# A Abdução #

Então eu percebi que estava num supermercado, que aliás sabia o nome e tudo mais, mas nesse exato momento eu não me lembro. Estava na seção de frutas e verduras, em frente as melancias. No segundo seguinte já estava dentro de um coletivo, mas foi tudo muito rápido. Era uma festa, na casa de alguém no mínimo muito rico, ou seja, nada de ser colega de trabalho... Eu não sei de quem era aquela casa maravilhosa, mas não importa, estava lá tomando uma latinha do lado de uma churrasqueira e em frente uma piscina, provavelmente semi-olímpica. Era imensa, mas era noite. O que tem a ver? Tubarões. Bom, vamos continuar.

Eu me lembro que era uma casa imensa, com vários ambientes, mas nada de detalhes porque minha visão estava mesmo focada na churrasqueira e na piscina, e no céu. Já falei que era noite? Então começou assim, me lembro de perceber uma certa comoção ao meu lado, meu lado esquerdo que era onde estava a churrasqueira de pedra, e do lado desta uma grande mesa de madeira. Mas nada era mais importante naquele exato momento do que as luzes que eu vi no céu. Eram grandes bolas prateadas. Sem emendas nem riscas, uma bola provavelmente de aço ou coisa parecida, interiça, fazendo gracinha. Eram cinco, as grandes, eram cinco. Tinham outras menores mas quando eu apuro minha memória pra esse fato eu me lembro que as outras menores eram lançadas pelas maiores. E esses globos ficaram por pelo menos um minuto ar fazendo acrobacias ali perto da piscina, no alto. E era um sincronismo, por falta de trocadilho melhor, mais que perfeito. Da parte que me consta o que eles estavam fazendo era algum tipo de reconhecimento, fazendo sinal através de algum código incompreensível por minha ignorância terráquea.

E foi assim, do nada e inexplicavelmente, que aconteceu o primeiro contato. E do mesmo nada eles invadiram a casa. Nesse momento então eu percebi o motivo da comoção ao meu lado. É que por sobre a mesa que disse, antes das acrobacias luminosas no céu, haviam estacionado por ali outros globos prateados que se juntaram aos seus amigos depois da entrada triunfal. Então eles correram para dentro de casa numa velocidade que mesmo que eu quisesse não saberia descrever. E todos correram juntos, todas as pessoas que estavam na casa, congestionando portas e corredores para ver o que estava acontecendo. Eu corri junto, claro.

Chegando na porta de um dos quartos, onde as bolinhas de um metro de diâmetro entraram, percebi algo, no mínimo, curioso. Depois de uma mega-mini explosão de luz, todas as esferas se desfizeram e se personificaram em... humanos! E a graça de tudo é que todos eles falavam inglês... Sacanagem. Os caras viajam milhões e milhões de anos luz, pousam em nossa terrinha e nem pra aprender nosso idioma! Enfim. Eram em sua maioria homens com papeis e papeis nas mãos. Alguns em pé com pastas e pranchetas e outros sentados atrás de uma mesa fazendo algo que não me lembro bem. Quando eu olhei aquilo eu me vi diante de uma repartição pública intergaláctica. Mas aí aconteceu assim. (Risos) Eles estavam com umas... (risos) fotos 3X4 nas mãos... e passavam de uma para outra, procurando. É engraçado que eu não achei nada daquilo estranho, era tudo muito normal, como se acontecesse todos os dias. Então um deles parou em uma das imagens e disse um nome. Mas eu estou me esquecendo de algo aí, eu acho. Minha memoria ficou muito perturbada depois disso. Me esqueci de dizer por exemplo que havia alguém dizendo alguma coisa pra mim, algo sobre esperar minha vez. E também as esferas humanas lá dentro do cômodo falavam e falavam conosco, em inglês, e de alguma forma muito estranha eu entendia tudo perfeitamente. E olha que eu nem tive que pedir pra eles falarem more slowly.

Então chegou minha vez. E você nem imagina o que aconteceu. Enquanto um deles repassava as fotos em miniatura eu vi uma imagem minha, e foi justamente nessa que ele parou. Mas não era eu, era o prodigialis! (Risos e mais risos) Como assim, cara? O prodigialis? Mas que merda é essa que acontece no espaço? E eu acreditava que essas coisas aconteciam apenas em repartições públicas da Terra mesmo. E você não sabe o pior – era um prodigialis de batom. (Risos e mais risos) E eu não to achando a menor graça! Mas enfim, me chamaram – Larissa, e olharam em direção a porta, para o grupo de cabeças que pairavam por ali. Eu entrei no quarto e não fazia a menor ideia do que estava acontecendo ainda. Como sempre, meu cérebro demora mais do que o normal para raciocinar diante de coisas novas. Então um rapaz jovem com um sorriso comovente nos lábios me fala alguma coisa e o que eu entendi foi – segundo grau completo? (Risos risos risos) Ele estava com um documento em mãos, igualmente em inglês e me lembro de ver meu nome escrito nele. Eu disse sim, ele perguntou ainda mais alguma coisa e depois disse é isso mesmo? É isso mesmo, respondi. Então, com outro sorriso ele fez sinal com as mãos e continuou falando mais alguma coisa. Antes do próximo parágrafo devo dizer algo que me lembrei agora, e que talvez seja importante. Também em cima da mesa, em uma das fichas e formulários vi um documento de um cadastro que fiz em um site sobre um livro que pedi online. Livro esse que trata sobre a possibilidade do fim do mundo por um asteróide chamado... ah, eu não vou dizer isso, você vai rir muito de mim. Próximo.

O negócio é que de tudo que eu entendi eu entendi por osmose. Em cima da mesa haviam três tubos compridos e transparentes de luz e dentro deles um fio que seguia sua altura irradiando algo que parecia ser pequenos jatos de raios. Ele pediu pra eu colocasse as mãos sobre um dos tubos e fechasse os olhos. E falou também sobre a possibilidade de haver uma ardência no meu rosto. Naquele momento eu entendi tudo. Peguei meu celular desesperadamente para me despedir, ele não deixou. E dessa parte pra frente foi tudo muito intenso. Ele dizia que não, que não havia tempo para despedidas. Isso tudo numa calma e numa paciência incomum. Eu realmente fiquei desesperada porque eu não poderia simplesmente sumir sem que as únicas pessoas do mundo com quem eu realmente me importo ouvissem minhas últimas palavras. De todas as pessoas que estavam naquela casa, na suposta festa, havia uma em especial que eu conhecia muito bem e que naquele momento estava dentro do quarto também. E naquela aflição, e eu estava muitíssimo aflita mesmo, o rapaz do sorriso me dizia pra ficar calma, pegando meu celular e sumindo com ele, olhei pra ela e disse. Eu me lembro exatamente das palavras que eu falei.

-- Nega, fala pra minha mãe que eu a amo e que peço desculpas por tudo que eu a fiz passar. E fala pro meu pai que eu o amo demais.

Ela ouviu, e com uma calma que definitivamente não é característica fez sinal positivo com a cabeça. Naquele momento eu chorava como uma louca, com os olhos fechados e com as mãos sobre o aparelho que emanava uma energia fenomenal. Durou alguns segundos apenas. Eu abri os olhos e toda aquela luz, que tendia sempre a se intensificar, não me deixava ver absolutamente nada. E ao mesmo tempo que estava com um medo dos infernos eu queria aquilo. Deus sabe como e quanto eu queria... é como se tivesse esperado por aquilo a minha vida toda e finalmente estava acontecendo, mas foi algo que aconteceu de repente, sem que eu pudesse me preparar para aquilo. Você me entende? E naquela de abrir os olhos eu pude ver algo que parecia um portal... mentira. Parecia uma janela do Windows XP, toda escura, meio cinza que ia chegando perto lentamente. Sem contar um barulho muito louco, um som... sabe aquele som de cinema padrão THX? Deep Note, se chama assim. Depois procura isso pra ver. São notas crescentes que dão uma sensação de som intenso. Enfim.

Aquele cinza foi chegando cada vez mais perto, o som cada vez mais alto e eu cada vez mais perturbada com aquela mistura indescritível de medo e desejo. Então, como acontece quando você liga uma TV antiga, ela demora pra sintonizar, a sensação foi a mesma. Aquele cinza passou por mim, atravessou meu corpo e de repente tudo ficou branco e foi clareando bem lentamente. E eu já estava quase sem ar. A medida em que minhas vistas iam desembaçando eu podia ver muitas cores e sons variados, mas alguma coisa me dizia que nada daquilo era estranho. Quando dei por mim, estava em pé com algumas sacolas nas mãos dentro do supermercado, olhando para as melancias. Antes mesmo de surtar e querer sofrer algum tipo de ataque do pânico eu acordei, deitada na minha caminha, quentinha e perplexa.

Antes que você diga alguma coisa, posso adiantar que ontem a noite, antes de dormir, não bebi, não usei drogas e nem tomei aquele remedinho da doutora. Não vi nenhum filme nem li alguma revista ou artigo sobre qualquer coisa descrita. Nem mesmo durante todo o dia de ontem, que como todos os outros foi tranqüilo e tediosamente normal. E, meu amigo, eu escrevi isso tudo mesmo só pra dizer que eu me senti um maldito Leonardo de Caprio... quer um Inception melhor que esse? Um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho! Fuck yeah!

Mas... você nunca vai fazer ideia de como isso tudo foi real... Ah, meu sonho!



Tirando a parte de espelhar as coisas, era exatamente assim.



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