time que perdeu para o meu time... toda minha alegria e satisfação acabaram imediatamente. E foi algo tão profundo e incomum que eu me senti totalmente culpada por aquele choro. Totalmente culpada! Mas claro, era minha culpa! Eu é quem estava lá gritando e vibrando e balançando bandeiras e comemorando gols... a culpa era toda minha e não havia nada que eu pudesse fazer para reparar o meu erro. Foram alguns segundos em câmera lenta caminhando ao lado da menina, mas me pareceram horas num percurso de culpa e desencanto. Ao chegar em casa, sem o habitual sorriso de alegria carimbado na cara eu fui fazer o que, modéstia parte, faço de melhor - pensar. Ah... e sabe? Quanto mais eu pensava e me distanciava daquele sentimento de obsessão por uma camisa mais eu percebia o quanto eu estava sendo simplesmente ridícula! Nada, absolutamente nada poderia justificar permanecer e gostar de permanecer cega e totalmente alienada à algo que não me trazia nenhum benefício direto.

Daquele dia em diante, mesmo meu time estando numa sequência de vitórias de quatro campeonatos estaduais seguidos, fui cada vez mais me afastando da torcida, mas não do esporte, como já disse antes. Até que eu cheguei naquele ponto de total distanciamento e, consequentemente, discernimento. Eu não estou dizendo aqui, criança, que é burrice torcer pra time de futebol e não sei mais o que. O que eu estou tentando falar é que tudo deve correr de forma saudável. Você sabe o que é isso? É não morrer pelas coisas! É não permitir que nada afete sua vida de forma incontrolável. Não permitir que exista algo seja mais importante que outra coisa. É equilíbrio. Vamos à prática. Dia desses estou linda e loira na faculdade quando chega um cidadão perguntando como ele poderia fazer uma segunda chamada de uma prova que perdeu.


- Ué, você precisa ir ao NAE e fazer a solicitação. Sei que custa R$50,00.
- 50? Nossa, caro demais!
- Pois é. Ficou preso no trabalho?
- Não, tive que ir ver o ********.


Você percebe isso? Percebe o verbo que o cidadão usou? Ele não 'teve' que fazer uma prova no curso de graduação que paga caro. Não. O que ele 'teve' que fazer é ir ao estádio de futebol assistir a partida na hora da prova. Maldita prova que é bem no horário do jogo, não é mesmo? Ah esses professores são bem sacanas, ouvi dizer que fazem de propósito, dá pra imaginar? Olha, cada um com suas prioridades. A minha é o desapego. O fanatismo, na melhor das hipóteses, torna você, no mínimo, irresponsável.  Você nunca (mais) me verá morrer por nada nesse mundo. E se por acaso eu começar a me empolgar demais com algo te libero pra socar minha cara! 

Fanatismo. Porque pensar dói.

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