Tal de "trair e coçar"
Então. É incrível como as pessoas mudam. Mais incrível ainda como há alguns anos atrás eu não seria capaz sequer de dizer tais palavras. "Eu" e "mudar" na mesma frase? Jamais. Mas como é incrível mesmo essa coisa de viver, não? Naturalmente, nossas experiências nos dão, lentamente, uma outra percepção das coisas. O que era feio passa a ser tolerável, o que era perfeito passa a ser repugnante. Mais uma das incríveis maravilhas de ser humano - ter o poder de mudar. Enquanto os outros animais vivem a vida toda puramente por instinto, nós temos o dom de poder mudar um pouco as coisas de vez em quando. Talvez até seja um instinto humano disfarçado de poder, talvez. Mas isso não muda o fato de que, querendo ou não, um dia sempre acontece de vomitarmos nossas mais sólidas certezas e nos embebedarmos dos mais novos fatos.
Escute isso:
- Como assim? - com um olhar um tanto aterrador. Olhava-me como se eu fosse alguma espécie de alienígena ou algo do tipo. Com uma indignação, com uma dúvida... eu não entendi aquele olhar, mas continuei falando. Eu sempre falo.
- Ué, isso tá errado, não? - com um olhar um tanto aterrador. Olhava-a como se ela fosse uma espécie de alienígena ou algo do tipo. Com uma frustração, com uma dúvida... ela provavelmente não entendeu aquele meu olhar, mas continuou falando mesmo assim. Ela também sempre falava.
- Acho isso muito normal. Isso não vai mudar o que eu sinto.
- Hum.
Você seria capaz de descobrir do que diabos essas duas pessoas estariam falando, valendo um milhão de dólares? Não... e a conversa foi apenas essa, foi só isso. Foi o suficiente pra nós. Isso aconteceu há mais de cinco anos, me lembro como se fosse ontem devido a sua repercussão no resto da minha vida. Os dois seres falavam de um dos ditos "tabus" mais insuportáveis da história da humanidade - trair e coçar. Dizem que é só começar.
Na época dessa "conversa" eu passava por um momento de quebra de paradigmas. E quem me conhece desde aqueles tempos sabe que quebrar paradigmas não é comigo. Ou não era. Era uma daquelas que fazia apologia contra as coisas. Tudo. Como dizia minha mãe - era do contra. Mas eu tinha lá os meus motivos para desacreditar das coisas. Lembro-me perfeitamente do primeiro "poema" que escrevi, numa folhinha de caderno, daqueles pequenininhos que nem existem mais. Como era mesmo o nome? Acho que "Apologia" mesmo, bem esse nome. Estou sentido um leve frenesi por me lembrar dessas coisas... lembro-me do primeiro verso 'De repente, os olhos não se cruzavam mais' e do último '...quando deveria ter-lhes sido dito: até que as desilusões os separem.' Dá pra acreditar nisso? Uma criança com seus doze, treze anos de idade fazendo apologia contra o casamento? Freud e seu charuto fedorento provavelmente diria que é elementar, que meus pais se divorciaram quando ainda era muito pequena, que minhas referências teriam sido abaladas, e elementar, elementar... Pode ser, mas o fato não é esse.
Sejamos diretos, meu tempo é curto - traição. Dentre os mil significados que o Priberam mostra, o meu predileto é: "Quebra aleivosa da fé prometida e empenhada." Analisemos, sem sarcasmos ou ironias. Mas antes... você sabe como eu sou. Preciso alimentar essas conversas com minha psicóloga imaginaria com contextos e mais contextos... Num passado um pouco distante este "ato", por assim dizer, não fazia parte de forma alguma de qualquer forma de pensamento que eu pudesse ter. Acreditava que a infidelidade (conjugal) era algo abominável e repugnante. Por quê? Porque é algo que se faz consciente, e essa palavra já diz tudo. Consciente. Pleno de suas implicações e consequências. Não entendia como alguém que dizia 'amar' alguém (lembrando também que na época fazia apologias contra isso de "amor") conseguia sentir qualquer tipo de atração, repito, qualquer tipo de atração por outra. Via sempre como excesso de "mau-caratismo" e leviandade. Até, claro, acontecer na minha porta. Mas essa é outra história, o tempo é curto.
Depois das minhas teorias sobre amor caírem por terra pude ver melhor mesmo do lado de dentro. Mas... como sempre, eu não sou dessas. Não sou dessas pessoas normais. Em mim, sempre haverá poréns. Deixa eu te explicar melhor, doutora. Um dos meus (poucos) paradigmas que insiste em sobreviver às minhas mudanças de era é o fato de acreditar que o que há de mais valioso no mundo é minha liberdade. E entenda liberdade em toda sua amplitude, em todo seu alcance. Eu sou bem lúcida quanto a relacionamentos. Não existem para sempres ou até que a morte nos separe. É inviável e sufocante. Aprisiona e causa dependências psíquicas, um horror! Um mal absurdamente desnecessário. É claro que não é tão simples assim usar somente de razão, aliás, impossível. Mas acredito ser importante ter consciência de que tudo passa, por mais profundo e sincero que seja. E dentro dessa minha lucidez carrego algo que somente mentes muito libertas e desprendidas conseguiriam entender... aquela minha liberdade!
Hoje, sou totalmente desprendida dessas grandes amarras sentimentais. As pessoas geralmente tem uma necessidade incrível e, por que não, obsessiva de estar próximo do seu amado o tempo todo de forma a não compreender que antes de estarmos dois, somos apenas um. Um ser que sempre terá as mesmas necessidades com ou sem a sua interferência na vida do outro. E o primeiro erro de todos é tentar iniciar um relacionamento com alguém que não compartilha dessa mesma filosofia. Não há a menor possibilidade de longevidade. Não julgo as pessoas pelo que elas são e não tenho pretensões de que sejam todas iguais a mim e que compartilhem das minhas ideias. Mas tenha certeza de que suas ideias moldam meus critérios seletivos. Com certeza! Não troco minha liberdade pela opressão de um amor, ainda que apaixonante e sincero. Minha liberdade não tem preço.
- Mas que liberdade é essa, afinal de contas?
- Pois bem... não posso me sentir oprimida, coagida, tolhida... não posso aceitar que alguém tente moldar meus pensamentos ou tentar me coagir a fazer algo. É repugnante e inconcebível.
- Não entendo. Você iniciou a conversa falando sobre traição e agora me diz isso tudo sobre liberdade. Está dizendo então que traição é natural para você?
- Não, doutora. Tenha fé!
- Explique-se melhor.
- Sente-se, por favor. E troque essa música, péssimo gosto.
Vou explicar como as "coisas" funcionam na minha mente alienígena, pode ser? Ok. Quando estou com alguém - e perceba a raridade desse fato, 'estar' com alguém - não sinto mínima vontade, desejo ou sinônimo de me relacionar, de qualquer forma que seja, com outra pessoa. E ao contrário - faço o possível para que este alguém se sinta o ser humano mais querido e amado do mundo, estendendo tapetes, abrindo portas e acendendo velas. Sim, dessa forma mais piegas e antiga, como o próprio maldito Shakespeare! É natural, poxa vida! O que eu posso fazer? Aí está o dilema. As pessoas desse planeta estão naturalmente condicionadas a não acreditar numa palavra do que digo. O que é natural pra mim é tão raro para elas! E outra questão tão grave quanto é a da casualidade e liquidez... ah, a liquidez! As pessoas andam por aí se gabando por conseguir manter vários enlaces afetivos ao mesmo tempo e por quê? Pra que? Eu não consigo entender toda essa necessidade física e sentimental. Chega-se ao ponto onde é preferível sofrer junto a viver em paz sozinho. Quanta necessidade! As pessoas me parecem ser uma caixa, toda quadradona, e profundamente vazia, onde sua existência consiste apenas na infinita busca por algo que as encha. Sejam flores do campo ou estrume de vaca, o importante é ficar cheio!
Percebe que isso não faz o menor sentido? Ah, mas eu estou fugindo muito do meu foco... esses assuntos possuem uma dimensão muito grande, sabe doutora? Já sei, não precisa ficar olhando pra esse relógio. Eu preciso ainda dizer mais uma coisa. Deus. Sim, sim, aquele Criador dos céus e da terra e... bem, você conhece a história toda. Deus teve ótimos engenheiros, mas nenhum cientista de software descente. Como Ele - como "e" maiúsculo mesmo - pode criar o ser mais perfeito do mundo, livre e consciente, dotado de habilidades únicas e instalar um software tão defeituoso quanto esse tal de "emoção"? Cara, não dá pra acreditar que existe algo dentro de mim que pode vir à tona o tempo todo e que eu não possuo nenhum controle sobre isso! É inacreditável! Eu sou metódica e racional demais para crer que exista algo que é meu, só meu, que parta de dentro pra fora e que não posso controlar. A realidade é frustrante! Chegamos então "a" questão crítica da coisa toda.
Não sinto, de verdade, necessidades de me relacionar com outras pessoas, em qualquer sentido, quando 'estou' com alguém - confere. Não sou daquelas de sentir atração física, como um animal qualquer que atiça seu desejo apenas ao olhar um pedaço de carne - confere. Não sou dessas que, por Deus, "ficam" com as outras - isso provavelmente é um das coisas mais estúpidas e sem sentido que acontecem quando as pessoas 'tentam' se relacionar - ok, confere. Não sou um animal que caça, mulher não é uma presa. Não sou superficial, rasa. Confere, e confere. Agora... como evitar o inevitável? Me diz? Responda, doutora? Para que serve aquele diploma de doutorado da USP ali na parede senão para responder a essa simples e despretensiosa pergunta? Como evitar o inevitável?
- Sua pergunta é um paradoxo. Não há resposta, nem certa nem errada. Há apenas considerações.
- Sua retórica é perfeita!
- Como você tenta evitar o inevitável?
Eu não tento. Aliás, eu nem busco nada, nunca. Nunca estou naquela busca de alguém para tampar a minha panela. Você sabe que eu vivo bem só, e muito bem, obrigada. A solidão não me incomoda, o que me tira o sono mesmo é o inevitável... Pois, veja bem. Se eu não busco nada, você já deduziu - e corretamente, inclusive - que eu deixo as coisas acontecerem naturalmente. Sabe, aliás, que essa é uma das minhas bandeiras - o natural. Tudo que é forçado e coagido certamente é mal intencionado. Não há como "tentar querer" gostar de alguém, supostamente isso deve acontecer por si só, é algo realmente alheio a nossa vontade. Certo, certo... a criticidade desse fato está em quando você se envolve com alguém que não está sozinho ou quando você mesmo não está. Entende? Agora, me diga, como lidar? Eu preciso revelar uma coisa, algo talvez que nunca tenha dito assim, tão diretamente. Eu não acredito em traição física, partindo, claro, do pressuposto que a outra pessoa compartilhe das mesmas ideias que as minhas. Físico é superfície. É pouco, é quase nada. Não deixo, claro, de achar uma estupidez e uma falta imensa de intelecto. Mas não significa nada! Trair apenas pelo simples prazer frio e rápido é afirmar sua própria ignorância! A traição real ocorre quando o inevitável acontece. Pois aí, minha cara, não é preciso um só beijo para afirmar o desejo!
Quando existe sentimento trai-se o que já se sente pela outra pessoa. Você consegue entender a profundidade do que estou tentando lhe dizer? Os sentimentos - os bons sentimentos, o desejo - são um vírus inevitável e sem cura. Se espalham silenciosa e rapidamente. Dominam de tal forma a reger nossos próximos movimentos sem que possamos interferir de qualquer forma. É desumano! Bem... como a medicina ainda não possui perspectiva de cura e como é absurdamente inevitável e alheio às nossas vontades, o fato é precisamos nos sentar e esperar. E quando por acaso acontecer, acredito que a melhor saída seja a aplicação de uma análise vertical. Sabe, análise vertical? Ok... a análise vertical é uma teoria dentro de finanças empresariais onde se avalia, através de um estudo financeiro-contábil bem simples, se é ou não viável investir em algo com base em seus custos ou benefícios. É bem simples - se os benefícios do novo investimento superarem os custos, invista. Se não, deixe tudo como está.
- Você consegue mesmo ser racional assim no tocante de seus relacionamentos?
- Mas que coisa! Você está aqui para me ajudar ou o que?
Sejamos diretos, meu tempo é curto - traição. Dentre os mil significados que o Priberam mostra, o meu predileto é: "Quebra aleivosa da fé prometida e empenhada." Analisemos, sem sarcasmos ou ironias. Mas antes... você sabe como eu sou. Preciso alimentar essas conversas com minha psicóloga imaginaria com contextos e mais contextos... Num passado um pouco distante este "ato", por assim dizer, não fazia parte de forma alguma de qualquer forma de pensamento que eu pudesse ter. Acreditava que a infidelidade (conjugal) era algo abominável e repugnante. Por quê? Porque é algo que se faz consciente, e essa palavra já diz tudo. Consciente. Pleno de suas implicações e consequências. Não entendia como alguém que dizia 'amar' alguém (lembrando também que na época fazia apologias contra isso de "amor") conseguia sentir qualquer tipo de atração, repito, qualquer tipo de atração por outra. Via sempre como excesso de "mau-caratismo" e leviandade. Até, claro, acontecer na minha porta. Mas essa é outra história, o tempo é curto.
Depois das minhas teorias sobre amor caírem por terra pude ver melhor mesmo do lado de dentro. Mas... como sempre, eu não sou dessas. Não sou dessas pessoas normais. Em mim, sempre haverá poréns. Deixa eu te explicar melhor, doutora. Um dos meus (poucos) paradigmas que insiste em sobreviver às minhas mudanças de era é o fato de acreditar que o que há de mais valioso no mundo é minha liberdade. E entenda liberdade em toda sua amplitude, em todo seu alcance. Eu sou bem lúcida quanto a relacionamentos. Não existem para sempres ou até que a morte nos separe. É inviável e sufocante. Aprisiona e causa dependências psíquicas, um horror! Um mal absurdamente desnecessário. É claro que não é tão simples assim usar somente de razão, aliás, impossível. Mas acredito ser importante ter consciência de que tudo passa, por mais profundo e sincero que seja. E dentro dessa minha lucidez carrego algo que somente mentes muito libertas e desprendidas conseguiriam entender... aquela minha liberdade!
Hoje, sou totalmente desprendida dessas grandes amarras sentimentais. As pessoas geralmente tem uma necessidade incrível e, por que não, obsessiva de estar próximo do seu amado o tempo todo de forma a não compreender que antes de estarmos dois, somos apenas um. Um ser que sempre terá as mesmas necessidades com ou sem a sua interferência na vida do outro. E o primeiro erro de todos é tentar iniciar um relacionamento com alguém que não compartilha dessa mesma filosofia. Não há a menor possibilidade de longevidade. Não julgo as pessoas pelo que elas são e não tenho pretensões de que sejam todas iguais a mim e que compartilhem das minhas ideias. Mas tenha certeza de que suas ideias moldam meus critérios seletivos. Com certeza! Não troco minha liberdade pela opressão de um amor, ainda que apaixonante e sincero. Minha liberdade não tem preço.
- Mas que liberdade é essa, afinal de contas?
- Pois bem... não posso me sentir oprimida, coagida, tolhida... não posso aceitar que alguém tente moldar meus pensamentos ou tentar me coagir a fazer algo. É repugnante e inconcebível.
- Não entendo. Você iniciou a conversa falando sobre traição e agora me diz isso tudo sobre liberdade. Está dizendo então que traição é natural para você?
- Não, doutora. Tenha fé!
- Explique-se melhor.
- Sente-se, por favor. E troque essa música, péssimo gosto.
Vou explicar como as "coisas" funcionam na minha mente alienígena, pode ser? Ok. Quando estou com alguém - e perceba a raridade desse fato, 'estar' com alguém - não sinto mínima vontade, desejo ou sinônimo de me relacionar, de qualquer forma que seja, com outra pessoa. E ao contrário - faço o possível para que este alguém se sinta o ser humano mais querido e amado do mundo, estendendo tapetes, abrindo portas e acendendo velas. Sim, dessa forma mais piegas e antiga, como o próprio maldito Shakespeare! É natural, poxa vida! O que eu posso fazer? Aí está o dilema. As pessoas desse planeta estão naturalmente condicionadas a não acreditar numa palavra do que digo. O que é natural pra mim é tão raro para elas! E outra questão tão grave quanto é a da casualidade e liquidez... ah, a liquidez! As pessoas andam por aí se gabando por conseguir manter vários enlaces afetivos ao mesmo tempo e por quê? Pra que? Eu não consigo entender toda essa necessidade física e sentimental. Chega-se ao ponto onde é preferível sofrer junto a viver em paz sozinho. Quanta necessidade! As pessoas me parecem ser uma caixa, toda quadradona, e profundamente vazia, onde sua existência consiste apenas na infinita busca por algo que as encha. Sejam flores do campo ou estrume de vaca, o importante é ficar cheio!
Percebe que isso não faz o menor sentido? Ah, mas eu estou fugindo muito do meu foco... esses assuntos possuem uma dimensão muito grande, sabe doutora? Já sei, não precisa ficar olhando pra esse relógio. Eu preciso ainda dizer mais uma coisa. Deus. Sim, sim, aquele Criador dos céus e da terra e... bem, você conhece a história toda. Deus teve ótimos engenheiros, mas nenhum cientista de software descente. Como Ele - como "e" maiúsculo mesmo - pode criar o ser mais perfeito do mundo, livre e consciente, dotado de habilidades únicas e instalar um software tão defeituoso quanto esse tal de "emoção"? Cara, não dá pra acreditar que existe algo dentro de mim que pode vir à tona o tempo todo e que eu não possuo nenhum controle sobre isso! É inacreditável! Eu sou metódica e racional demais para crer que exista algo que é meu, só meu, que parta de dentro pra fora e que não posso controlar. A realidade é frustrante! Chegamos então "a" questão crítica da coisa toda.
Não sinto, de verdade, necessidades de me relacionar com outras pessoas, em qualquer sentido, quando 'estou' com alguém - confere. Não sou daquelas de sentir atração física, como um animal qualquer que atiça seu desejo apenas ao olhar um pedaço de carne - confere. Não sou dessas que, por Deus, "ficam" com as outras - isso provavelmente é um das coisas mais estúpidas e sem sentido que acontecem quando as pessoas 'tentam' se relacionar - ok, confere. Não sou um animal que caça, mulher não é uma presa. Não sou superficial, rasa. Confere, e confere. Agora... como evitar o inevitável? Me diz? Responda, doutora? Para que serve aquele diploma de doutorado da USP ali na parede senão para responder a essa simples e despretensiosa pergunta? Como evitar o inevitável?
- Sua pergunta é um paradoxo. Não há resposta, nem certa nem errada. Há apenas considerações.
- Sua retórica é perfeita!
- Como você tenta evitar o inevitável?
Eu não tento. Aliás, eu nem busco nada, nunca. Nunca estou naquela busca de alguém para tampar a minha panela. Você sabe que eu vivo bem só, e muito bem, obrigada. A solidão não me incomoda, o que me tira o sono mesmo é o inevitável... Pois, veja bem. Se eu não busco nada, você já deduziu - e corretamente, inclusive - que eu deixo as coisas acontecerem naturalmente. Sabe, aliás, que essa é uma das minhas bandeiras - o natural. Tudo que é forçado e coagido certamente é mal intencionado. Não há como "tentar querer" gostar de alguém, supostamente isso deve acontecer por si só, é algo realmente alheio a nossa vontade. Certo, certo... a criticidade desse fato está em quando você se envolve com alguém que não está sozinho ou quando você mesmo não está. Entende? Agora, me diga, como lidar? Eu preciso revelar uma coisa, algo talvez que nunca tenha dito assim, tão diretamente. Eu não acredito em traição física, partindo, claro, do pressuposto que a outra pessoa compartilhe das mesmas ideias que as minhas. Físico é superfície. É pouco, é quase nada. Não deixo, claro, de achar uma estupidez e uma falta imensa de intelecto. Mas não significa nada! Trair apenas pelo simples prazer frio e rápido é afirmar sua própria ignorância! A traição real ocorre quando o inevitável acontece. Pois aí, minha cara, não é preciso um só beijo para afirmar o desejo!
Quando existe sentimento trai-se o que já se sente pela outra pessoa. Você consegue entender a profundidade do que estou tentando lhe dizer? Os sentimentos - os bons sentimentos, o desejo - são um vírus inevitável e sem cura. Se espalham silenciosa e rapidamente. Dominam de tal forma a reger nossos próximos movimentos sem que possamos interferir de qualquer forma. É desumano! Bem... como a medicina ainda não possui perspectiva de cura e como é absurdamente inevitável e alheio às nossas vontades, o fato é precisamos nos sentar e esperar. E quando por acaso acontecer, acredito que a melhor saída seja a aplicação de uma análise vertical. Sabe, análise vertical? Ok... a análise vertical é uma teoria dentro de finanças empresariais onde se avalia, através de um estudo financeiro-contábil bem simples, se é ou não viável investir em algo com base em seus custos ou benefícios. É bem simples - se os benefícios do novo investimento superarem os custos, invista. Se não, deixe tudo como está.
- Você consegue mesmo ser racional assim no tocante de seus relacionamentos?
- Mas que coisa! Você está aqui para me ajudar ou o que?
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| "Porque quem gosta de maçã Irá gostar de todas Porque todas são iguais..." (Paulo Coelho / Raul Seixas) |

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